O Último Romântico
de Paulo Marinho
OS HOMENS SÃO
UNS CANALHAS
-Nós somos tão....idiotas....-disse ela,
sentindo que poderia até chorar por jogar fora alguém como ele.
Segurou seu queixo e olhou fundo nos olhos dela. Sentiu tocando na
alma. Seu cabelo pinicava em suas bochechas, mas ela gostava. Em
seus olhos, havia uma sinceridade que raramente se via. Para falar a
verdade, ela nunca vira algo assim. -Mas todos temos uma chance,
o negócio é pegá-la. – disse ele, ainda olhando sua alma. Seu
cotovelo jogou a bebida na cal dele, mas nenhum deles se importou,
foi o beijo. Saíram correndo para o apartamento dela e fizeram amor
a noite toda. Amor. Nunca vira um homem tão carinhoso na cama.
Dormiu carinhosamente em seu colo. Ao acordar, viu que ele já
havia ido. E que havia levado algumas cosias suas, caras. Correu
pela casa. Bolsa, dinheiro, relógio. Uma carta em cima da
mesa. “O pagamento por uma noite inesquecível e uma história que
você nunca esquecerá. Do homem que você nunca soube o nome, para a
mulher que saberá o nome de quem amará.” Não chorou nem teve
raiva. Fechou os olhos na mesa da cozinha e pensou na história que
ele tinha montado. Um bom valor pago por um sonho tão bom. Só
faltava faze-lo.
Bukowski. Little Black is Fuck.
Noite vazia, provavelmente a noticia da volta do bar ainda não
circulou o Rio de Janeiro. No andar de baixo, várias patricinhas
vendo fotos de viagem ao som de Bob Marley. No andar de cima, três
casais nitidamente se preparando para uma noite de swing dançam
revezando-se na pista. No bar, os barmen conversam tranqüilamente
sobre algo. No sofá, um homem sentado sozinho, fumando seu
cigarro, tomando um copo cheio de vodka. Seu visual na hora bateu
Jackie. Cabelos longos e secos, uma barba bastante volumosa (como
adorava roçar uma barba em suas costas) e uma roupa com a mais
absoluta cara de pijama, uma camisa xadrez de flanela gasta e uma
bermuda com uma mancha de café. Sentou-se ao seu lado, mas ele
olhava atentamente a fumaça de seu cigarro subindo. Malboro, este é
homem mesmo, pensou. Colocou seu copo bem perto do dele. Nada.
Esbarrou sua perna na dele algumas vezes. Nada. Quando ensaiava uma
frase sobre a potencia do ar condicionado, ele levantara-se. Entrara
na pista. Ao segui-lo, pegou-o falando com o dj, que imediatamente
colocou sua música. Portishead. Wandering Star. Ele parou num
canto da pista, escutando a musica fascinado. Seus olhos eram
lindos. Um verde claro escondido entre as mechas de cabelo castanho
que escorriam pelo rosto. Ela o queria. Foi direta desta vez. Chegou
do lado dele. -Você quer dançar? Ele fitou-a de cabo ao belo
rabo e fitou seu rosto. -Voce vai me machucar. – e pegou um
cigarro para acender. Estática, ficou ali olhando para ele,
estudando-º Sujeitinho fascinante este. Deve estar fazendo
jogo.
AS MULHERES ESPERAM O PRINCIPE ENCANTADO
-Nós
somos tão....idiotas....-disse ela, sentindo que poderia até chorar
por jogar fora alguém como ele. Segurou seu queixo e olhou fundo nos
olhos dela. Sentiu tocando na alma. Seu cabelo pinicava em suas
bochechas, mas ela gostava. Em seus olhos, havia uma sinceridade que
raramente se via. Para falar a verdade, ela nunca vira algo
assim. -Mas todos temos uma chance, o negócio é pegá-la. – disse
ele, ainda olhando sua alma. Seu cotovelo jogou a bebida na cal
dele, mas nenhum deles se importou, foi o beijo. Saíram correndo
para o apartamento dela e fizeram amor a noite toda. Amor. Nunca
vira um homem tão carinhoso na cama. Dormiu carinhosamente em seu
colo. E nunca mais dormiu em outro lugar, nem comprara mais
nenhum Lui Vitton.
Mas não. Ela continuou insistindo
e viu que ele realmente não estava fazendo nenhum tipo de jogo. Ele
realmente não queria se machucar, tinha sentido que ela era daquelas
mulheres descartaveis, ou no mínimo que descartavam os homens.
Cansada, resolveu sair da pista e foi-se sentar na mesa de bar. Ele
voltou após suas músicas pedidas, para seu lugar no sofá. E ficou a
olhando atentamente. Ela sentia. Estava sendo comida pelos olhos.
Mas ele sempre desviava o olhar ao sentir-se observado. Ele foi
para seu lado. -Melhor você sasir de perto. Eu posso te machucar.
– disse ela, acendendo seu cigarro de Bali com um rosto sério. Ele
sorriu, ela retribuiu. -Posso te provar que eu não estava
brincando? – disse ele, fazendo uma concha com suas mãos e colocando
a fumaça dentro. -Você quer ficar comigo? – ela perguntou, já se
excitando com a situação. -Não. Sempre achei que isto é para quem
não tem isso. – e abriu aos poucos sua mão, fazendo com que a fumaça
saísse com um perfeito formato de coração, chamando a atenção até do
garçon. – E, quando tem, como é o meu caso, acontece, isto. – e
mostrou para ela o coração se desfazendo com o espalhar da
fumaça. -Então não entendi nada. -O que você quer de mim? Sexo
por uma noite? Um caso rápido? -Não sei. Sexo? Não, claro que não
– respondeu cinicamente, tentando tirar a imagem daquela barba
roçando em suas costas enquanto a comia por detrás. -Então queria
te mostrar o que aconteceria, porque gostei de você mesmo, não sei
porquê. -Como assim? Ainda não entendi lhufas. -Vamos
conversar sobre a nossa história, o que aconteceria a partir de
hoje, se nós acabássemos ficando aqui. Você quer ver? É
interessante, acho que vai te interessar. -Vamos! – disse ela,
achando que poderia provar para ele que não seria nada disto. Ele
começou, imaginando que cedeu a ela um beijo na pista ainda. Ela
falou que dançariam grudado a noite toda. Ele falou que preferiria
ficar papeando e bebendo no sofá, se conhecendo melhor, e se
devorando com olhares provocantes, seguidos de beijos e
carícias. Disse que escutaria cada palavra que ela falaria, e
discutiria com ela sobre a filosofia de Sócrates até seriados de
tevê. Ela disse que estaria fascinada e que ele estaria no comando.
Eu sei, respondeu, e eu te levaria para o Arpoador, para bebermos e
transarmos até o amanhecer ou até algum turista chegar. Ela disse
que ia ser ótimo. Ele complementou que se recusaria a fazer sexo sem
explorar e admirar cada poro dela. O garçon fingia que lavava alguns
copos, mas não tirava os ouvidos da história. Ela, só de imagina-lo
explorando ela toda, já ficara completamente molhada e entrara de
vez na história. Ela falou que mal conseguiria trabalhar. Ia
aproveitar que o dia seguinte era sexta, o dia em que menos
trabalhava, para ficar-lhe ligando. Ele respondeu que seria difícil,
porque ele lecionava aulas de literatura num curso de
pré-vestibular. Mas à noite, ambos se encontrariam no mesmo lugar e
iam brincar de que estavam se conhecendo de novo. Ela disse que
teria preparado todo seu apartamento com velas aromáticas e
passariam a noite assim. Estupefato, ele disse que acharia que
estava descobrindo, finalmente, alguém como ele. Ela ficaria
fascinada pelas palavras dele, e estaria apaixonada, mas se faria de
difícil. Ela disse que não. O garçon, reconhecendo a cliente, deu
uma certa risada, que ambos perceberam. Fingiu que era com alguém
atrás deles (tudo bem que não havia ninguém). Ela consertou, achou
que talvez fizesse o tipinho. Tudo bem, vamos desconsiderar esta
possibilidade, embora eu a ache provável, disse o barbado. Ela se
entregaria a ele, falaria que nunca havia sentido algo assim, alguém
que a escutasse tanto, e fosse uma flecha tão fulminante no coração.
Ela emendou falando que o levaria para os melhores lugares, os
melhores programas. Ele disse que toparia por uma semana, mas logo
após teriam uma conversa sobre futilidades da vida, que tudo isso
nada mais era do que uma supressão da carência que todos tem. Que
queria que ela entrasse de cabeça nisso. Você faria isto?,
perguntou. Ela disse sim, começando a achar que era um destes
filósofos que tentavam viver utopias dos grandes nomes. O garcon
segurou o mais que pode o riso com a aceitação dela. Porra, ela
sempre aparecia com uma bolsa nova cada semana, pensou. O cabeludo
também fez uma cara de incrédulo, mas continuou levando o falso
romance. Falou que na segunda semana ela levaria isto numa boa, e
começaria a tentar se desligar do material e viver a vida e o amor.
Mas a partir da terceira semana, as pessoas com quem se relacionava,
pais, amigos, iam começar a critica-la, a estranha-la. Por mais que
não se fale, isto vai abalando a relação. E as ligações de hora em
hora agora não seriam mais tão bem vindas. Os presentes que
receberia todo dia em seu trabalho começariam a virar uma tranqueira
em sua mesa, o que faria você começar a achar que era um maluco, um
obcecado, algo do estilo. -Nunca! – disse ela. -Não, isto eu
sei que não. – continuou, pedindo mais uma vodka para o garçom
fascinado pela história. – Eu conheço o suficiente a alma feminina.
Vocês sempre falam deste romantismo, que adoram, e realmente adoram.
As vezes. Quando ele se torna constante, da no saco de voces. Você
já não estaria com jeito de falar comigo ao telefone, começando a me
dispensar, dizendo que esta acumulada de trabalho, ou algo assim.
Não conseguiria mais se fascinar pela minha simplicidade, estaria
cansada de meus poemas e de minhas admirações por você. Começaria a
querer fazer brincadeiras na cama, e eu somente querendo você como
você é. Sua paixão ficaria em cheque. -Tudo bem, mas poderíamos
passar por cima. – disse ela, realmente sentindo-se na
história. -Não. Eu não mudaria meu jeito. Não vejo erro nisto que
faço e sinto. Continuaria. Algum dia, você veria alguém na rua e
sentiria algo diferente. E aí, uma hora ou outra, me diria que não
dava pra continuar. Existem mil e uma maneiras: estando começando a
duvidar que lidaria bem com isso o resto da vida, estando cansda
mesmo disso, ter se interessado por outro, dizendo que acabou. Você
sabe como é. Um silêncio. -Cheque mate. Acabaríamos, você
choraria por uma semana eu por alguns anos ou para sempre. Pois sei
que o amor verdadeiro não é substituível, e, se eu te amava, não
poderia deixar o que sinto para trás como
você. Silencio. -Voce vai fundo assim nas
relações? -Vou. -Sempre? – diz ela, acabando seu
chope. -Claro. -Por que? -Porque eu sou o último romântico.
Literalmente. Ela ri com um canto da boca. -É sério. Sou o
último de uma linhagem de anos. Estamos acabando. Aqui no Brasil
ainda agüentamos um pouco no interior, mas não por muito tempo.
Posso não ser o ultimo, mas pelo menos, o ultimo do Brasil. Isto e
passado de pai para filho. É um tipo de
educação. -...Sério? -Sério. Ela ficou olhando para ele,
fascinada com a história, e fascinada por sentir que provavelmente
era verdade.
A REALIDADE ANDA SURREAL
-Desculpa
por tentar algo com você...- disse ela, sem graça por ver que queria
banalizar alguém tão significante nos dias de hoje. -De nada.
Sabe, podia ter sido você. -Jura? -Juro. Sempre faço isto da
história quando sinto que posso ter encontrado ela. Mas não. Até
hoje não. Preciso encontrar uma mulher que entenda isto. Para
podermos recuperar nossa linhagem. Ou, pelo menos, manter o
romantismo fora das folhas de papel ou de cantadas baratas de
namorados. -Boa sorte, disse ela, levantando a mão para ele
cumprimentar. -Obrigado. – ele respondeu, levantando-se e
beijando sua mão. Foi embora. -Você sabe qual o nome dele? –
perguntou ela ao garçom. -Não faço a menor idéia. Nunca o vi
aqui, mas juro que já o vi por outro lugar. -Talvez em
livros... -Talvez. Só pode. E elas voltou para a pista, agora
com mais pretendentes para sua noite, mas com uma parte urrando para
que nunca mais fizesse isto.
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