Deux Ex Machinea 
de Paulo Marinho

Li o Fonseca falando que quase todos os contos começam com o personagem acordando, então, Paulo estava indo almoçar. O Centro do Rio de janeiro na hora do almoço é um caos. Se tem que escolher do que fugir: os caras querendo te dar papeizinhos de empréstimo ou de compra e venda de jóias, a passeata do dia, da pivetada batendo as carteiras, do engarrafamento humano na Rio Branco ou daqueles que você não quer encontrar mas é impossível no almoço.

Porra, me põe pra fazer algo maneiro, bicho!

Ta bom, peraí. Fim de mês, os tickets refeição já no fim, a solução é McDonalds mesmo.

Melhorou.

A fila do lanche para viagem estava rápida. Pediu seu número um e

Número quatro!

Pediu seu número quatro e foi procurar uma mesa. Só tinha lugar dentro do salão de festas. Sentou-se em frente a pintura do Papa Burger. Uma criança chorava feito ...criança no escorrega ao seu lado. A mãe discutia com o filho mais velho que insistia em comer meleca entre as batatas. Nada deixava Paulo mais puto que estas mães que nem ligam para seus filhos.

Beleza, me deixa louco e sair dando porrada nela!

Falei pro editor que não ia matar ninguém esta semana!

Uma porradinha. No garotinho, então!

Calaboca! O som da criança ficou de lado com a música sertaneja que tocava na rádio. Só acordou quando alguém cutucou-o no ombro. Era Marco, um amigo de seu antigo emprego. Sentou-se na sua frente e ficaram batendo papo do que fizeram nos últimos tempos.

Blá, blá , blá de novo não!

Paulo se desligou do que Marco falava olhando uma garota que sentara na mesa em frente. De taiê, bolsa Vitor Hugo e duas mauricinhas a tiracolo. Não gostava muito deste estilo, mas algumas saltavam os olhos. Esta era uma.

Continuou concordando com qualquer coisa que seu amigo falava, sem tirar a atenção da garota. Mesmo arrumada, se melava toda com o molho do sanduíche. Quando ela ficou com uma barbicha de maionese, ele riu. Ela levantou o rosto e sorriu também. Não estava nem um pouco sem graça.

E.... faz algo, porra!

Marco finalmente se mancara que seu amigo não escutara uma palavra do que dissera e virou-se para ver o que tanto olhava. Falou que conhecia a garota, ela estava trabalhando na mesma empresa que ele.

Mela cueca de novo.

Paulo lembrou de sua namorada, tentando esquecer do que estava vendo. Eram hormônios, tesão passageiro, só isso. Mas a garota também não parava de olhar. Dava um sorriso discreto e parecia não escutar o que suas amigas falavam. Paulo esfregou seu queixo, avisando que ainda havia maionese. Ela deu um lindo sorriso branco e limpou com o guardanapo.

Vai ser mela cueca, né?

Dá um tempo e come seu sanduba, mermão!

Você vai querer me fazer ficar com ela ou ficar com crise de consciência, né?

Talvez, por que?

Que coisa gay, bicho!

Para de reclamar! Nem devia ter te criado!

Você chama isso de história? Deixeu te contar o que história: me põe dormindo num ônibus e saltando sem querer no meio da favela, onde...

Cara, dá um tempo! A história é minha!

Mas a vida é minha! Vê se faz ela direito. Num me deixa perdido sem sentido!

Ah vou desistir. Tu é muito chato, mermão!

E você com esta porra de crise sentimental? Mulher não gosta mais disso não, bicho. Assim tu nunca vai...

Parei. Tchau.

Peraí, bicho! E eu? O que eu vou fazer? Peraí, tava ficandolegal! Num para naum! Bicho, volta! Acaba a história!!!