Tom Zé
SESC Taubaté
- 18/08/2002
por
Leonardo Vinhas
foto
Wellington Dias
É necessário
admitir sem demagogia: o SESC é um clube muito legal. Preços
muito acessíveis, viagens regulares e bacanas, intensa atividade
recreativa e muito verde, além, é claro, da programação
cultural. A unidade de Taubaté, ainda que adequada à "realidade
local" (os taubateanos são bastante convencionalistas), não
foge à regra. E numa ensolarada e agradável manhã
de domingo, às 11h, a tenda central do lugar estava cheia para testemunhar
a apresentação de Tom Zé.
Sobre Tom Zé
a imprensa fala muito, e poucas vezes de maneira isenta de preconceitos
ou afetações. Seus detratores reclamam da suposta "cabecice"
ininteligível de suas composições, enquanto os entusiastas
se desmancham com todos os trejeitos forçados possíveis pela
sua postura "anarquista" e "anti-institucional". Tente deixar essas opiniões
pré-moldadas e as conversas de seus amigos (modernos, universitários
ou roqueiros) de lado e tente imaginar o que as linhas abaixo descreverão.
O show começou
apenas 20 minutos depois de iniciado. Explica-se: no começo, sozinho
no palco, ele alternou brincadeiras, improvisos e trechos de suas músicas
para "acordar" e fazer o mesmo com o público. Deu certo: até
quem estava jogando bola nos campos do SESC parou para ver. Chamando ao
palco o violonista e percussionista Jarbas Mariz, os dois engataram uma
seqüência que poderia ser definida como folk brasileiro, nem
um pouco folclórico. Como apenas dois violões conseguem soar
tão fortes e conclamatórios, é coisa que nem o próprio
Tom deve saber responder. Se perguntado, ele provavelmente diria "ô,
meu fio, é a vontade tocar, sabe?". Nesse primeiro momento, "Made
In Brazil", "Jimi Renda-se" (sem o buzinório de estúdio)
e "A Chegada de Raul Seixas e Lampião no FMI" saem poderosas, com
riffs memoráveis e refrãos bastante memorizáveis,
ainda que nada comuns. "A Chegada...", com mais de 10 minutos, incluiu
a única concessão populista do espetáculo: uma breve
citação de "Maluco Beleza".
Essa é
mais uma das diferenças de Tom Zé em relação
aos seus colegas de geração: em vez dos trejeitos calculados
e assépticos de Gilberto Gil ou das afetações "ousadas"
(como regravar bregões) de Caetano Velloso, Zé não
segue nenhuma cartilha pré-estabelecida para se apresentar ao vivo.
Além disso, subverte sua própria programação,
incluindo músicas que lhe vem à cabeça no momento,
chegando até a interromper o que está tocando. Quando começou
sua sessão de "músicas engajadas" ("mas não engajadas
assim como o pessoal faz, um negócio mais no humor, sabe?", definiu),
logo pôs o pé no freio e tocou "Augusta", porque "ela fica
bem depois de 'São Paulo, Meu Amor', não é mesmo?"
- e depois tocou outras duas para somente aí voltar àquela
que ele havia abortado.
Entretanto,
o que mais se destaca em Tom Zé é que ele nunca se acomoda.
Em momentos mais líricos ou em incursões experimentais, ele
sempre soa anárquico (nunca anarquista, como insistem em dizer os
deslumbrados). O músico sente-se livre para seguir seus caminhos,
e segue subvertendo seus próprios conceitos, fugindo de qualquer
estética óbvia e preservando o prazer de usa música,
seja para ele próprio ou para a audiência. Bastava ver a quantidade
de gente numa barraquinha ao lado do palco comprando seus discos durante
e após a apresentação, gente que em sua maioria nunca
havia escutado seu trabalho até então, no máximo ouvira
falar.
Após
um recheio de boas canções de diversos períodos de
sua carreira, veio a tal "sessão engajada", que incluiu uma versão
divertidíssima de "Politicar" (aquela dos versos "vá tomar
no verbo / seu filho da letra / (...) / vá tomar na virgem
/ seu filho da cruz!"). Ao término desta, Tom e Jarbas encerraram
o show e foram aplaudidos de pé com um entusiasmo raramente visto.
Voltaram imediatamente, tentando coletar pedidos do público. Como
"não se lembram bem" da maioria das canções, ficam
só em pequenos trechos. Para acabar de vez, interpretam meio no
improviso "Conto de Fraldas" e "Namoro de Portão", regravadas respectivamente
por Tianastácia e Penélope. Mas só porque a rígida
organização do SESC não permitia estender o horário.
Durante todas
as músicas apresentadas, Tom Zé contou histórias de
sua vida e sua carreira (incluindo um breve episódio sobre uma mulher
"caridosa" que ganhou uma música sua, a "Maria Bago-Mole", também
conhecida como "Maria Engole-Rola"), explicou a origem das canções,
e principalmente, provou que a música não tem limites - impressão
que eu havia tido ao ouvir "Casa Babylon", do Mano Negra, mas que só
fui entender após ver aquele velhinho saltitante puxar uma zoeira
tremenda com um violão, conseguindo colar cada uma das músicas
em nossas células cinzentas.
Tom Zé
em disco pode até ter momentos herméticos, mas ao vivo ele
é desconcertantemente simples. Com dois violões e em plena
luz do dia, o palco do SESC Taubaté exibiu o melhor que a arte oferece:
diversão, contestação e reflexão. E o responsável
por isso tudo ainda ficou por lá, rebatendo os elogios com desajeitados
"ô, obrigado, mas não foi tudo isso, não".
MPB? Alternativo?
Hermético? Foda-se, Tom Zé é excelente. E se você
delira com a chiadeira udigrudi do pós-rock ou pira na maionese
MPBista dos "ousados" Zeca Baleiro e Chico César, não se
preocupe: um show do Tom Zé cura você com uma única
contra-indicação: muita coisa vai soar sem graça depois.
Leonardo Vinhas
anda numa fase "foda-se quase tudo", mas desligou-se completamente |