Na Paz, Fernanda Abreu EMI)
14/02/2005

Fernanda Abreu estreou solo em 1990 com o matador Sla Radical Dance Disco Club, um disco de funk e dance de primeira qualidade, que fez sucesso nas rádios (A Noite, Você Pra Mim) além de trazer pequenas pérolas, como Speed Racer e Luxo Pesado (Got To Be Real). Depois, a cantora ficou devendo um disco a altura da estréia, só tendo cravado um grande hit em seu segundo disco, o hino carioca Rio 40 Graus. Quando nada mais parecia surgir dessa cartola, a garota sangue bom retorna com um álbum deliciosamente acachapante, que foi lançado no meio de 2004, e praticamente passou desapercebido pela crítica e pelo público, honrando o velho ditado de pérolas aos porcos.

Amparado na utopia de um mundo melhor, Na Paz, o álbum, é acerto sobre acerto, um disco tão bom que dá vergonha ouvir quase oito meses depois de lançado. Começa com Brasileiro, versão suingada de uma música-lamento do cantor angolano Teta Lando, que prega "Um Brasil verdadeiramente livre / Um Brasil independente", e conta com a participação de Martinho da Vila, mandando o recado: "Humanize a riqueza. Abomine a avareza. Se liberte do consumismo". Eu Vou Torcer é uma das pérolas da Tábua de Esmeraldas de Jorge Benjor, que traz versos como "Eu vou torcer pela paz, pela alegria, pelo amor / Pelas coisas bonitas, eu vou torcer, eu vou" em um arranjo que destaca uma citara. Benjor participa de Zazué, uma espécie de Charles Anjo 45 versão 2004, "Mas o tempo mudou / O morro mudou / E o futuro de Zazué todo mundo conhece / O seu destino já está escrito", diz a boa letra.

Dois Namorados é uma balada exemplar, resumo de um relacionamento sob um arranjo sublime. Padroeira Debochada é a colaboração de Fausto Fawcett ao disco, uma letra de bons achados, cujo ápice é o refrão: "Não tem pra Jesus Cristo / Não tem pra ninguém / Nem São Sebastião / No Way". A Onça traz o trio Nação Zumbi Pupilo, Dengue e Lúcio Maia, além de um rap de Black Alien (e a linda frase "O meu olhar esquadrinhando a selva urbana / o coração de quem não come há uma semana"). Pra fechar, dois sambas de lavar a alma: Sou Brasileiro - que conta com a participação de Mart'nalia - e o clássico Não Deixe o Samba Morrer. Lançado pelo selo da própria cantora, Na Paz coloca a música brasileira na linha de frente do melhor do pop mundial. De produção matadora e letras inteligentes, Na Paz flagra Fernanda Abreu reverenciando o passado sem esquecer que o futuro está ali na porta, olhando nos olhos. Ela não foge do olhar, só espera que ele esteja armado... de flores.

Por Marcelo Costa