BELEZA DIVERGENTE
Blanched – Entrevista
por Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br

Blanched é uma banda de Novo Hamburgo (RS), cidade situada na região conhecida como Vale Do Rio Dos Sinos, um efervescente (sic) celeiro de bandas localizado a cerca de 35km de Porto Alegre. 

Atualmente, o som do grupo é uma agremiação de ótimas influências (Velvet Underground, Joy Division, Radiohead, Mogwai, Sonic Youth) coroadas por letras diferenciais (leia-se: inteligíveis, bem escritas, e em português). É formado por Leonardo Fleck (letras/vocal/guitarra), Marcelo Koch (bateria), Israel Monteiro (guitarra), Carlos Bergold (baixo), e, desde este ano, Priscila Wachs (flauta transversa), que oferece um viés melodioso ao caos guitarreiro promovido pela banda.

Em 2001 lançaram seu primeiro EP/demo (homônimo) com cinco músicas, que, segundo o vocalista, tendo sido gravado às pressas e com verba reduzida, resultou em algo que nem de longe retrata as ambições da banda. Tanto que, tão logo a tiragem inicial de 70 CDs se esgotou, a banda não fez a mínima questão de produzir mais cópias. De fato, o primeiro trabalho deixava um bocado a desejar, tanto em produção quanto em performance – ainda que já denotasse algum potencial. O som era calcado em uma vertente de barulho mais convencional, ainda que flertasse com algumas quebradas de bossa nova. O vocal de Leonardo, no entanto, não se encaixava bem em algumas faixas, e ficava a impressão de que as coisas tinham que melhor um bocado para que a Blanched tivesse alguma perspectiva. Felizmente, as coisas mudam radicalmente de figura no novo trabalho da banda (ver resenha ao fim da entrevista).

Entre copos de cerveja choca e em meio a um inconstante clima que não se decidia entre frio e calor, o vocalista Leonardo Fleck falou ao Scream & Yell sobre os novos e promissores rumos adotados pela banda.
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Scream & Yell – Por que montar uma banda?

Leonardo Fleck – Não tem um motivo muito específico. Eu e o Israel, que somos amigos de infância tivemos a idéia de montar a banda. A idéia surgiu uns cinco anos atrás, mas a banda só existe de verdade há uns dois anos. Falando somente por mim, te digo que banda é minha única forma de expressão e desabafo. Quem me conhece, saca que a maioria das letras é autobiográfica, chega a ser descarado. Financeiramente, só me dá prejuízo, mas eu não abro mão dela de jeito nenhum.

S&Y- O que vocês tocavam no começo?

Leonardo – A gente tocava Nirvana (umas duas músicas). Mas a gente nunca foi banda cover – levamos dois anos ensaiando e compondo antes do primeiro show. Daí todo mundo começou a namorar e nunca mais a gente tinha horário pra se encontrar. A banda virou banda mesmo quando a gente gravou a primeira demo – isso sem nome ainda.

S&Y – E esse nome?

Leonardo – Fui eu que bolei. Vem da Kate Blanchet [atriz, protagonista de "O Dom Da Premonição" e "Elisabeth"].

S&Y – Sério?!!!!!!!!!

Leonardo – É. Só mudei a grafia. Depois a gente descobriu que em inglês significava "desbotado, pálido" – que também tem a ver com o nosso som. Tem esse negócio da Kate Blanchet porque gosto muito dela, tem a ver com aquilo que foi colocado no release do CD, de uma beleza diferente e fora dos padrões convencionais. Na verdade eu adoro a Liv Tyler. Mas "Liv" fica horrível. (risos)

S&Y – Eu percebo que rola um grande desgaste na manutenção da banda (aliás, como na maioria das bandas independentes), parece ser algo penoso de se manter. Então te pergunto: o que te leva a continuar?

Leonardo – Teimosia. É aquela choradeira de banda independente: não tem lugar pra tocar, não toca no rádio, a gente não tem a oportunidade de registrar tudo que compõe, falta grana. Toda a minha grana vai pra banda, nos últimos dois meses tudo que eu ganhei foi  nisso – sorte que minha namorada tá morando no exterior, senão ela ia cair na minha cabeça. (risos)

S&Y – O CD novo tem uma produção muito boa. Vocês não pensam em registrar as coisas de um jeito mais lo-fi, mais baixo orçamento, pra agilizar?

Leonardo – Não, porque isso já foi feito na primeira demo, e não ficou bom. São músicas ótimas, que se tivéssemos a oportunidade de regravar ficariam boas. 

S&Y – Mas esse lance de lançar CD de poucas faixas não pode dificultar que a banda se consolide?

Leonardo – Pra quem ?

S&Y – Sei lá, pro público em potencial.

Leonardo – Não, acho que não. O som tem que ficar do jeito que a gente acha que está bom, e daí a gente lança. Talvez a gente compile tudo um dia e lance um CD de maior duração.

S&Y – Mas não corre o risco de ficar meio heterogêneo? O CD anterior tem uns lances de bossa nova que aparentemente já não fazem mais parte do som da banda.

Leonardo – É verdade. Aquilo foi idéia minha – adoro Tom Jobim.

S&Y – E as influências do pessoal da banda? São homogêneas?

Leonardo – Não, não são muito. Pra ti ter uma idéia, nosso batera toca numa banda de hip-hop [a Humanos]. Agora, em função da banda, a gente tem escutado um som mais parecido. Foi o Radiohead que abriu a nossa cabeça pra melodia, que afastou a gente um pouco daquela sonoridade garageira do começo.

S&Y – Que bandas do cenário local tu destaca como interessantes?

Leonardo – A Deus E Diabo [de Porto Alegre] é uma das minhas bandas favoritas. E a Walverdes [também de Porto Alegre], claro, pela sonoridade e pelo exemplo que eles são para os independentes. 

S&Y – E do cenário nacional?

Leonardo – A Frank Poole [Distrito Federal] eu adoro. Gostaria de tocar com eles. Gostei também da Casino [RJ, antiga 4 Track Valsa]. Não sou um cara chato, mas são poucas as bandas que eu gosto. Das mais conhecidas, Los Hermanos, que eu fui no show e achei demais.

S&Y – E por quê vocês disponibilizaram as músicas em MP3? Não é contraditório lançar o CD e disponibilizar na rede?

Leonardo – Cara, pra ti ter uma idéia, tem gente que acha um CD a cinco reais caro. O cara que tem computador e acesso à internet pra baixar as músicas pra conhecer o som da banda tem grana pra comprar também o CD, com a capinha e o encarte legal e tudo mais. O cara que pirateia independente é um pau-no-cu.

www.blanched.net



Ter Estado Aqui – Blanched (Independente)
Por Diego Fernandes

O EP "Ter Estado Aqui" abre com um som que poderia ser uma sobra de estúdio do Mogwai (a faixa-título). Não, peraí -- me deixa reformular isso. As coisas acontecem rápido demais, sem aquela evolução tortuosa de cinqüenta e dois minutos típica da banda escocesa, logo a faixa se torna caótica e esporrenta, e... termina. Ouch. Esteja preparado.

"Depois Da Noite", faixa 2. Guitarra envolvida por efeitos melífluos, baixo gordo em evoluções reptilianas e pesadas e uma bela flauta que parece levar a música para bem longe da realidade. "Saiu pra ver a lua / Em noite de chuva" – isso N vezes. Até que uma frase fecha tudo com uma ironia que não oculta sua intenção sádica: "Azar é teu". As coisas explodem em muita distorção e numa estrutura elíptica que evidencia o lirismo da letra. Trata-se de uma metáfora engenhosa sobre as apostas erradas nas quais resultam certos relacionamentos. "Isso", diz Leonardo, enigmático, "me aconteceu há três anos". 

"Mandrágora", faixa 3. Vocal abafado. Melancolia. Essa é acústica? BA-BOOOM – não, não é. O batera se diverte, novamente muita distorção e duelos travados entre as guitarras e o nada. Que conste que as guitarras vencem.

A produção muito bem dosada e a qualidade instrumental (sem virtuosismos mas ainda assim  suficientemente elaborado) conferem ao disquinho um status de obra rara e muito bem colocada no cenário brazuca. É fato que as melhores bandas surgidas nos últimos anos se valem de clichês triturados de modo inventivo e/ou intenso. Algumas delas até são alçadas ao status de "revelações", vejam vocês, como Coldplay, Strokes e mesmo o tenebroso Electric Soft Parade. Sinceramente, acredito que isso não manifeste uma fórmula -- quando muito uma tendência. De modo que não me venham com essa de "já ouvi isso antes, véio". Contorções da lógica são constrangedoras -- por isso vou entregar essa dica de mão beijada: boa música. Quase treze minutos disso. Barulho. Placidez. Guitarras. Baixo. Bateria. Flauta. Alguns vocais. Essas coisas.

O que foi exatamente que vocês não entenderam?

Diego Fernandes, 21 anos, adora quando todos entendem tudo.