Espíritos
Zombeteiros
por
Alexandre
Heidrich

Desta vez o S&Y recebe o pacotão
de Londrina. Trata-se da banda Espíritos Zombeteiros que
faz um rock cheio de influências, sem medo e sem preconceitos. Eles
estão de material novo. Duas faixas: "O parasita" e "O espelho",
que no meu entender são canções superiores aos trabalhos
antigos da banda, demonstrando uma certa evolução e porque
não dizer, um amadurecimento....
O S&Y bateu um papo com os caras
e descobriu que Mateus (São Paulino de coração) fala
pra caraca!!! Mais abaixo vcs poderão acompanhar essa entrevista
descontraída.
Scream &
Yell - Como vcs definem o som do EZ? Foram várias fases, né?!
Mateus: Sei lá, espero sinceramente
que um dia alguém de grande criatividade e amor no coração
se digne a inventar um rótulo. Eu ficaria honrado. Tem nego que
fala funk metal, e eles podem até ter uma certa razão (no
âmbito *jornalístico* da coisa), mas eu acho podre. Além
do mais, sons nossos como "O espelho", "O tosco" ou "Parasita" não
se encaixam nada no rótulo. Posso estar nos superestimando, mas
enfim. Pra quem gosta, digam então que é fuck metal, porque
foda é uma coisa mais abrangente e sempre atual. Também não
gosto de dizer indie, porque, apesar de estarmos trilhando um caminho independente
(e tenho uma sensação especial de que será assim até
o fim), nossa sonoridade não tem muito a ver com as bandas nacionais
comumente relacionadas ao nome. De qualquer forma, pra quem nunca ouviu
falar da gente, pode esperar encontrar groove, punk, grunge, barulho, powerpop
e metal no que soltamos até agora.
Pedro: Rock convulsivo.
Mateus: É, este é um
tipo de rótulo decente.
Quais são
as "bandas referências" que tem importância para a composição
das musicas??? Fale um pouco desse processo de composição....
Mateus: Eu gostaria muito de achar
que em cada som nosso tem um pouco de: Jimi Hendrix, The Who, MC5, Beatles,
Jane's Addiction, Alice in Chains, Meat Puppets, Soundgarden, Stone Temple
Pilots, RHCP, Primus, Chico Science, Nirvana, Sonic Youth, Dinosaur Jr.,
Pixies, Jon Spencer, Jorge Ben, Nebula, Black Sabbath, New Order, Moby,
Mutantes, Asian Dub Foundation, Morphine, Vermes do Limbo, Pearl Jam, Death
Cab for Cutie, Sepultura antigo, Pantera, Slayer, Teenage Fanclub, Trail
of Dead, Smashing Pumpkins, George Clinton & p-funk, Michael Jackson,
Jackson 5, Neil Young, Iggy Pop, Velvet Underground, The Clash, Chemical
Brothers.
Gugão: Tira Pantera e Slayer
daí!
Mateus: Calaboca, bichana.
O que vocês
estão escutando hoje....essas bandas podem apontar para onde vai
o som do EZ ???
Mateus: Nebula é roque pra
caralho. Também ouço Trans Am, uns trip hop e indies tipo
Yo La Tengo, Bycicle Thief, John Frusciante. Tem também uma coletânea
que o Paccola, do Vermes, fez. Só tem coisa antiga, como Perez Prado,
Zimbo Trio, Milton Banana, e umas orquestras com uns sopros bem pesados,
desão bagarai. Tem coisa ali que parece uma mistura meio bizarra
entre big band e Demolition Doll Rods.
Pedro: Temos escutado também
as gravações de Marquinhos Diet, Vermes do Limbo, Os Picaretas
e Vellotrol v8 Supersônico, que são bandas londrinenses presentes
na coletânea *pra fora da garagem*, ainda inédita.
Gugão - Na maioria dos dias
escutamos algum som novo que algum de nós pôs na roda, desde
relíquias cubanas até Atari Teenage. Costumamos admirar quase
sempre as mesmas coisas nos sons mais chegados da casa, já para
os mais indeglutíveis o tiro é na orelha, em coro, quase
sempre. Não tenho idéia de como isso pode apontar para onde
vai o nosso som. No plano da existência, qualquer idéia que
cause ojeriza para algum de nós costuma ter a vida curta no processo
de composição. O prazer coletivo na hora de tocar nosso som
é essencial. É o que faz tudo rolar.
Mateus: Putz, isso de prazer coletivo
ainda vai dar o que falar.
Essas duas
faixas lançamento "O parasita" e "O espelho" mostram bem ecletismo
da banda....o show segue o mesmo padrão?
Mateus: O show segue um padrão:
é alto, com grave pra cacete. A gente ultimamente tem aberto com
"O Parasita", pra chocar já de cara e também porque meu irmão
toca com a guitarra afinada em dó. Depois vamos mesclando coisas
dançantes com porradas, um *espaço pro coração*,
de vez em quando uns covers (ultimamente entraram Beatles, Fanclub, uns
Chili Pépa antigos, Placebo) e últimas porradarias. Também
falamos pra cacete entre as músicas, mas às vezes não
tem muita graça.
E o cenário
de Londrina? Como você vê o underground brasileiro como uma
banda independente ?
Mateus: Pô, cara, esta resposta
vai sair comprida.
...por isso
perguntei por último...aí pego vcs de saco cheio da entrevista....
Mateus:- Em primeiro lugar, tenho
que dizer uma coisa: a única esperança de renovação
verdadeira no cenário independente é descobrir de vez o interior.
Não que os grandes centros devam ficar de fora, óbvio. Mas
a inércia e o isolamento seculares do interior do Brasil são
um entrave fundamental a todo o resto. Felizmente algumas pessoas têm
se movimentado nesse sentido ultimamente, mas ainda são - somos
- poucos, e predominantemente amadores, que não tiram o sustento
do que fazem. Então, para que o país inteiro descubra o interior
é necessário primeiro que o interior se descubra, que haja
cada vez mais gente mais ousada, raçuda e sem sonhos de "ir morar
em São Paulo". Se for pra sair de casa, vou pra um país decente
de uma vez e desisto do Brasil. Se não, fico onde já estou
ambientado e tento fazer algo digno aí mesmo. É só
meu jeito de pensar, nada contra meus queridos amigos que foram e continuam
indo para outros centros mais tradicionais, onde as coisas estão
mais estabelecidas. Mas o trabalho no interior em certos pontos ainda é
"bandeirante", mesmo, tem que fazer tudo. pra quem tem sonhos de família
e consumo bem traçados, não é o ideal. Quanto a Londrina,
é uma cidade engraçada. Seria a cidade perfeita pra ser algo
como uma Seattle brasileira. Bandas lindas, público considerável,
locações baratas, ótimos profissionais de som e uma
certa tradição underground. Se não sair nada daqui,
vai sair de onde mais? Mas ainda falta acontecer um bocado de coisa; por
exemplo, as boas bandas daqui se empenharem mais, dar um pouco mais de
valor ao que elas próprias fazem. Este ano, porém, as coisas
têm tudo para ser diferentes. Estamos contando com um apoio fundamental
da prefeitura, através da lei de incentivo à cultura. O pessoal
que entrou na secretaria tem toda uma história de envolvimento artístico
(o secretário da cultura é simplesmente Bernardo Pellegrini)
e apoiou vários projetos legais voltados ao underground. Este ano
vamos ter um festival em forma de circuito (o Circuito Gaviaba, que estou
organizando), com duração de seis meses. O pessoal do Madamex,
que no final das contas sempre foi quem garantiu que a cidade tivesse shows
gringos de qualidade, vai continuar com o trabalho deles trazendo bandas
como Stereolab, Guided by Voices, Superchunk e outra pra cá. Também
tem um projeto muito maneiro que mescla quadrinhos com música. Fora
esses, há outros projetos bons e que vão ser realizados sob
os auspícios da lei. A minha esperança maior nisso tudo é
que Londrina (e digo bandas, produtores, zineiros, selos, etc.) chegue
de vez no independente nacional e desempenhe um papel importante em todo
o processo.
E o show
com o Tihuana....vocês tiveram mesmo a coragem ??? ( risos.... )
Mateus: hehehehe. Pô, foi um
lance memorável. A tarde inteira a gente sendo hostilizado pelos
caras da banda, e principalmente o produtor. O único gente fina
era um gordão careca todo tatuado (até à cabeça),
que era segurança deles. Troquei idéia legal, até.
Mas de resto foi aquela coisa, até a hora do show. Arrumaram uma
aparelhagem muito fubanga pra gente; meu irmão não podia
se mexer muito senão tudo apitava e desligava. Um caos. Mas o pior
é que o público delirou. O gugão caiu - se jogou,
né - no chão no final de "O Tosco" e um monte de garotas
foi pra cima dele, eu rachava o bico lá atrás. Lá
pela quinta música, o produtor deles (que tinha ficado o tempo todo
de olho desde que o show começou) simplesmente subiu no palco e
começou a desmontar os microfones(!). Eu quase saí da bateria
pra chegar porrando, mas continuei ali. quando descemos, fui tirar satisfação
com o cara. Nisso chegou um amigo meu meio bêbado e começou
a dar de dedo no peito do cara, xingar e tudo mais. Por pouco não
saiu um pau fenomenal, que teria sido mais uma página bizarra no
nosso currículo.
Eles tem seu trabalho divulgado no
Mp3.com. Vale a pena conferir.
www.mp3.com/espiritoszombeteiros
Faixa a faixa,
ashes to ashes, dust to dust....
por
Alexandre
Heidrich
O espelho : Smashimg Pumpkins....Gish....a
guitarra não mente.... posso até ouvir a voz de Billy Corgan
entrando, qué vê, qué vê.... Opa!!! ...é
em português !!!??? Quem???....Espíritos Zombeteiros, de Londrina!
:o
A guitarra leva a música em
tom melancólico seguida pela não menos inspirada letra e
melodia vocal. O baixo viaja e a bateria acompanha na medida certa. Destaque
também para a gravação e para a concepção
da música.... a voz ganha seus efeitinhos que dão o charme....as
vezes até de fundo...como no final junto a melodia da guitarra .
Muito sacado!
Realmente a faixa é inspiradíssima
e cumpre a promessa....para se ouvir em uma tarde chuvosa. Os críticos
falam tanto de canções perfeitas, exaltam tantas faixas e
bandas medianas....provavelmente porque não ouviram esta. Aqui temos
algo que realmente vale a pena.
O parasita: Peso ! Não....e
não é pouco. Até me assustou depois de ter ouvido
a faixa anterior. Essa faixa para mim deixa claro mais uma nova influência
da banda... Deftones....as guitarras lembram bastante nos riffs ....tirando
a timbragem que é mais de old do que new metal.....
Embora os elementos em si não
tenham o padrão da faixa anterior, a música é boa.
E surpreende principalmente por ser ao vivo.
Particularmente, eu sinto falta de
mais uma guitarra....algumas horas a música chega a ficar um pouco
vazia, coisa que a bateria poderia cobrir, mas não faz. |