The Scroll And Its Combinations - Wellwater Conspiracy
por Diego Fernandes
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A sonoridade do Wellwater Conspiracy não abrange cores vivas – só semi-tons amplamente sugestivos. E faz sentido. O núcleo central da banda são dois típicos heróis esquecidos do rock da década passada: Matt Cameron (ex-baterista do Soundgarden) e John Paul McBain (ex-guitarrista do Monster Magnet). Os dois se conheceram em 1992, ano em que as duas bandas excursionaram juntas. Descobertos gostos em comum, arregimentaram mais um membro (Ben Shepherd, baixista do Soundgarden na época), e formaram o projeto paralelo Hater. Lançaram um álbum pela A&M em 1993 e Shepherd decidiu cair fora para tocar projetos próprios. Aí surgiu o embrião do Wellwater Conspirancy. 

Cameron ainda defende uns trocados tocando bateria como membro efetivo do Pearl Jam, uma das piores bandas com capacidade de encher estádios da atualidade. Mas sua real paixão continua sendo a Conspiracy. A célula central da banda é formada por Cameron e McBain (agora convertidos em multiinstrumentistas), mas todo o resto é mutante. Já fizeram parte do line-up, entre outros, Josh Homme (ex-Kyuss, ex-Screaming Trees, e atual Queens Of The Stone Age), dando uma de baixista(!), e o lendário produtor da Sub-Pop Jack Endino, também tocando baixo.

Ao contrário do que se poderia esperar, dado o background dos mentores do projeto, o som não remete a um Black Sabbath sendo triturado em baixa rotação. Pegue um pouco de tudo que há de melhor: psicodelia perigosamente atualizada via stoner rock, obsessão por estúdios caseiros e experimentalismo, proto-hard rock tipo Cream, atitude desencanada, e, para dar aquele toquezinho radiofônico, pop sessentista (dos bons). O melhor de tudo é que pode ser saboreado com calma: não há qualquer indício de hype em torno do grupo (muito provavelmente não chegou nenhum exemplar à redação do New Musical Express). Neste, que é seu terceiro álbum, o primeiro por um grande selo (nos, EUA, foi editado pela TVT Records de Trent Reznor), a banda consegue transcender o limite entre o real e o intangível em algumas faixas .

Direto ao sumo: "What Becomes Of The Clock", faixa 5. Uma daquelas músicas (cada vez mais escassas) que, após a primeira audição te deixam convencido de ser A MELHOR MÚSICA DE TODOS OS TEMPOS – e, enquanto duram os três minutos e alguma coisa da música, é mesmo. Psicodelia subliminar. A sensação é a mesma de sair por aí caminhando e encontrar uma estranha loja de animais num beco da sua cidade que você nunca tinha percebido e que vende umas coisinhas que, se você não tivesse certeza ser impossível, juraria serem pequenos dragões -- e subitamente é outono e você está pensando em comprar um carrão V8 com dados de pelúcia pendurados no retrovisor e deixar costeletas crescerem e talvez (só talvez) dar um tiro no pé de alguém. ("Eyes that look to offer / Change from fall to autumn / It's here, it's what you do / Heeeeere...")  

Mas o disco não é só isso. A faixa de abertura, "Tidepool Telegraph" é country psicodélico com uma levada totalmente road-movie, algo que evoca montanhas impávidas, asfalto e sangue. Vá fundo: tem um solo com efeitinho fuzz bem cachorro que só realça a impressão inicial. ("Time's escaping time / Whoooo is young / Whoooo is young / Whoooo is you"). 
"I Got Nightmares" é suingada, um boogie envenenado que te faz sentir despencando por uma ribanceira. ("I feel the weight of thousand stone / With this stick she breaks my bones"). 

Se em algumas faixas a banda soa como Soundgarden (em "C Myself And Eye" e "Now Invisibly", por exemplo), culpe-se aos convidados: Kim Thayl e Ben Shepherd (ex-guitarrista e ex-baixista da banda, respectivamente) dão as caras em algumas faixas, fazendo ecoar alto aquela música feita por garotos que usavam camisa de lenhador. A mala-mor, Eddie Vedder (sob o pseudômino Wes C. Andle), dá as caras em "Felicity's Surprise", sem no entanto conseguir estragá-la por completo com seu vocal choroso. "Of Dreams" (cover do cantor folk/country sixtie Steve Morgan) "Tick Tock 3 O'Clock" têm roupagem beatlemaníaca para, com verve inglesa, se ouvir tomando chá (de cartucho).

"The Scroll And It's Combinations" é um desses raros casos em que mera diversão escapista esbarra no status de grande arte. O título perfeito para esse disco, infelizmente já foi utilizado por doidões de linhagem bastante próxima (Monster Magnet): FORGET ABOUT LIFE, I'M HIGH ON DOPE. Ouça sob o sol.

(Relato: Um dos maiores enigmas da humanidade certamente é descobrir porque diabos a Sum Records se dá ao trabalho de colocar bons lançamentos no mercado, enviá-los para redações de revistas e jornais para que boas (ou más) resenhas os divulguem se não é possível AOS CONSUMIDORES adquirir os CDs. Talvez esse seja um problema só para quem mora fora do eixo Rio-SP, mas gostaria de registrá-lo. Tomemos como exemplo esse CDzinho aqui. Já se passaram mais ou menos oito meses desde que o escutei pela primeira vez no Lado 1 da Unisinos FM, e decidi que iria comprá-lo. No entanto, foi apenas sábado passado que consegui pôr minhas viciosas mãos de colecionador sobre a peça. Nesse meio tempo, tentei achar o CD em ao menos UMA DÚZIA de outras lojas espalhadas pela região metropolitana de Porto Alegre. Cheguei ao ponto de fazer uma encomenda a uma loja mais ‘baixo perfil’ em Novo Hamburgo, que, além de importar, tem bons contatos com o atacado nacional. Resultado: não foi possível descolar o CD em versão nacional. Procurei na internet, mas a gravadora não tem site. Olhei todos CDs da Sum que tenho: não consta nenhum telefone. Que fique claro que, se eu tivesse um computador decente, certamente teria baixado todo e qualquer MP3 disponível da banda que encontrasse na rede, dando uma merecida banana à gravadora e suas intenções mercadológicas. E esse é só um dos lançamentos 'virtuais' da gravadora – tem ainda Lupine Howl, Nectarine N° 9, Lovage, Elbow e um porrada de outros. Acabei esbarrando com o CD por acaso, em uma loja em que garimpava as ofertas do balaião de 10r$. Ao longe, a lombada reluziu para mim por uma fração de segundos. Não. Não podia ser. Esfreguei meus olhos. Corri, derrubando três homens e uma mulher grávida no percurso. Tomei-o em minhas mãos. Ergui-o ao alto, me ajoelhei no chão – lágrimas encheram  meus olhos. A existência realmente é aleatória. "Tanto tempo... TANTO TEMPO!" Um vendedor me pegou pelo ombro: "O senhor poderia me acompanhar até o caixa, por favor?" Custava 27r$, mas eu tinha recebido na sexta, e portanto aquela porra era minha. Malditos!)

Diego Fernandes, 21 anos, gostaria de informar aos leitores que, não, não fez uso de alteradores de humor quando da confecção dessa resenha – diabos, todo mundo sabe que isso é ilegal...