Uncut 50
por Alexandre Petillo

As pessoas costumam me rotular de retrógrado, conservador e saudosista. Dia desses, o meu amigo Ivan, o indie, junto com o sócio Costa ficaram fazendo piadinhas com o fato de eu me contentar com as velharias. Não se cansaram de fazer pouco dessa minha mania besta de preferir Beatles e Van Morrison à "maravilhas" do rock moderno como Mogway e Coldplay

Infelizmente eu nunca fui de ouvir muito o som que embalava a minha geração. Não por parecer esnobe, mas em pleno auge grunge eu estava mergulhado no rockabilly do fim dos anos 50. Também ouvi muito pouco da cena indie pré-90, com Sonic Youth, Ride, My Bloody Valentine e adjacências. Talvez por isso que algumas das minhas bandas contemporâneas favoritas sejam aquelas que têm um pezão no passado, como Teenage Fanclub, Echo & The Bunnymen, R.E.M., Jesus & Mary Chain e Wilco

Hoje em dia, essa onda de bandas-nada como Travis, Doves, Coldplay, Mogway e a maioria dos escoceses não me falam à alma. Não consigo digerir bons moços bem-nascidos cantando sobre quão miserável são suas existências. As pobres melodias que permeiam essa choradeira fazem os anos 60 parecerem menos excitante do que foram. 

Até entendo que os dois amigos queiram que eu compreenda que o rock atual tem a sua qualidade. Talvez eu até não tenha ouvido o suficiente. Assim como eles também não ouviram velharias o suficiente. Garanto que os dois não conhecem, no seu original, metade das músicas dos Beatles coverizadas nesse cd comemorativo do 50º número da revista inglesa Uncut.

Trata-se de 24 canções dos Beatles interpretadas por artistas díspares como o soulman Al Green e o ator Peter Sellers. Especialmente para o disquinho, os fantásticos Teenage Fanclub e Echo & The Bunnymen gravaram faixas exclusivas. 

O disco começa com uma declaração de Ian McCulloch: Ticket To Ride é uma das melhores – senão a melhor – canção pop de todos os tempos. Acredito que seja a minha canção pop favorita de todos os tempos”. Em seguida, Ian e seus homens-coelho emendam a melhor versão de Ticket To Ride desde os Beatles. O guitarrista Will Seargent criou um clima mezzo-psicodélico em sua guitarra encharcada de flanger que modernizou a canção. O vocal de Ian aparece mais sagaz e incisivo do que a agonia dolorosa do seu cantor original, o seu conterrâneo, John Lennon. 

Mais adiante, você tem Teenage Fanclub e uma maravilhosa versão de Tell Me What You See. Acreditem, é melhor que a original, incrustada no lado b do disco Help!. Mestres do melhor pop e ases em traduzir amor em acordes distorcidos, o Teenage contempla o ouvinte com uma interpretação ensolarada. Shining, diria os ingleses. If you let me take your heart/ i will proove to you/ we will never be apart/ if i’m part of you, canta Norman Blake antes que uma bateria acelerada e uma guitarra pesada tomem conta do momento. 

Antes mesmo do coração acalmar, no rastro da paixão, mr. Otis Redding convida para dançar Day Tripper. O riff potente do original vira um energético dançante. Outro mestre do soul presente na festa é Al Green (Quem nunca ouviu um disco do Al Green não amou de verdade, Alexandre Petillo). Green transforma I Want To Hold Your Hand, um iê-iê-iê ingênuo num convite à libidinagem. A roupagem gospel-soul e a voz sexualmente melosa são irresistíveis. 

Booker T & The MGS transforma a atormentada I Want You (She’s so Heavy) em chacoalhante canção de festa black. O branco com voz negra Joe Cocker introduz um pouco mais de tristesa em I’ll Cry Instead. I’ve got every reason in the world to be mad/ Cause i just lost the only girl i had, canta Cocker. 

Marianne Faithfull, quando era linda (e já era traçada por Mick Jagger, antes da Luciane Gimenez nascer), adiciona sacarina à maravilhosa I’m Loser. I’m loser/ i’m lost someone that means to me/i’m loser, canta, como se estivesse num cabaret. 

Os punks aparecem com Siouxsie & The Banshees, com uma versão "from hell" de Helter Skelter e o The Damned acelera Help!. Billy Bragg ataca com Revolution. 

Chris Farlowe, um inusitado soulman branco e inglês, te faz ouvir com outros ouvidos a mais familiar canção do século: Yesterday. Farlowe transformou a pérola de McCartney numa peça de whiskey bar, a la Bertold Brech. 

Os indies estão bem representados com uma versão potente do Gene para Don’t Let Me Down

Enfim, ouvir essas canções feitas com paixão e sentimento, compostas em verdadeiros momentos de inspiração (que duraram minutos ou uma noite mal dormida, mas nunca 313 dias), me faz querer ainda mais distância do inócuo rock vigente. Desculpa, mas ainda prefiro guitarra. Músicas feitas por programadores de HTML e seus botõezinhos não me convence. Como diz um outro grande amigo meu, Alexandre Matias, tudo que você precisa na vida são dos 13 discos dos Beatles.

É, eu sei, porque, em qualquer lugar, em qualquer momento da sua vida, seja no fundo do poço ou no topo do pódio, tudo que vai fazer você realmente feliz é colo, amor e boas, realmente boas canções pop de três minutos.