Eu só quero é ser feliz (ou quase)
por Alexandre Petillo


Tricky, um dos maiores nomes do trip-hop mundial, sai das sombras e lança um disco nada depressivo
(apesar da capa)

Algumas pessoas acreditam que o melhor de sua criatividade está cravada no lado mais escuro de seu ser. Sem temer as conseqüências, elas costumam mergulhar fundo em busca de trabalhos inspirados, calcados no que de melhor possa ser extraído da sua dor. Tricky é uma dessas pessoas. Sujeito excêntrico, acostumado a bater em jornalistas, não sorrir nunca e usar chifres demoníacos, Tricky deixou a escuridão de lado e lançou um disco até alegre. 

Tendo em vista os seus últimos trabalhos, cada vez mais afundado na total e irrestrita tristeza, Tricky abriu as cortinas de sua janela e deixou entrar a luz do sol, e também a música pop atual. "Blowback" não será uma surpresa agradável para os antigos fãs e/ou aqueles que o acompanham desde que atuava como rapper do Massive Attack, outro ícone das profundezas. 

Se você é adepto à referências, é possível encontrar influências de Red Hot Chilli Peppers, Alanis Morissette (?) e até Cyndi Lauper. No entanto, em boa parte do disco, a sensação ainda é de que existe alguém te sufocando com um travesseiro. 

Mesmo com essas influências duvidosas, Tricky acerta em boa parte do disco. "Your Name" e "You Don´t Wanna" são encantadoras. O chilli pepper John Frusciante toca uma poderosa guitarra funk-metal em "# 1 Woman", que recria e desmonta o tema do seriado Mulher-Maravilha. 

"Girls" é um rock quase californication. Não a toa, a faixa foi feita em parceria com outro chilli pepper, o vocalista Anthony Kieds. A elétrica "Evolution Revolution Love" faz o que parecia impossível há alguns anos: uma música do Tricky onde se pode cantar junto. Enquanto o novo disco do Portishead não vem, "Blowback" faz a sua parte nas noites calmas. Tristeza com estilo, sem choradeira.