 "The
Invisible Band", Travis
por
Marcelo Costa 01/02/2002
Tudo
na vida pode ser dividido em bom e ruim, claro, sempre ao gosto
do freguês. Sorvete de morango é delicioso, de
creme deixa a desejar, coisas assim. Mas existe a classe intermediária,
aquela que fica entre o bom e o ruim. No caso, o sorvete de
abacaxi. A música pop também tem seus morangos,
cremes e abacaxis. O morango da atualidade atende pelo nome
de Radioehad, mas pode ser chamado também de Manic Street
Preachers. O sorvete de creme têm vários representantes,
mas vamos ficar com Blink 182, ok. E é da classe intermediária,
sorvete de abacaxi, que vem o Travis, bandinha escocesa radicada
em Londres.
Fran Heally, o líder da banda, é o que todos chamam
de "um cara delicado". Ele e seus amigos lançaram três
discos até agora. O razoável Good Feeling
(na cola do Oasis, isso em 97), o sublime The Man Who
e o xerox The Invisible Band, álbum lançado
meses atrás, mas que ainda gera discussões onde
quer que seja (muito) comentado (e pouco ouvido).
A primeira pista que veio de The Invisible Band era uma
brincadeira com o nome do grande álbum da banda: The
Man Two. Mas, como acontece na maioria das vezes
no cinema, a continuação não supera o original.
A culpa, na verdade, nem é da banda, mas do público.
The Invisible Band é o retrato perfeito do quarteto
de Glasgow e sugere The Man Who como um belo acidente
de percurso.
O público que amou The Man Who esperava algo na
linha, mas atirar no escuro e acertar no alvo duas vezes é
muita sorte, para qualquer um. Com isso, um certo ar de decepção
paira sobre The Invisible Band. Não deveria. O
Travis é apenas uma bandinha bacana que surgiu num espaço
de tempo carente de ídolos e na falta de tu, vai tu mesmo.
O que se pode esperar desses escoceses é algo sublime
na linha de The Man Who e The Man Who não
é um Acthung Baby, não é um Nevermind,
não é um Ok Computer e nem um Psychocandy,
ou seja, não é um álbum que mereça
adjetivo maior do que... sublime? E sublime é pouco,
não se convença.
Com The Invisible Band, o buraco é mais embaixo
(talvez seja preciso ajoelhar para enxergar). Fran Heally é
um cara simples que escreve letras simples. Nada de arremedos
poéticos, então, ok. O grande problema é
que suas letras dependem de sua tristeza e a felicidade, meu
caro, é um péssimo negócio para sua "arte".
Assim, a tristeza que sublimou The Man Who faz falta
em The Invisible Band. A alegria do líder (que
casou no fim do ano passado e vive uma fase happy) acabou contaminando
de pieguice o álbum do quarteto. Fran Heally é
o que todos chamam de um cara de bem com a vida. Sua tristeza
já não convence, então, o que faz soar
constrangedor ouvir um puta marmanjo barbado cantando com voz
delicada Dear Diary.
Como o Eagles nos anos 70 e o Simple Minds nos 80, o Travis
é uma banda limitada. E assim como o Eagles nunca chegou
a ser um Led Zeppelin, assim como o Simple Minds nunca chegou
a ser um U2, o Travis nunca chegará a ser um... Radiohead?
Travis sempre será uma bandinha mediana lançando
discos medianos. E só.
Isso tudo não deveria incomodar, mas incomoda. Retrato
de uma época, a banda recebe toda luz pop sobre si, abusando
da economia nas canções. Com isso, baladinhas
singelas ao violão soam (para alguns) como obras-primas
pop. Não são. É constrangedor que a música
pop chegue aonde chegou. Após Morrisson, Dylan, Cohen
e Patti Smith. Após Curtis e McCuloch, Morrissey e Cobain,
o público pop celebra versos como "Oh, wow, look
at you now / Flowers in the window / It's such a lovely day
and I'm glad you feel the same". Chega a ser constrangedor.
The Invisible Band começa com Sing, o primeiro
single do álbum. Sabe aquele dito popular "quem canta,
os males espanta"? Então, "If you sing / For the
love you bring won't mean a thing / Unless you sing". Bonitinha.
Na seqüência, Dear Diary, joga tudo janela
a fora. As coisas parecem que vão tomar rumo na ótima
Side, com excelente refrão ("That the grass
is always greener on the other side"), mas Pipe Dreams
volta a deixar as coisas em nível mediano. Flowers
In The Window chega tão cafona que é impossível
não rir. Roberto Carlos se saiu melhor em As Flores
do Jardim da Nossa Casa.
A melhor letra do álbum, The Cage, se arrasta
na melodia delicada. A bateria, sumida no álbum, aparece
em Follows The Light e, bem, deixa pra lá, e ouvimos
mais uma dispensável até chegarmos em Afterglow,
outro bom momento de The Invisible Band. As guitarras
sabem trilhar caminhos diferentes, isso (no caso deles) impressiona,
mas, mesmo assim, muita doçura, muito açúcar
(diabéticos, fujam). O álbum chega ao fim logo
em seguida e eu fico perguntando se ele chegou a começar.
Talvez seja por isso que, sintomaticamente, o álbum termine
com o som de despertador...
No fim, The Invisible Band renderia um ótimo single.
Sintomático que a banda tenha deixada de fora a bonita
Coming Around, single pré-The Invisible Band.
O contraste dela com o repertório do álbum é
gritante.
Ouvir The Invisible Band é como tomar sorvete
no sol. O sorvete começa a derreter, você tenta
a todo custo não se lambuzar, mas quando vê está
todo melado e grudento. Inevitavelmente, cada um chupa o sorvete
que quiser e onde quiser. Eu ainda prefiro tomar sorvete de
morango, em casa, ou então em uma sorveteria. Só
peço que aqueles que tomam sorvete de abacaxi no sol,
cumprimentem-me apenas com um sorriso. Nada de dividir melações,
por favor.
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