 "The
Man Who", Travis
por
Marcelo Costa
01/11/2000
Francis
Healy é o que todos chamam de um cara delicado. Ele é
o letrista e o principal compositor do Travis. O Travis é
a banda dos últimos dois anos no mundo pop. O equivalente
aos Smashimg Pumpkins em 95/96, ao Oasis em 96/97 e ao Manic
Street Preachers em 97/98.
A única diferença do Travis para estes é
que o Travis é escocês e ser músico escocês
no ano 2000 é sinônimo de som suave, confessional,
lírico. É sinônimo de silêncio. E
ser Travis é invadir as paradas do mundo com as mais
belas baladas da atualidade. De escrever as letras mais confessionais
e desesperadas do momento. E de fazer os shows mais intimistas,
quase sempre conduzidos por violões, quase sempre com
covers improváveis, quase sempre cantado em coro.
O responsável pela epifania foi o álbum The
Man Who, lançado lá fora em 1998, e aqui há
apenas dois meses, e que já deve estar beirando as 5
milhões de cópias vendidas no mundo todo.
O quarteto surgiu em Glasgow, 96, e The Man Who é
o segundo álbum da banda. É, também, um
amontoado de baladas preciosas que são o fundo perfeito
para casais dançarem a noite toda, tanto quanto podem
soar o mais perfeito e dolorido desabafo para aqueles a quem
o amor deu adeus. Nas letras, Healy brinca com a simplicidade,
e com a cultura pop, de maneira sublime, expondo sua sensibilidade
à flor da pele.
The Man Who abre com Writing To Reach You. Healy
escreve para alcançá-la. A primeira linha é
uma meia citação de Morrissey (Everyday is
Like Sunday) e a quarta aproveita para elogiar o Oasis (o
rádio está tocando o normal, o que é wonderwall
de qualquer modo). A poesia começa a ser destilada, e
afiada, na segunda estrofe, quando Healy canta: "my inside
is outside, my right side's on the left side e justifica mais
a frente que I long to teach you about you".
The Fear, a próxima, segue a levada assegurando
que "the fear is here". As guitarras se apresentam
na singela As You Are. A próxima é a jóia
pop Driftwood, que ganhou um belo single, que já
valeria pela versão Travis do clássico Be My
Baby, se Driftwood não valesse a pena. Mas
vale, e muito. Em The Last Laugh Of the Laughter o sorriso
não quer surgir e o dia azul fica cinza, mas tudo melhora
em Turn, canção cheia de esperança
que proclama "I want to live, I will survive, And I believe
that it won'be very long".
A segunda parte do single Turn traz a comentada e festejada
cover da banda para o hit de Britney Spears, Baby
One More Time. Um q de ironia e de paixão na mesma
batida de violão que só quem já ouviu o
bootleg It Didn’t Rain, gravação completa
do show da banda no Glastonburry Festival 2000, poderá
perceber.
Why Does It Always rain On Me? foi o primeiro single
retirado de The Man Who e um dos responsáveis
pelo sucesso da banda. Rock song arrastada sobre nuvens cinzas
em que o vocalista reclama que sempre chove sobre ele. Impossível
não imaginar Healy como um Jim Carrey em Truman Show.
Impossível não lembrar do personagem de desenho
animado Hardy, que andava com uma nuvenzinha na cabeça
dizendo "Oh céus, oh vida, oh azar". Impossível
não se embalar com a canção, assoviar,
cantar junto, dançar.
A próxima, Luv, começa com uma harmônica
de partir corações partidos: "It only serves
to show me That I'm still in love with you". O álbum
está acabando. Você já não consegue
imaginar de onde Healy tira tanta dor, e tanta beleza, e tanta
melodia, e tanto amor. A questão não tem resposta,
apenas reforço. É She's So Strange, em
que os violões aparecem mais à frente. Ela parece
mais estranha.
Para o final, o melhor. Slide Show começa como
se tivéssemos correndo em uma floresta, ou, ao mesmo
tempo, arrumando o armário, jogando o passado para fora.
Num primeiro ímpeto vem à alegria – "today
is the day, for dancing and for singing" – mas as coisas
não são fáceis assim – "I hope I'm
alright, cause I'm gonna cry". E isso acontece em menos
de dez linhas.
O refrão é apoiado em citações -
There is no design for life (Manic Street Preachers),
There's no devil's haircut (Beck) in my mind, there
is not a wonderwall (precisa falar?) to climb – e
o riff que surge com o arranjo orquestrado é um magnífico
final para um belíssimo álbum. Acabou? Não.
Se você esperar uns dez minutos, ainda vai encontrar uma
faixa escondida, Blue Flashing Light, canção
feita para quem espera o telefone tocar no sábado a noite,
em vão, como diria um outro jornalista.
A banda planeja uma pequena parada no momento. Healy anunciou
que vai se casar ("Não na Escócia, em Londres,
porque há quatro anos estou morando em Londres, e eu
gosto daqui", explicou à NME) e que está
com saudade do tempo em que ficava em casa vendo Frasier
e Os Simpsons todos os dias. Por outro lado se diz contente
com o sucesso e com a turnê.
Francis Healy é o que todos chamam de um cara de bem
com a vida.
Texto
publicado originalmente na revista eletrônica Vies
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