Sophie Ellis-Bextor
por Eduardo Palandi
eduardo.palandi@uol.com.br

Ícones pop não são construídos da noite para o dia. Quer dizer, se você pensar nos pré-fabricados de gravadora, são, mas eles não vão ser lembrados durante a história toda. Os Beatles podem ou não ter sido fabricados e são lembrados, os Monkees foram, se rebelaram e não são muitos que lembram deles ainda hoje.

E assim a história passou: muitas "next big things" e artistas de laboratório depois, chegamos a 2002 e eu venho acompanhando a trajetória de uma menina que pode tanto entrar pra história como a próxima Madonna quanto ser esquecida antes de 2005.

Sophie Ellis-Bextor começou sua carreira em 1997, no grupo "theaudience" (em minúsculas mesmo), que mal chegou a gravar dois singles e acabou antes de lançar um álbum inteiro. Naquela época, fazia de tudo pela fama: chegou até
a entrar duas vezes no auditório onde o tablóide inglês New Musical Express fazia a premiação dos melhores do ano de 1998. Por quê? Porque a primeira entrada não havia atraído flashes suficientes para ela.

Em 2000, após terminar seu namoro com James Dean Bradfield, dos Manic Street Preachers, se mandou pra Ibiza e lá, pelas trilhas do eurodance (a dance music comercial, aquela do Double You e do Ice MC; não adianta negar, eu sei que você dançou muito isso no verão de 1996). O DJ Cristiano Spiller, um italiano que era então um dos maiores nomes do gênero, se encantou com os dotes vocais de Sophie e a convidou para fazer os vocais de "Groovejet", single que lançaria no fim de 2000. Resultado: primeiro lugar nas paradas inglesas, o título de música mais executada na ilha espanhola durante alguns
meses e um contrato com a Universal Music.

Até aí tudo bem, nada de diferente de muita gente. Em agosto do ano passado, estava na Inglaterra e, numa estação de metrô, me deparei com um imenso outdoor que trazia seu (lindo) rosto e anunciava o lançamento de seu primeiro disco como solista, "Read my lips". Não arrisquei e não trouxe o disco pra cá, mas depois de algumas semanas peguei algumas músicas no falecido Audiogalaxy.

Era dance music comercial? Sim e não. Na verdade, algo bem mais elaborado, que os modernos lá de onde o Marcelo mora costumam chamar de house. Mas com um forte apelo pop e letras que passam longe de serem bobas. Se fosse pra
definir o clima, seria como se ela estivesse dizendo "mãe, fui dançar, acho que volto às cinco". Adolescente, descompromissado, mas feito com muita classe e estilo

Tem hits pra tocar na MTV ("Take me home", antigo hit de Cher, e "Murder on the dancefloor", cujo clipe já passa à exaustão no canal), tem hip-hop em "I believe" "Move this mountain", trip-hop em "Lover". Tem até a nova mania dos
indies, o electro, em "The universe is you". Mais ou menos a receita da fórmula de Madonna, e bem melhor do que os dois últimos discos da ex-material girl. Enquanto o Brasil ganha atrasado a edição original do disco, com dez faixas, a Inglaterra já tem a terceira versão diferente de "Read my lips", com quinze, incluindo "Final move" (a melhor música de Sophie) e seu novo single, "Get over you".

Para alguns, ela pode parecer pré-fabricada. Para outros, como eu, uma futura Madonna. Se vai ser ou não, isso só o tempo dirá. Tudo bem. Eu espero dançando enquanto isso.