E Ryan Adams reinventou o amor
por Alexandre Petillo

Eu sou um homem do campo. Literalmente e sem vergonha de assumir. Vim de um lugar onde moram apenas 40 mil pessoas e cuja a diversão maior é encher a cara em botecos. Bom ou ruim, não me arrependo de ter passado a maior parte da minha vida numa cidade assim, morta culturalmente e limitada. Mas o que poucos sabem e que só quem vive num lugar como esse conhece realmente as relações pessoais. Sabe o que significa uma amizade, o quanto dói uma perda. Sem ter para onde ir, fica mais difícil ser falso. Numa rua estreita, fica mais difícil não olhar nos olhos – prática comum em metrópoles como São Paulo, seja entre bons e maus. 

Talvez seja por isso que acabo sendo atraído por quem canta com o coração, sem medo de se expor. Durante um tempo, nesse atual mundo devastado da música pop, numa época em que apenas gigantes caminhavam sobre a Terra, homens sem medo de extirpar as suas feridas publicamente reinavam, com suas canções simples e seus solos de guitarra cortantes. 

Eram pessoas acostumadas a lutar, mesmo diante do desastre. Almas cansadas de procurar por algo cada vez mais inacessível. Pessoas comuns, que queriam apenas um pouco de paz e tranqüilidade após o expediente.  Cada um a sua maneira, no seu estilo, vieram: Hank Willians, Johnny Cash, Bob Dylan, Elvis Costello, Van Morrisson, Neil Young, Leonard Cohen, Gram Parsons, Frank Sinatra, Bruce Springsteen...

Springsteen foi o último dessa linhagem, o epíteto do porta-voz do homem comum nos altos escalões do panteão pop. The Big Boss. Bruuuuuce desvendou os intrínsecos desvios de conduta da alma humana em "Nebraska", clássico do rock escuro e depressivo. Cantou o amor em "Tunnel Of Love", mas não foi esperto o suficiente para não levar um chute da mulher dias depois do lançamento do álbum.

No começo da década de 90, Bruce se retirou, num auto-exílio que dura até hoje – interrompido por alguns shows comemorativos. Coincidentemente, o mundo se tornou menos humano.  A década de 90 marcou o início de um processo de esfriamento das relações humanas. As amizades tornaram-se dispensáveis, o que vale são os negócios. Os romances tornaram-se mais cínicos, afinal, a moda é transar na internet. Se quiser falar comigo, me mande um e-mail, e não toque a campainha de casa sem avisar.  A música ficou impessoal. Os escritores ficaram impessoais, quem ousasse se abrir em um texto, era/é um trouxa. 

Poucos restaram nesse mundo novo, feito do que existia de pior nas previsões de George Orwell e Aldous Huxley. Apenas alguns bravos resistiram. Chris Isaak, Billy Bragg e Steve Earle (esse último, depois de uma boa temporada na prisão, saiu e lançou quatro excelentes discos num período de cinco anos. Em breve receberá tratamento digno aqui no S&Y) caminham às margens da lei. 

As alegrias e dores do homem comum ficaram a cargo de duas grandes bandas: a finada Replacements e Wilco. Na figura de seus líderes, Paul Westerberg e Jeff Tweedy, ainda era possível ouvir canções inspiradas, sem interferência de marketing e/ou imposição da mídia. Nos discos do Wilco ainda dava para se emocionar com canções como "Say You Miss Me" e "Hotel Arizona", e perceber Tweedy carregando toda a melancolia do mundo nas costas enquanto cantava, ironicamente, "How To Fight The Loneliness", sem se deparar com ele alegrinho, posando para um ensaio de moda da "The Face". 

Ainda bem, em uma época em que o hedonismo reina absoluto, existe quem não se renda. Pus meus ouvidos em Ryan Adams pela primeira vez em um disco de sua ex e excelente banda Whiskeytown. O belo "Strangers Almanac", além de sua linda capa trazia o manifesto "Excuse Me While I Break My Only Heart Tonight", onde Adams pede licença para arriscar e partir o seu próprio coração, afinal, é ele o dono do órgão. Em "Not Home Anymore" ele soava como um Michael Stipe caipira e "16 Days" partia qualquer coração de pedra.

A banda acabou, Adams viu o amor de sua vida partir sem dó nem piedade e o chão abrir sob seus pés. O resultado: "Heartbreaker", de 2000, um dos discos favoritos deste que vos escreve. O álbum começa com uma discussão, entre Adams e o resto de sua banda, sobre qual disco solo do Morrissey é melhor. Talvez porque repousasse sobre a sua cabeça o peso de sair de uma grande banda e tentar a vida como um franco atirador. Adams acabou cometendo um dos grandes discos do rock americano. Ele despontou como um dos mais talentosos compositores de sua geração – talvez o melhor. 

Simples, fala direto nos olhos. Perda, amor, ter, vazio, vida, continuar. Move on. O disco foi gravado em Nashville, terra abençoada por Elvis e outros deuses da música, em apenas 12 dias (existem alguns grupos de rock incensados por alguns como gênios da raça, que gastam um ano todo nesse trabalho. Assim até eu...). A primeira-dama do country-rock, Emmylou Harris, fez vários vocais e um bonito dueto em "Oh, My Sweet Carolina".

Adams fala abertamente do fim de seu relacionamento e da dor da perda, sem se esconder atrás de uma falsa arrogância. Lírico, melancólico e, predominantemente levado nas cordas do violão e no fundo de sua alma, gelada. 

Essa simplicidade, em falar com sotaque caipira sobre as mazelas do coração humano, que por mais moderno que seja, ainda bate sem ajuda de computadores, só poderia vir de alguém capaz de compor uma música chamada "Sylvia Plath", uma das mais tocantes de "Gold", seu segundo disco e o grande lançamento roqueiro de 2001. Tudo que ele pede é que Deus lhe conceda uma Sylvia Plath, a poetisa. Para que a leve consigo, para que lhe conceda uma dança.

A capa, com Ryan Adams posando diante da bandeira dos EUA de cabeça para baixo, emula Bruce Springsteen em  "Born In The USA". "New York, New York" , a faixa de abertura, não é uma cover do sucesso de Sinatra e muito menos uma homenagem à cidade, vítima do terrorismo. Fala do amor de Adams pelo lugar, mesmo ela tendo sido o cenário de seu desastroso romance. Apesar de cada rua me fazer lembra-la, eu não te culpo, eu ainda te amo NY. Mesmo amando, Adams deixou NY e mudou-se para Los Angeles, disposto a deixar o passado em alguma freeway. Menos melancólico, mas ainda desolado, Adams transmite em suas músicas, toda a tristeza e raiva, assim como a vontade de sair do fundo do poço. As conseqüências da imparmanência. Nada dura, tudo acaba um dia. 
 

Durante a noite, tudo volta mais uma vez, usando a mesma jaqueta, o mesmo jeans, a mesma camiseta. "La Cienega Just Smiles", cortante, penetrante. Com um fio de voz, quase agonizante, tudo que resta são pequenas lembranças, um pouco acabadas. O esforço é grande, mas você consegue segurar a imagem dela em sua mente. Isso faz com que você se sinta bem, aplaca um pouco o sofrimento. Mas ao mesmo tempo machuca como uma lâmina. Feeling so bad/For such little girl. Cada lembrança, um adeus. La Cienega just smiles... see you around. O piano, esparso, ajuda a dar o nó na garganta.
 
Em seguida, "The Rescue Blues". O blues da salvação. A salvação da vida, do amor, do mundo imaginário, cuja a porta de entrada é qualquer substância ilícita. E todos querem te ver sofrer. Todos querem te ver cair. Um coro, em segundo plano, engana, você pensa que está no paraíso, mas seu inferno só está começando.

E o diabo só vai embora com um bom rock. "Somehow, Someday", furiosa, distorcida, lembra com raiva dos planos que fizemos, dos sonhos que sonhamos. Porque foi um tempo bom. Porque não existe nenhuma maneira de parar de te amar agora. Mas eu vou tentar e vou te mostrar. De alguma forma, algum dia. O refrão, pegajoso.

Enquanto isso, pergunto: "When The Stars Go Blue". Só quero saber para onde você vai quando fica triste. Acompanhado de um piano minimalista, com a voz encharcada de melancolia, Ryan Adams sussurra: "where do you go when you are lonely/where do you go when you are blue/ where do you go when you are lonely, i’ll follow you", rindo com seus olhos tristes.

A solidão de Matilda em "Wild Flowers", esconde o amargo da alma abandonada. Em "Gonna Make You Love Me", somente uma catástrofe pode fazer um cético voltar a amar. Mas tudo piora, quando você percebe que as lembranças já viraram história. História, agora, o que foi real e sonho se confunde e faz tempo em "Harder Now That It’s Over". "Tina Toledo’s Street Walking Blues" é o melhor honk tonk rock que os Stones não fazem desde "Exile On Main Street", há exatos 20 anos. 

O fim em "Goodnight, Hollywood Blvd". Adams deseja que toda a sua dor se transforme em músicas. Eu também. Como chorinho, o CD traz de bônus um outro disco extra, com mais cinco pérolas que não poderiam nunca ficar de fora (o disco nacional, que deve sair em fevereiro pela FNM, não terá esse bônus, que só saiu nos EUA e em apenas 1000 cópias).

"Sweet Black Magic" poderia muito bem figurar na ótima trilha de "O, Brother Where Are Thou", é um country puro, rural, para tirar o chapéu. Em "The Bar Is A Beautiful Place", Adams, liricamente, canta, embebido, que apesar de seus amigos estarem preocupados com seus porres, não existe lugar melhor que o bar para esquecer os problemas. Não existe companhia melhor do que os junkies, as putas, os perdidos, os "sem aonde ir". 

O melhor disco de 2001, disparado. Um dos mais inspirados dos últimos 10 anos. A imprensa brasileira não disse nada, ainda, não teve tempo de ouvir. Preocupou-se somente com as "salvações" pregadas pelos tabloides ingleses. Adams já é rei na Inglaterra. Nos EUA, estranhamente, ainda não estourou em vendas, mas suas músicas já são facilmente ouvidas como fundo em alguns seriados, como "Felicity". 

Adams já foi visto circulando com Winona Ryder, notória colecionadora de rock stars. Se ele está em busca de um verdadeiro amor, dificilmente encontrará paz com Winona. E alguém deve avisá-lo para não tatuar "Winona Forever" no braço. Mas pelo menos, mais uma desilusão, garantirá um próximo grande disco.

Um disco, certamente, feito com sotaque caipira para quem se criou no campo. Falando de e para pessoas honestas, sinceras, apaixonadas e que olham nos olhos quando falam. Mesmo embaixo da poluição. Aôôô, peão apaixonado