Here
Come Sickness !!!
por
Alexandre Petillo

O Dadá, um amigo meu, costuma
dizer que a melhor coisa a fazer quando se está deprê é
ouvir rock sujo e pesado gritando na sua orelha. Me lembro dele me falando
que quando brigava com a ex-namorada, saia da casa dela ouvindo Sepultura
no último.
Por isso, recentemente, devido a algumas
confusões sentimentais, resolvi seguir a indicação
do Dadá. Ao invés de bandas escocesas fofinhas e outros ícones
da melancolia indie, botei o Mudhoney para curar a ressaca. E funcionou.
Mark Arm, Steve Turner e cia., salvaram a minha vida, posso dizer.
Mas o fato impressionante e interessante
é que os caras estão chegando para uma batelada de shows
pelo Brasil. Você, caro leitor, que chegou até este site,
aposto, já está careca de saber disso. Mas o Scream &
Yell, em seu caráter jornalístico cosmopolita, não
podia deixar esse evento passar sem dar qualquer registro.
Graças
à iniciativa do pessoal do programa de rádio Garagem, o Mudhoney
traz a sua zoeira sonora ao país em sete shows. A turnê começa
dia 14, em Porto Alegre (que, se os deuses da música forem justos,
colocarão o Walverdes para abrir o rock), no Teatro de Elis.
Dia 15 os caras tocam em Curitiba,
16 em Belo Horizonte, 17 em Goiânia, 18 no Rio (Ballroom) e fecham
a porradaria dia 21 em São Paulo, no Olímpia (ingressos a
salgados R$ 30).
Para ir se preparando para o
fuzz onipresente e endiabrado da banda, uma boa dica é o “Here Come
Sickness”, disquinho contendo as melhores gravações ao vivo
que a banda fez para a rádio inglesa BBC.
Contem registros de 89 (quando a banda
fez uma turnê pela Inglaterra, abrindo para o Sonic Youth, sem ainda
ter um disco lançado mundialmente) a 95 (quando tocaram no tradicional
festival Reading), e traz 10, das prováveis 18 músicas que
a banda vai tocar por aqui.
O
Mudhoney sempre soou diferente do que seus contemporâneos do grunge.
A banda capitaneada por Mark Arm, acima de tudo, conhecia tudo de rock,
e se preocupava em manter ao máximo a sonoridade de Seattle: algo
próximo de uma mistura entre Stooges e Black Sabbath. A banda tem
os gritos angustiantes de Arm nos vocais, uma bateria estupidamente agressiva
e guitarras ultra-distorcidas (utilizando o modo como Hendrix fazia o instrumento
“gritar”), além do já citado onipresente pedal fuzz.
O Mudoney lançou vários
bons álbuns, mas em qualquer coleção que se preze,
faz-se obrigatória a presença de pérolas como “Superfuzz
Bigmuff”, “Mudhoney”, “Every Good Boy Deserves A Fudge” e “Piece Of Cake”.
Ouvir o Mudhoney ao vivo, pelo menos no cd, escancara o tesão que
a banda tem de tocar ao vivo e de ser uma banda de rock. “Éramos
uns nerds. E de repente todo o mundo queria saber o que nós pensávamos,
o que fazíamos em casa. Isso não me deixa feliz. Eu fico
feliz em tocar”, falou o guitarrista Steve Turner no documentário
“Hype”.
A energia que a banda destila nas
apresentações da BBC não podem ser descritas e, sim,
sentidas. “Touch Me, I’m Sick”, maior “hit” do grupo, vem acompanhado de
uma pegada incrível, chega a parecer que eles estão tocando
numa garagem somente para incomodar os vizinhos. “Here Come Sickness”,
numa gravação de 89, é puxada por uma bateria demolidora.
Encerra o disco, e talvez os shows brasileiros, a cover dos The Dicks chamada
“Hate The Police”. Se você se pegar pogando sozinho no quarto, não
estranhe, é normal.
O disco ainda traz duas covers feitas
especialmente para a radio inglesa, prestando tributo a dois heróis
ingleses da banda: uma versão esporrenta de “Editions Of You”, do
Roxy Music e “You Make Me Die”, de Billy Childish.
Se você quer esquecer uma garota(o),
ou só tem grana/disposição para ir a apenas um show
este ano, vá ao Mudhoney. Sem medo. Pule, dance, grite, berre, se
acabe. Vale a pena. Qualquer problema depois, você reclama com o
Dadá. |