O inesquecível
show do Mission em 88
Por
Claudia Assef
(Depoimento
Histórico)
"Você
não tem idade para entrar no show", disse o gorilão com a
jaqueta da Fonseca’s Gang, a temida Fonseca’s Gang. O ano era 1988, e eu,
então com 13 anos, tinha uma baita cara de pirralha mesmo. Pensei:
"Ficar de fora de show do Mission??? Nem pensar!!!".
Estava com o meu primo Dinho. Meu
pai só deixava entrar naqueles "antros" de rock, como ele dizia,
se fosse com o primo, que é uns três anos mais velho do que
eu. Ah, e só podia ir se o velho fosse nos deixar na porta e depois
buscar na porta de novo. Um mico total !!!
O Dinho já queria ir vender
os ingressos pro primeiro cambista e desistir do show quando vi umas darks
mais velhas se montando antes de entrar no Projeto SP - o lugar ficava
na rua Caio Prado, e simplesmente todo show bacana dos anos 80 rolou lá
ou no Anhembi.
As minas entuchavam tanta maquiagem
nos olhos e nos lábios que, em vez de ficarem parecidas com a ídola-master
Siouxie, ficavam a cara do palhaço Arrelia. Respirei fundo e fui
falar com elas: "Posso pegar um pouco de maquiagem??", perguntei, enquanto
o Dinho se preparava para sair correndo.
"Pega aí, pirralha", responderam
as barangas. Apesar de achar ridículo, o disfarce de dark era a
minha única chance de passar batido pelo Fonsecão. Entrei
na fila parecendo a Bozolina. Mas até aí, tudo bem. Todo
mundo da fila parecia a Bozolina - a Bozolina gótica, é claro.
O segurança-armário arrancou o bilhete da minha mão
e nem olhou pra minha cara. Era o sonho: tava lá dentro!!!
Antes de o show começar, eu
e o Dinho decidimos tomar umas biritas para espantar o nervosismo que qualquer
adolescente sente quando está prestes a ver um ídolo de perto.
Fomos até uma tenda podraça, que chamavam de bar.
Não lembro como chamava o dinheiro
naquela época, mas sei que a gente tinha pouquíssimo. O suficiente
para comprar quatro doses de vodca para lá de bagaceira.
Viramos as malditas "Poporóvs"
ali mesmo, no balcão. Foi o porre mais rápido de que eu já
ouvi falar. Nem bem engolimos o goró, já estávamos
cambaleando. Um vexame. Detalhe: o Dinho, apesar de ser mais velho, nunca
tinha tomado um porre antes !!!
Ficamos bêbados e, consequência
natural, muito folgados. Queríamos ver tudo de pertinho. Fomos nos
enfiando no meio daquele povo de preto, de preto, de preto... E, de repente,
tudo ficou mais preto do que o previsto. Kaput mesmo !!!
Acordamos, eu e o Dinho, com um monte
de gente gótica em volta. Uns riam, outros tentavam ajudar. Para
completar, o gorila da Fonseca’s veio nos guinchar dali. E o Wayne, o Craig,
o Mick, e o Simon lá no palco, tocando "Severina", que era hit absoluto,
tocava até no Silvio Santos ...
Ficamos lá deitados numa outra
tenda podraça, que chamavam de enfermaria, até o bode passar.
O show terminou, pedimos uma ficha emprestada (se você tem menos
de 20 anos, ficha era um negócio que a gente usava no orelhão,
ou melhor, no telefone público, para conseguir fazer uma ligação).
Meu pai foi nos buscar e como sempre perguntou: "E aí? Gostaram?".
E os dois responderam que daquele show a gente nunca mais se esqueceria.
Claudia
Assef, 26, é jornalista da Folha de São Paulo e foi passar
umas férias (a trabalho) na França. |