Lou
Reed ao vivo – Credicard Hall
São Paulo – 14/11/00
Por
Marcelo Costa
maccosta@hotmail.com
Você
conhece o som de uma Fender? O verdadeiro som de uma Fender?
Se disse que sim, só tenho uma constatação:
você já foi num show do Lou Reed. Sim, porque
só quem foi num show desse cara sabe o real som que
tem uma Fender Stratocaster. Eu fui. Eu vi. Ouvi. E no capitulo
do rock and roll "já posso morrer feliz" eu digo: eu
vi Lou Reed e ele tocou Sweet Jane.
O momento mágico aconteceu no Credicard Hall, em São
Paulo, 14/11. Quem foi, não viu apenas duas Fender
sendo tratadas do modo que merecem (carinho e violência
na mesma batida). Viu um quarteto excelente revigorar um som
batizado como rock'n'roll, baby.
A banda é afiada por estar quatro anos acompanhando
Lou. O baixista Fernando Saunders faz de seu baixo um violino,
em várias passagens. O baterista Tony "Thunder" Smith
é um show de carisma enquanto o guitarrista Mike Rathke
é um guitarrista de rock, com todos os melhores adjetivos
do termo.
A iluminação era simples. O palco trazia um
simples manto preto. E Lou é Lou, ou seja, camiseta
preta, calça e jaqueta de couro, e os cigarros. Apenas
isso, e muito barulho, e muita poesia. O show é um
antídoto perfeito para, por duas horas, nos fazer esquecer
do mundo lá fora. Da violência, dos assaltos
e dos corações partidos. Uma vez no mundo de
Lou Reed, não tem jeito, você é pego.
Louis Allan Reed declamou para o público paulista suas
letras urbanas, poéticas, proféticas, doentias,
mágicas, urgentes. Declamou como um bardo que aos 58
anos ainda vê sentido em cantar que "Romeu tinha sua
Julieta, e Julieta tinha seu Romeu". Se Morrissey é
o maior inglês vivo, nada mais apropriado que o cara
que decidiu fazer música para unir o som de sua Fender
com um texto tão forte quanto os de Shakespeare e Doestoevski
seja o maior norte-americano vivo.
O show é dividido, sintomaticamente, em duas partes.
Na primeira, apenas canções do último
álbum, que dá nome a tour: Ecstasy. Dez
canções desse álbum formam o grosso do
show. Em seu site, Lou publica um diário da turnê.
E, passando em Belfast, reclamou que as pessoas só
querem ouvir as canções antigas. E existe certa
razão nisso. Ecstasy é um ótimo
álbum. Como bem definiu um outro jornalista, se tivesse
sido lançado por qualquer novato, seria incensado,
mas foi lançado por Lou Reed.
A parada é dura. Na mesma "página do diário"
ele diz que sempre toca as velhas canções. O
diferencial é que, para ele, dois clássicos
dos anos setenta e três dos anos 80 já bastam.
Para nós, não.
Lou Reed poderia, na boa, fazer três shows diferentes
tocando só clássicos, misturando canções
do Velvet Underground com as de sua carreira solo. Poderia,
mas prefere divulgar seu novo álbum, dando um show
– realmente – de feeling, poesia e barulho.
A nós, resta chamá-lo de "motherfucker"
e cantar com toda a força dos pulmões Turn
To Me, Dirty Boulevard, Set the Twilight Reeling e, claro,
Sweet Jane e Perfect Day. E sair sorrindo para
casa por ter visto mais uma página do rock'n'roll sendo
virada. E torcer, para que numa próxima vez ele toque
Satellite Of Love, Walk on The Wild Side e, quem sabe,
Run Run Run e Sister Ray ...
Set
List
Paranoia
Key Of E – Turn To Me (album New Sensations)
– Modern dance – Ecstasy – Small Town (album
Songs For Drella) – Future Farmers of America –
Turning Time Around – Romeo and Juliette (album New
York) – White Prism – Rock Minuet – Mystic Child –
Tatters – Set The Twilight Reeling (album homônimo)
Primeiro
encore - Sweet Jane (Loaded com o Velvet
Underground) – Dirty Boulevard (New York)
Segundo encore - Baton Rouge – Perfect Day
(Transformer)