Los
Hermanos - Entrevista
por
Martín Fernandez
Fotos do show em São Bento
do Sul/SC - Alex (cedida pelo site oficial da banda)
"Fizemos o disco à revelia"
A escalação do show
era bizarra: uma dupla sertaneja mirim, uma banda de baile e outra dessas
gauchescas. Pra fechar a noite, Los Hermanos. O cartaz e o material de
divulgação também eram, no mínimo, estranhos.
Sobre uma foto antiga da banda carioca, estava lá a frase, em letras
garrafais: "Ô Anna Júliaaaaaaa". Até um jornal de São
Bento do Sul (SC), ao noticiar o show, disse que estaria na cidade o grupo
autor do sucesso "Ô Anna Júliaaaaaaa". Bizarro.
Entrevista a uma rádio local.
O locutor chama Marcelo de Rodrigo e pergunta: "O que a banda fez depois
de Anna Júlia?". Camelo, com uma paciência descomunal, explica
que a banda gravou outro disco, que está viajando pelo país,
que tem outras músicas tocando em rádios e tal . "A gente
tá acostumado a esse tipo de pergunta", explicaria depois.
O novo disco em questão, "Bloco
do Eu Sozinho", foi lançado depois de algumas turbulências:
saída de um dos integrantes e tentativas de interferência
da gravadora no conteúdo do disco. Para gravá-lo, a banda
isolou-se por dois meses num sítio no interior do Rio de Janeiro.
A Abril Music não gostou do resultado e tentou mudar a concepção
de "Bloco", sucessor do álbum "Los Hermanos" (1999), que vendeu
300 mil cópias, puxado por "Anna Júlia", música mais
tocada pelos trios elétricos baianos no carnaval do ano 2000. Os
Hermanos não cederam às pressões, e o disco acabou
saindo do jeito que a banda queria. A critica incensou (na votação
Melhores
de 2001 do S&Y a banda foi a grande vencedora) e o público
parece ir descobrindo aos poucos.
Em São Bento do Sul a banda
fez um set pequeno, com 17 músicas - a maior parte de "Bloco do
Eu Sozinho". Das 4 mil pessoas presentes, a metade provavelmente nem sabia
que a banda tinha lançado outro disco, a exemplo do locutor da rádio.
E só se mexeram mesmo quando a banda tocou "Anna Júlia".
Uma pena. "É uma situação complicada pra nós,
porque não queremos menosprezar o sentimento do público por
essa música", comentaria após o show Bruno
Medina. "Queremos que ela seja apenas nosso maior sucesso, e não
sinônimo de Los Hermanos".
Antes do show, Rodrigo Amarante, Marcelo
Camelo, Bruno Medina e Rodrigo Barba conversaram com o S&Y sobre o
problema com a gravadora, a saída do baixista Patrick Laplan, o
novo disco, a nova turnê e o futuro da banda.
Scream &
Yell - O que aconteceu no episódio com a Abril Music?
Bruno Medina: Quando a gente se reuniu
pra fazer o segundo disco, decidimos alugar um sítio no interior
do Rio e levar todo o equipamento pra lá. A gravadora não
gostou porque ficaria longe do processo. Mas fomos mesmo assim, o disco
foi surgindo do jeito que é e não vimos motivos pra mudar
nada. Fizemos o disco à revelia. Quando eles viram o resultado,
não gostaram, disseram que os arranjos estavam confusos e pediram
que a gente regravasse com outro produtor. Como não regravaríamos
de jeito nenhum, chegamos a uma medida conciliatória e aceitamos
remixar o disco com o produtor que eles sugeriram. A gente participou do
processo inteiro, foi no estúdio todos os dias. Não foi tão
desagradável quanto achamos que seria.
O disco ficou
mais para o lado da banda ou da gravadora?
Medina: Certamente pra nós,
não tem a menor dúvida. Então isso foi a maior perda
de tempo, porque acabou ficando como nós queríamos. Mas eles
acabaram ficando felizes, porque tiveram a última palavra. Foi meio
por causa de birra, coisa de falar que não aceitam, querer impor,
dizer que "a gente é que manda" e tal.
Depois do
lançamento, houve alguma retaliação da gravadora,
no sentido de não divulgação?
Marcelo Camelo: Não dá
pra encarar como retaliação. A gravadora pega o resultado
final, o disco, e diz: "com isso aqui dá pra fazer isso e isso",
o que realmente aconteceu. Nós achamos que foi pouco. O disco teve
pouca divulgação, só teve uma música de trabalho
até agora ("Todo carnaval tem seu fim"). [dias depois da entrevista
"Fingi na hora rir" entrou na programação de algumas rádios]
De acordo
com o contrato, há mais um disco a ser lançado pela Abril.
Esse episódio pode sinalizar alguma mudança?
Camelo: É uma questão
sutil cheia de meandros e dependente do momento. A gente sabe o que gosta
de fazer, e vai fazer isso. Eles investem mais ou menos de acordo com os
critérios deles.
Medina: De repente o próximo
disco preenche as categorias, os critérios da gravadora pra medir
compasso, refrão e sei lá o quê. Quem sabe eles não
gostam de novo?
O que vocês
levaram para ouvir durante os dois meses no sítio?
Rodrigo Amarante: A gente tava ouvindo
muito Beatles naquela época.
Camelo: Cada um levou algumas coisas
que tinha comprado, que estava curtindo na hora. Ouvimos música
juntos assim: cada um mostrando coisas que os outros nunca tinham ouvido.
O Barba (bateria), por exemplo, mostrou Fun Lovin' Criminals. Eu levei
uns discos do Tom Zé, os outros também levaram algumas coisas.
Mas dessas influências não tem nada de exclusivo, concreto
ou maior. Por mais genérico que possa parecer, é verdade.
Como foi
a saída do baixista Patrick Laplan?
Camelo: Foi um lance de caminhos estéticos
mesmo. O disco começou quando ele saiu. Porque esse disco tem uma
harmonia muito grande entre os instrumentos, dependem muito um do outro.
E com um baixista que pensava muito diferente era difícil dar o
primeiro
passo nos arranjos. Foi preciso entrar um baixista que se entendesse melhor
com a gente pra começarmos a fazer o disco.
Medina: Ele está tocando com
o Rodox (nova banda de "hardcore cristão" de Rodolfo Abrantes, ex-Raimundos),
pra ver o caminho musical que ele queria seguir.
E como vocês
fizeram sem baixista "oficial"?
Amarante: Nós quatro somos
a banda, não tem isso de cargos. Quem gravou conosco foi o Alexandre
Kassin (Acabou la Tequila), amigo nosso de longa data. E quem viaja é
o Gabriel "Bubu" Neves (Carne de Segunda), também amigo nosso e
justamente indicado pelo Kassin.
Camelo: É legal ter um baixista
pra poder fazer os arranjos do modo como vão sair no show, porque
se o Amarante tocar baixo no show ele vai ter que deixar de tocar guitarra...
O que acontece é que temos uma linguagem muito particular. A gente
já toca junto há tanto tempo que as coisas que falamos um
pro outro são muito sensoriais, muito particulares a nós.
É tipo: "Barba, faz uma bateria de bandinha de farmácia",
ou "Bruno, faz um teclado pôr-do-sol". São cosias típicas
da nossa maneira de comunicar. E é difícil falar isso pra
alguém que não conviva tanto conosco.
O segundo
disco é bem diferente do primeiro. Vocês encaram como uma
evolução?
Amarante: Essa diferença fica
mais gritante porque, quando uma banda faz sucesso no primeiro disco, todo
mundo espera que ela repita a fórmula no segundo. A gente simplesmente
não tem esse compromisso. O que mudou foi que nós envelhecemos
um pouco e isso determina a diferença, as coisas que aconteceram,
os discos que a gente trocou, essas coisas.
Camelo: Acho que é uma evolução
no sentido de que veio depois do outro. Não porque é melhor.
Sem o outro não teria esse. Nos orgulhamos dos dois.
O primeiro
disco é permeado pela mistura de ska e hardcore, estilos quase desaparecidos
no segundo disco...
Amarante (rindo): Vamos fazer um hardcore
pra você.
Camelo: No início da banda
a idéia era misturar letras de amor com hardcore. O peso da melodia
e a leveza das letras. Foi o mote inicial, por isso o primeiro disco tem
essa cara. Mas à medida que começamos a viajar juntos, trocar
discos, conversar mais sobre música, isso foi se dissipando. É
inevitável que o som mude. Depois de tanto tempo de convívio,
tocando juntos, é natural que essa fórmula hardcore, ska,
reggae, esteja cansativa. Assim como no terceiro vamos tentar uma coisa
diferente. Isso é meio que um cerne da banda, tentar sempre coisas
diferentes.
O quê,
por exemplo?
Camelo: As ações é
que vão dizer. O clima que a gente estiver, o som que tivermos ouvindo,
o estado emocional de cada um, os lugares onde estivermos. Sem objetivos
fixos.
O que não
mudou foi o tema das letras: amor, relacionamentos. Isso não pode
se esgotar?
Amarante: Não sei. Nós
não escrevemos para agradar alguém ou só para escrever
sobre amor. As letras tratam de relacionamentos, que podem ser entre namorados,
irmãos, amigos, pai e filho. Escrevemos sobre histórias que
presenciamos, que vivemos. Talvez um dia vamos escrever sobre outras coisas,
sem problema algum. No mais, "Bloco" já tem músicas que não
falam sobre relacionamentos, como "Todo carnaval tem seu fim" e "Cadê
teu suín". Se você pegar o primeiro disco, a maioria das letras
tem a estrutura do samba-canção, as rimas, os versos. Agora
no segundo, não. As letras no encarte já estão em
forma de prosa, o que pode sinalizar uma mudança. Não vamos
virar uma banda panfletária, por exemplo, de uma hora pra outra.
Mas mudar é conosco mesmo.
"Bloco" teve
pouca divulgação. Vocês estão fazendo menos
shows por isso?
Amarante: Tocamos pouco mesmo. Em
janeiro nada, em fevereiro pouco e agora estamos começando a turnê
desse disco. Além disso, estamos numa crise meio invisível,
e o primeiro mercado que sofre é o nosso, do entretenimento.
Vocês
têm tocado em lugares menores, não?
Camelo: Esse disco não é
pra ser tocado em lugares grandes, até porque não teve uma
música que tocou pra caramba em rádio e tal. E isso é
legal. Embora com pouco tempo de estrada, temos muita experiência
ao vivo. Já experimentamos todos os tipos de palco nesse pouco tempo.
É bom voltar a tocar em lugares pequenos, para um público
que conhece a banda, canta as músicas, vai no site, vê a banda
como um todo. A gente passou muito tempo tocando pra públicos grandes,
na excursão do primeiro álbum, em que tentávamos convencer
as pessoas. E é bacana estar de volta a platéias mais próximas,
sem ter que convencer ninguém.
Amarante: Essa é a vantagem
de se divertir tocando, de se fazer o que gosta: se tem pouca gente no
show, não tem problema. Se tiver só uma pessoa ali, cantando
as músicas, fazemos o show só pra ela.
O que falta
para o Los Hermanos se firmar definitivamente no cenário nacional?
Medina: Eu gostaria que nossa música
pudesse transpor definitivamente as barreiras do preconceito de sucesso,
de pouca idade, de não pertencer a nenhum movimento ou panelinha,
enfim que pudéssemos ser julgados apenas por nossos discos e ponto
final. Acho que isso por si só garantiria uma vendagem e número
de shows significativos para que pudéssemos viver de música
com tranquilidade.
Camelo: Falta tempo mesmo. Falta a
gente conseguir viver um tempo fazendo bons discos. Conseguindo estar vez
ou outra na mídia com um disco bom, tocando bem, músicas
bonitas, é isso. Constância.
E daqui pra
frente? Outro disco nesse ano?
Amarante: A gente continua compondo
como sempre, fazendo músicas novas e tal. Mas isso não quer
dizer nada sobre o próximo disco. Estamos trabalhando nesse ainda.
Los
Hermanos ao vivo
São
Paulo - Blen Blen Brasil 20/02/2002
por
Marcelo Silva Costa
O mundo seria
muito melhor se artigos como honestidade, coragem e sinceridade pudessem
ser vendidos em farmácias. Como ainda não encontraram uma
maneira de "vender" estes produtos, somos obrigados a sobreviver com o
pouco que temos. E, é muito pouco. Entrei no aconchegante Blen Blen
Brasil caraminholando essas questões, preparando-me para ver pela
primeira vez a banda nacional mais cultuada dos últimos anos em
terras brasilis: o Los Hermanos. O prazer foi inesquecível.
Defendendo sua
música como quem defende seu próprio nome, o Los Hermanos
fez "Bloco do Eu Sozinho", um disco para ouvir, ouvir, ouvir e ouvir. E
ouvir. Triste até onde o âmago permite, "Bloco", ao vivo,
é sinônimo de festa. Festa com serpentinas e papel picado,
com pequenos sucessos particulares cantados em coro com a mão no
peito, como que segurando para que o coração não saia
pela boca. Público e banda, cantando no meio da noite pequenas odes
ao amor.
Do inicio, com
"A Flor", até a derradeira "Adeus Você" (demais terminar com
"pra que minha vida siga adiante"), os Hermanos mesclaram canções
de seus dois álbuns, em praticamente doses iguais. Sim, teve "Anna
Júlia". E também teve "Primavera", "Azedume" e "Pierrot"
do primeiro assim como "Fingi na hora de rir", "Cade Teu Suin?" e a bela
"Sentimental", do segundo.
Dois bônus
inesperados preencheram o set list: "Desce", de Arnaldo Antunes, parece
ter sido escrita de encomenda para os Hermanos, e, principalmente, para
"Bloco do Eu Sozinho". ("Desce do trono, rainha / Desce do seu pedestal
/ De que te vale a riqueza sozinha / Enquanto é carnaval?"). Clima
denso, arrastado, perfeito.
O outro bônus
foi uma versão de última hora, especial para um programa
de tv. Pense em uma música de Roberto Carlos que pudesse se encaixar
no repertório dos Los Hermanos. Pensou? Essa música é
"Traumas", pequena pérola escondida no álbum de 1971 do rei
(o mesmo que traz "Detalhes" e "Debaixo dos Caracois do Seu Cabelo"). A
letra que diz "meu pai um dia me falou pra que eu nunca mentisse / mas
ele também se esqueceu / de me dizer a verdade" ganhou força
na interpretação dolorida de Amarante, e só quem sabe
as porradas que essa banda anda levando para ser a grande que é
poderá entender "os traumas que a gente só sente depois de
crescer".
O mundo seria
muito melhor se existissem mais bandas como essa. Se, pudessemos, vez por
outra, sermos tirado da rotina que vivemos para adentrar o mundo colorido/dolorido
de um show que toca o coração, lava a alma e faz a voz se
perder em rouquidão. Para que a vida siga adiante.
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