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Já
faz um bom tempo que a música pop não cria nada de novo,
instigante. Na verdade, desde Ok Computer do Radiohead que tudo soa
deja vu e blá blá blá. Os melhores álbuns de 2001
não trazem nada de novo além de um punhado de belas canções,
o que anima o freguês, mas anda faltando algo. Senão, vejamos: O Manic Street
Preachers lançou o bacanudo (e longo demais) Know Your Enemy,
uma junção dos dois álbuns anteriores do trio galês.
Novidade? Nenhuma. Nick Cave destila poesia maravilhosa em seu 12º
álbum, No More Shall We Part. Um álbum sensacional.
Novidade? Nenhuma. Stephen Malkmus lançou um bom álbum à
lá Pavement. Travis lançou um álbum rascunho de Travis.
R.E.M. lançou o 12º melhor álbum de sua carreira, Reveal,
e logo chega as lojas Is This It, da bandinha do momento, The Strokes,
um punhado de canções legais inspiradas em Stooges e Velvet.
Novidades? Nenhuma.
O
que o Los
Hermanos tem a ver com isso? Nada e tudo.
Nada porque a velha guarda jornalistica e a garotada indie adora
inventar regras malucas e, numa delas, acreditar que a música
pop nacional é infinitamente inferior ao mesmo quindim
estrangeiro. E tudo porque, sim, Bloco do Eu Sozinho,
novo álbum do quarteto carioca é inventivo, instigante,
chapado e maravilhoso, melhor que todos os álbuns citados
no segundo parágrafo.
Enlouqueci?
Não, mas para descobrir isso, caro leitor, você terá de
baixar a guarda. Bloco do Eu Sozinho é um puta disco por
onde quer que se olhe. De título melancólico, de natureza
experimental, de briga com gravadora, de citações cool, o
álbum pega na veia e mostra que a saída para a música
pop nacional é ser antiga e atual no mesmo riff de guitarra, no
mesmo som de tuba, na mesma tristeza de letra que embalaria sambas-canção
nos anos 30 e que embalam relacionamentos partidos em 2001.
Enquanto
90%
do rock mundial segue atrás do Radiohead (o underground nacional
incluso) que já nem sabe mais pra onde ir, os Hermanos apóiam-se
em si mesmos para escrever mais um capítulo grandioso da música
brasileira. Bloco do eu Sozinho é neto de Noel Rosa, filho
de Picassos Falsos e primo em segundo grau do clássico London
Calling do Clash.
E é herdeiro
direto do primeiro álbum da banda e do maior hit da recente história
do rock brasileiro. Sim, Anna Julia é culpada por quase toda
beleza de Bloco do Eu Sozinho. O hit "jovem guarda" aprisionou a
banda numa cela com 250 mil pessoas cantando em coro o refrão. Mas,
como sabiamente disse Marcelo Nova numa entrevista exclusiva para o S&Y,
"toda música que toca demais enche o saco, seja Anna Julia ou Joana
D. Arc". Ou Wonderwall.
A
banda, perdida
no meio da gritaria, escolheu um sítio afastado e decidiu repensar
o carnaval. O resultado é uma brusca pisada no freio. Tão
brusca que uma pendenga entre gravadora, produtor e banda acabou saindo
dos estúdios e ganhou páginas de jornais espalhando que a
gravadora recusou o álbum, que a banda peitou a gravadora e que
a saída feliz para ambas as partes foi uma remixagem (acompanhada
pela banda) de um terceiro (assim como Scott Litt fez em In Uterno,
do Nirvana).
O resultado é uma pequena obra prima. Uma mistura esquisita
de samba, rock, ska, MPB, guitarras, samba-canção,
vaudeville, maxixe, dixieland, orquestra de cordas, trombones
e letras tristes. Quem esperava uma nova Anna Julia já
recebe o recado na primeira faixa do álbum: Todo
o carnaval tem seu fim. Bloco do Eu Sozinho é
um disco de quarta-feira de cinzas, um disco de ressaca, de
maquiagem borrada, camisas suadas e, sobretudo, um disco de
quem vai embora para casa sozinho após a festa.
O
que mais impressiona é a qualidade dos arranjos, os detalhes.
O álbum
começa com sax e bateria que remetem a London Calling, a música,
do The Clash. O riff de guitarra é atropelado por trompete e trombone
e tudo se junta no refrão: "Deixa eu brincar de ser feliz, deixa
eu pintar o meu nariz".
Um
flugelhorn
abre a faixa dois, A flor. Retrato de Iaiá, a terceira,
se apóia
em ska enquanto a genial Assim Será mistura pandeiro e guitarras
em uma canção de despedida que diz "e você vai ser
mais feliz longe de mim".
Uma
canção
como Sentimental nada deve a qualquer hit do Travis e do Coldplay. Cher
Antoine é cantada metade em francês, metade em português.
Os metais chapam em Deixa Estar ("digo que não ligo, mas não
vivo sem você"). Fingi na hora de rir traz microfonias e mais
metais
e mais tristeza. Mas as duas canções mais fundo de poço
do álbum foram deixadas para o fim, separadas pelo hardcore Tão
Sozinho. Veja bem Meu Bem e Adeus Você pegam pesado
nas dores do coração. A melhor faixa do álbum, Cadê teu
Suin? é uma brincadeira de sílabas que dispara farpas
para todos e para tudo.
Quem é teu
padrinh
Onde é que
tu to
Cadê teu suin-?
Guitarra
não pó
Desista mole
Quem é que te indi
Cadê eu suin-?
Com que sobreno
melhor ir sain
dou nem mais minu
tô nem mais a
inda tem a cora
gentinha atrevi
da cá sua vi
da cá teu suin
guiche
só de ven
da lá toma no
tamanha revan
cheio de vingan
santinha Cecili
andou me esquecen
dou rima por p
hão de teu suin!
Acerta esse tom
zera essa reza
aumenta o voc
calma com o andamen
to insatisfei
tomara que venh
aquele refr
hão de ter o suin
guilhotina
EU QUE CONTROLO O MEU GUIDOM!
COM OU SEM SUIN!
Em
um ano em que o rock mundial está
caminhando em circulos, as novidades vão surgir dos lugares menos
obvios. Assim, bandas fora do eixo anglo-saxão podem ser o sopro
de inteligência em um meio acomodado. Pizzicato Five e Cafe Tacuba
são nomes de destaque. E Bloco do Eu Sozinho mostra que o
Los Hermanos tem cacife para algo maior. Sem padrinhos, sem ninguém
indicando, os moleques não desistiram. Estranho o mundo. Eles se
fodem para lançar um discaço e quem ganha o presente somos
nós. Estranho e genial.
Com exclusividade
para o Scream & Yell, o Los Hermanos comenta, faixa a faixa, o primeiro
clássico da música brasileira no século 21
TODO CARNAVAL
TEM SEU FIM
Camelo: "A letra é muito bacana. É uma mensagem de todo o disco.
Acho que o refrão desse disco é o cerne de tudo: deixa
eu brincar de ser feliz/deixa eu pintar o meu nariz. Resume todo
o disco essa
frase. Tem muito do nosso romantismo
aqui.
A FLOR
Camelo: "Foi
a segunda música que eu fiz em parceria com o Rodrigo (Amarante).
Foi feita em 99, quando estávamos em Recife para o Abril Pro Rock.
É uma das músicas que o público gosta bastante, já
vínhamos tocando ela nos shows."
RETRATO
PARA IAIÁ
Amarante: "Essa
música é sobre encontrar um amor de verdade. É triste,
mas fala de um amor futuro."
ASSIM
SERÁ
Camelo: É
uma das músicas que tem uma harmonia muito boa, com um arranjo de
metais maravilhoso.
Tem um estilo que eu aprendi, que é tocar o samba em u
andamento diferente,
lento, com dois pandeiros em estéreo. Tem uma letra bemtriste, mas
esperançosa mesmo assim.
CASA
PRÉ-FABRICADA
Camelo:
Talvez seja a música do disco com mais influência
de Weezer. Tem a guitarra pasada,
ritmo rachado e um teclado moog.
CADÊ TEU
SUIN-?
Camelo: É
uma crítica à indústria musical em um todo. Pela primeira
vez nós
fizemos um
dixieland de branco, meio quadrado,mas com um pouco de swingue. Tem uma
letra muito boa, a que eu mais gosto.
SENTIMENTAL
Amarante: É
uma música pesada, seja na letra como na melodia. Fala sobre se afastar, perder,
sobre uma pessoa que você ama muito te deixar.
CHER ANTOINE
Amarante: É
um tanto trágica. Traz uma letra em francês triste. Mas é um
ska de churrasco,
descompromissado.
DEIXA ESTAR
Camelo:
Acho que á música que mais se parece com o Los Hermanos
do primeiro disco, tem
um ska reto, quadrado. A letra é toda formada de trava-língua.
MAIS
UMA CANÇÃO
Camelo:
Tem uma letra que eu não gosto muito, mas acho ela bem espontânea.
Ela bonita na sua
banalidade. A idéia era gravar ao vivo. Mas tem um clarinete dobrado que é lindo.
Acabou ficando simples e bonita
FINGI NA HORA
RIR
Camelo: É
uma canção antiga, que eu fiz quando fomos mixar o primeiro
disco em Los Angeles.
Foi uma das mais difíceis que gravamos. Ela muda o andamento no refrão,
depois muda de novo. Só conseguimos achar um meio-termo dela quando entramos em
estúdio.
VEJA BEM MEU
BEM
Camelo: É
outra que tem uma letra boa. Fala de uma relação de duas
pessoas, onde uma pessoa
fala que trocou o parceiro por outra, porque estava difícil sobreviver
nos dias ruins.Basicamente é um samba. É um lamento, também.
TÃO
SOZINHO
a música mais antiga do Los Hermanos. Essa é da época
de uma outra banda que eu
tinha. Como é um hardcore pesado, ela destoa um pouco do resto do disco. Mas é legal
para balancear.
ADEUS
VOCÊ
Camelo: Essa
letra eu fiz quando os pais da minha ex-namorada foram morar fora do
país.
Aí fala sobre a despedida de uma mãe para uma filha. Só que
depois que eu terminei
o namoro com ela, começou a fazer muito sentido para mim. Mostra
que uma relação
entre homem e mulher também se aproxima de uma relação
mãe e filho. Tem uma orquestra
barroca no final que é maravilhosa.
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