Unplugged
MTV 2.0 – Lauryn Hill (Columbia)
por
Diego Fernandes
d13g0_freejazz@yahoo.com.br
Uma fórmula só é
uma fórmula até que alguém a subverta. (Abre aspas:
brilhante, esse pensamento.) Mas vamos lá: a série MTV Unplugged,
como todos sabem, se popularizou por ser um meio fácil de capitalizar
em cima de sucessos antigos, proporcionar novas leituras de clássicos,
apresentar os dinossauros à geração videoclíptica,
executar covers inusitadas – tudo isso, teoricamente, emprestando a simplicidade
e o intimismo da música folclórica.
Mesmo algumas unanimidades fizeram
discos que são somente "ok" (como Neil Young, Bob Dylan, e nosso
Jorge Ben, por exemplo, que, acústicos de longa data, fizeram discos
legais mas não realizaram nada de radicalmente diferente dentro
de sua carreira, passando batidos em um modelo que, a grosso modo, foi
inventado por eles próprios).
O rol de artistas que se iniciou na
prática do desplugado da emissora musical é tão grande
que tem-se vinculados a um mesmo formato artistas tão díspares
quanto Bryan Adams e Rod Stewart, Kiss e Titãs, Alanis Morrissette
e Mariah Carey, só para citar uns poucos. É claro que algumas
bandas conseguiram façanhas dentro do formato supostamente despojado
proposto. O Nirvana fez a melodia de violões soar mais densa que
urros e microfonia (Cobain expurgando um inferno conjugal insustentável
em "Where Did You Sleep Last Night" é um dos momentos definitivos
da década de 90). O Alice In Chains fez de seu disco acústico
um legado fantasmagórico e de uma carga emocional esmagadora (algo
que escapa por entre frestas enquanto a voz de Layne Staley falseia em
"Frogs"). Só por esses raros momentos, acredito que a barra da MTV
está limpa por uma série de outros deslizes.
Daí para o acústico
da Lauryn Hill é um pulo e tanto. O hip-hop funciona dentro do formato?
O Arrested Developmet (láááá em 93) falhou
em proporcionar uma reposta definitiva (resultado irregular, embora fosse
uma banda de hip-hop essencialmente acústica com intervenções
de scratches).
Já o acústico de Jay-Z
se mostrou eficiente – e memorável – principalmente devido ao instrumental
exuberante do The Roots (a melhor banda de rap da atualidade, e, desculpem,
isso não está aberto a discussões). De qualquer forma,
o assunto escapa pela tangente nesse caso: embora tenha se sagrado A voz
por trás do sucesso dos Fugees, a vocalização de Lauryn
Hill nunca se ateve única e exclusivamente à métrica
hip-hop, nem tampouco dependia de beats e eletronices para provocar emoção.
Sua linda voz é responsável por um indefinível mix
soul-jazzy-reggae-rhytm’n’blues que me vejo obrigado a classificar como
sendo não menos do que afrodisíaco.
Além
disso, não há como negar que Lauryn virou a mesa dos detratores
dos "caça-níqueis acústicos" em grande estilo: SOMENTE
MÚSICAS INÉDITAS. Isso mesmo. Versão acústica
de "Killing Me Softly"? Por favor, volte outro dia – no momento está
em falta. Quatro anos após o multiplatinado "The Miseducation Of
Lauryn Hill", a cantora volta em um disco de produção ultra-crua
que se espraia inteiramente no esquema "voz + violão + nada". E
crueza parece ser justamente o mote: sua voz falha, toca fundo, se contorce,
faz o diabo, sempre inquieta. O risco de uma produção tão
rústica é tremendo, mas Lauryn Hill tira de letra.
Após uma pequena introdução/diálogo,
o disco abre com "Mr. Intentional". Se você não for fisgado
por essa música, esqueça. Ela sintetiza o disco com perfeição.
A letra atira farpas contra o mundo machista ("Não estou disponível",
diz em um trecho da música). Sua voz poderosa flutua sobre uma base
ao violão de poucos acordes, algo que, com um pouco menos de talento
e entrega soaria como uma música de acampamento sofrível.
Dada a força depositada em cada frase, soa quase sublime.
E é isso -- como um amigo meu
costuma dizer, a verdadeira música independe de superproduções.
Contudo existe um problema: as faixas são entremeadas por Lauryn
exorcizando todas suas mazelas em diálogos confessionais e chorosos
com a platéia -- “blablabla Havia me tornado refém de minha
própria imagem blablabla Acredito que aqui, com vocês, posso
ser eu mesma blablabla” – que constituem um ponto supérfluo para
o disco, inflacionando sua duração, e que possivelmente deveria
ser melhor explorado em DVD, como curiosidade para os fãs mais xiitas.
É penoso ter que aguardar vários minutos de choradeira até
uma nova música. Como diria o mestre Wander Wildner, "Las canciones
hablam por si só". E nessa nova fase, canções fortes
parecem ser o ponto forte de Lauryn: "I Find It Hard To Say (Rebel)", "I
Get Out" (que conta com uma curiosa falha de execução), "Just
Like Water", "So Much Things To Say" (bela cover do sogrão Bob Marley),
e, principalmente, "I Gotta Find Peace Of Mind", onde a moça se
entrega por completo, despedaçando-se em lágrimas. Isso não
é hip-hop, é folk, sem qualquer sombra de dúvida.
Dica: programando as faixas que interessam
no player, emerge um dos discos mais descabidamente emocionais do ano.
Diego Fernandes
tem 21 anos e já sonhou em ser um b-boy branquelo. |