A última
lenda viva do rock
por
Alexandre Petillo
"Jerry Lee Lewis foi o cara
mais louco que apareceu na face da Terra".
João Gordo
Poucos na história do Rock
tiveram uma carreira totalmente situada no lado de fora dos interesses
corporativos. Poucos tiveram culhões para fazerem o que quiserem
sem temer as represálias do público, da crítica, das
gravadoras. Poucos conheceram os dois lados da moeda chamada sucesso e
resistiram a tentação de se venderem para sentirem uma vez
mais o gosto da glória. Poucos sobreviveram ao joie de vivre do
rock, regados a doses generosas de drogas e sexo fácil. Mas apenas
um, caminhou por todos esses caminhos e adicionou algumas pitadas de morte,
prisões, seis casamentos, dois bebês afogados, uma noiva-criança
de 13 anos. Seu nome é Jerry Lee Lewis. Mas também atende
pela alcunha de The Killer. O matador, o assassino, Deus e diabo.
Jerry Lee é o legítimo
anti-herói americano. Nasceu em uma cidadezinha pobre nos cafundós
da Lousianna, onde a diversão se dividia entre trabalhar e ouvir
a pregação dos pastores sobre as armadilhas e os descaminhos
daqueles que não seguissem os caminhos do Senhor. Durante a infância
e adolescência, Jerry era muito apegado a um primo, Jimmy Swaggart.
Aos 21 anos , os dois encontravam-se
parados em uma encruzilhada. Deviam escolher pra que lado direcionar o
talento divino que cada um recebera. O bem ou o mal. Primo Jimmy escolheu
deixar propagar o seu lantente poder de persuasão para indicar
aos fiéis o caminho da salvação. Primo Jerry escolheu
ir pra Memphis, Tennessee, oferecer seu piano frenético a uma nova
febre que se alastrava: o Rock’N’Roll, a música do diabo.
Em termos religiosos, Jimmy escolheu
a salvação e Jerry, a danação. O que o destino
lhes reservara, nem mesmo a mente do mais trash dos escritores poderia
criar.
Em pouco tempo Jerry Lee Lewis assinou
um contrato com a gravadora Sun Records, a mesma gravadora de Elvis Presley,
Carl Perkins, Johnny Cash. Bastaram um par de compactos entre 56/57 e tornou-se
um fenômeno, entrando rapidamente nos postos mais altos da parada
de sucessos, aproveitando o vácuo deixado por Elvis, que estava
servindo o exército americano.
Mas
o piano infernal de Jerry Lee era muito mais perigoso e nociso para a sociedade
america do que o rebolado, a voz negra e a rebeldia controlada de
Elvis. Jerry Lee condensou em clássicos como Great Balls of Fire,
e Breathless, por exemplo, a energia negra, o compasso erótico das
joints negras mais o seu canto maldito, mezzo orgásmico, mezzo religioso.
Ao mesclar Deus e o diabo num ritmo alucinante e pornográfico, Jerry
Lee colocou uma chaga bem no meio do coração do moralismo
americano. Era difícil para o conservador way of life americano
digerir o impacto da música demoníaca de Jerry Lee Lewis.
Excelente músico, Jerry foi
um dos primeiros a adotar arranjos pentatônicos ao piano e, sempre,
solava em escalas cromáticas de meio tom, o que causava perplexidade
aos pianistas.
Ele era o espírito mais adolescente
dos roqueiros da época. O ícone perfeito para uma juventude
desacreditada e disposta a viver intensamente sob o constante risco de
uma bomba-atômica explodir sobre suas cabeças a qualquer momento.
O aspecto desamparado e a figura permissiva
de Jerry ajudaram a criar o aspecto de anti-herói perfeito. Incendiar
pianos em pleno palco, ao vivo no horário nobre era moleza. Chegou
a ser preso na casa de Elvis Presley em Memphis, depois de tentar invadi-la,
de madrugada, porque pressentiu que Elvis estava se sentindo sozinho.
Porém, em 1958, num ato que
para ele era totalmente natural, Jerry Lee casou-se com Myra Brown que,
além de prima, tinha treze anos e era a sua terceira mulher.
Era o trunfo crucial para a sociedade
americana detonar Jerry Lee Lewis. Condená-lo às chamas do
inferno. Em questão de meses, caiu no ostracismo, bebendo compulsivamente
e tocando em feiras agro-pecuárias em troca de mixaria. A
partir daí, sua vida e sua carreira foram ditadas pelas imprecações
de quem escolhe o seu próprio caminho. Prisões, arruaças,
porres, doenças, mortes.
Rápido e rasteiro: o
filho nascido de sua união com Myra morreu afogado na piscina de
sua casa; sua duas primeiras mulheres morreram sob circunstâncias
misteriosas – ficando, em tese, praticamente provado que ele matou pelo
menos uma - ; atirou e matou o baixista de sua banda logo após uma
apresentação; tentou uma infrutífera carreira country
nos anos 70 e depois sumiu de vez. Casou-se mais três vezes e foi
dado como condenado depois de uma úlcera perfurada.
Em 1989 voltou a ser sucesso com o
lançamento do filme Great Balls Of Fire/A fera do Rock. Um bom filme
sobre a história de Jerry Lee e do próprio Rock.
Em 1993, o Killer passou pelo Brasil.
Completamente bêbado no Jô Soares Onze e Meia, não
consegui nem dar entrevista, apenas sentou-se no piano e martelou Whole
Lotta Shakin Goin On. Histórico. Tocou no Palace durante meia-hora,
depois – bêbado – encheu-se e foi embora para desespero do elitista
público paulistano.
Primo Jimmy Swaggart também
teve uma emblemática e sinuosa carreira. Tornou-se pregador símbolo
da América e rei dos televangelistas. Alguém aí não
se lembra do figura pregando a palavra todas as manhãs de
Domingo nos anos 80, via TV Bandeirantes?
No
entanto, para manter o estigma da família, primo Jimmy também
caiu em desgraça: tinha como vício pagar prostitutas para
estimular a sua masturbação. No auge do escândalo,
Jerry Lee declarou: "Não sei porque estão fazendo isso com
Jimmy. Se ele pecou, pecou com ele mesmo. Ninguém tem nada com isso.
Um homem tem que se satisfazer, oras!"
Êxtase, erotismo, bebedeiras,
assassinatos, ritmos alucinantes. A vida e a obra de Jerry Lee Lewis não
tem fim. A lenda, o mito, a sua história se confunde com a
própria história do Rock e escancara o coração
negro da América profana. Um homem que é Deus e o diabo.
Bem e mal. Uma vez, perguntado se acreditava em destino, respondeu:
"Eu acredito em Jerry Lee Lewis.
E em Deus Todo Poderoso". |