Ira
x Titãs
sinceridade contra o oportunismo
por
Marcelo Costa 1999
O
momento é oportuno e você sabe, oportunidades não
se perdem. Duas grandes bandas do rock nacional anos 80 lançam
disco novo este mês. Ambos os trabalhos optam por regravações,
ou seja, são discos de covers. Siginificam a mesma coisa?
Não, são amplamente diferentes mas permitem, com
isso, analisar os rumos da música jovem nacional de uns
tempos pra cá e assim imaginar o que vem por ai.
Comecemos
pelo Titãs. Todos sabem que o Titãs sempre
quiz ser representante de uma certa elite cultural. Um outro
(grande Forasta) inteligentemente já havia dito que o
Titãs são uma banda naturalmente "novaiorquina",
em que o que menos interessa é o som e o que vale mesmo
é o discurso. Duvido que esse grande amigo tivesse imaginado
o lodo que cerca a banda em questão hoje em dia. É
o fundo do buraco e cavando ainda mais pra baixo.
Depois
de dois acústicos de excelente produção,
ótimos arranjos e venda exorbitante (o que não
impressiona, já que Roberto Carlos e Julio Iglesias também
primam por estas qualidades), a saída agora é
um disco de covers carinhosamente chamado de As 10 Mais.
Quem
acompanha a odisseia titanica e anda decepcionado com as pérolas
que os caras tem soltado aqui e acolá já sabia
o que esperar: o óbvio do óbvio !!! Os Titãs
são hoje a banda mais vendida e cara de pau do pop (nem
rock são mais) nacional. Também, é o mínimo
que se poderia esperar de uma banda de filhos da elite intelectual
dos anos 70, nada mais. O repertório é o básico
do básico. Pena é a esculhambação.
Pelados em Santos só consegue ser mediocre, Não
homenageia pois é infeliz. Gravar Mutantes e Raul também
não ajudam. A versão do Kid Abelha para Fuga
Número 2 é infinitamente superior a do Titãs
(e infinitamente inferior ao original, diga-se de passagem).
O
Camisa de Vênus já havia feito uma versão
chapante de Aluga-se. Só no território
das versões eles já saem perdendo. E o máximo
da cara de pau é gravar Inocentes. Lembro que li uma
vez, lá pelos idos de 86/87, algo como "os Titãs
estão fazendo em 86 o que os Inocentes fazem desde 82",
ou seja, discos como Cabeça Dinossauro e Jesus
Não Tem Dentes são derivativos ao máximo.
Na época alguém teria que se vender, Inocentes
ou Titãs. Um doce pra quem acertar o vendido. No mais,
o resto do repertório é piada, mas não
para rir.
Já
o Ira!, bem, o Ira! sempre foi a essência do rock nacional.
Sempre defendi que se havia uma banda no Brasil que merecia
o título de "cult band" era o Ira!, por se importarem
com a música, com o público, e continuarem fazendo
os melhores shows desse país, mesmo estando afastados
da mídia. Lembro de um outro cara dizendo (e pedindo
desculpas por usar um termo batido) que o Ira! fazia "rock
honesto". É, mas cá estão eles lançando
disco de covers!
Óbvio?
Não, nem um pouco. Leia a lista de canções
de Isso é Amor e veja quantas podem ser chamadas
de óbvias. Talvez Sentado a Beira do Caminho de
Erasmo. E Lobão e Ritchie? Me diz ai, quem na industria
gosta deles? Quantas músicas deles tocam na rádio
hoje em dia? E se você fosse gravar uma canção
da Legião Urbana você escolheria Teorema?
Óbvios? Nada. Se tem algo que o Ira! nunca quiz ser foi
óbvio.
Tudo
isso sem contar que se nossos amigos (amigos?) lá em
cima saem elogiando todo mundo, nossos ídolos aqui saem
enfiando o pé na porta, reclamando de direitos autorais,
das gravadoras, de pagodes, axés e sertanejos. Atitude
100% rock and roll. Típica de garotos que sairam do gueto
para batalharem seu espaço. O negócio aqui é
sério. Se você quiser rir, ria, mas de felicidade.
Eles são gente como nós.
Com
o novo disco, o máximo que pode acontecer é o
Ira! voltar a grande midia e esfregar atitude na cara de muita
gente. Seria ótimo musicalmente e excelente pra quem
tá surgindo e não tem em quem se espelhar. Eles
merecem todo sucesso do mundo. No mínimo, um público
sincero, shows lotados e felicidade brotando dos olhos. Oportunidades
não se perdem. Aproveite. Se você tiver que comprar
um disco de rock nacional esse ano compre Isso é Amor
do Ira!. Se puder comprar dois, leve Isopor, o novo do
Pato Fu, outra banda que esbanja sinceridade. Se sobrar grana
para um terceiro cd, leve pra casa o novo de Wander Wildner,
outro cara acima de qualquer suspeita. Se ainda sobrar grana,
vá ao cinema ver O Sexto Sentido, compre O
Chão Que Ela Pisa do Salman Rudshie (livro
do ano) ou então vá passar um final de semana
em Parati, São Tomé
das Letras ou em Ubatuba. Faça o que quiser. Só
não jogue dinheiro fora. Só não compre
as dez mais...
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