As raízes de todo o movimento Hip Hop no Brasil 
por André Caramante

Fazendo justiça com as próprias mãos, ou melhor, com o próprio teclado, este colunista novato (mais maloqueiro do que colunista, a bem da verdade), que escreve sobre hip hop nas páginas desta Rock Press, resolveu dedicar esse espaço para a dupla Thaíde & DJ Hum, que, ao lado de “Sir” Nelson Triunfo, são os caras responsáveis pelo início do movimento de rua no Brasil. 

Esses manos veteranos, na primeira metade da década de 80, começaram a freqüentar a estação São Bento do metrô paulista. Lá, muitas vezes fugindo das porradas dos seguranças que não admitiam as “convenções da periferia”, eles lideraram os primeiros encontros dos B.Boys (dançarinos de break) com grafiteiros, DJ´s e MC´s que se tem notícias. 

Passados mais de 15 anos, o rimador Thaíde, seu parceiro inseparável DJ Hum, e o dançarino Nelson Triunfo não desistiram da batalha e continuam dando exemplos para quem tem poucas alternativas. 

Com sua cabeleira black power, Nelsão mantém uma par de oficinas culturais pelas quebradas de São Paulo, onde doutrina os mais jovens para a real razão do hip hop existir. Força sempre para ele que, sem apoio nenhum, continua lutando pela galera que está atolada até o pescoço de coisas ruins. 

No mesmo barco, vem Thaíde e DJ Hum. Com o recente lançamento do CD “Assim caminha a humanidade”, os parceiros voltam a cantar todas as injustiças vividas pela maioria de nós, que sobrevive com o mínimo, sem serem agressivos. 

Autores do inesquecível rap “Corpo fechado” (“me atire uma pedra que eu te atiro uma granada”, lembram?), os pais do rap nacional nunca encontraram na grande mídia o espaço merecido, muito menos o valor que lhes é devido, mas, indo a um show deles, você perceberá o quanto a rapaziada do hip hop os admira e respeita. Vida longa para Thaíde e DJ Hum. 

O CD do Racionais MC´s e os boys 
Discípulos confessos do mestre Thaíde, Mano Brown, Edy Rock, Ice Blue e KL Jay devem lançar em 2001 o quinto álbum do grupo. Ao mesmo tempo em que isso deixa um montão de gente feliz (estou ansioso porque, na condição de maloqueiro, cresci escutando Mano Brown cantando “não confio na polícia, raça do caralho), fico preocupado com um fenômeno que deverá acontecer assim que as pancadas dos manos da “Vila Fundão” chegarem às lojas: milhares e milhares de playboys vão comprar o disco, colocar o som nas suas carangas equipadas e sair por aí dizendo que fazem parte do hip hop. 
Sei que isso é inevitável, porém cabe aos manos que sempre viveram a mesma “vida loka” (com k mesmo) declamada pelos Racionais ficarem espertos com os efeitos desse fenômeno. Sei que estou sendo radical, mas existe um muro invisível que nos separa desses caras na hora de repartir a parte boa do que o mundo tem para oferecer. Sendo assim, por que esses putos consumistas querem se aproveitar daquilo que o nosso gueto tem produzido de melhor? 
Aí Brown, tenho certeza que continuará cuspindo verdades na cara desses playboys e que, por mais grana que eles tenham, nunca vão conseguir comprar aquilo que você tem de sobra: respeito e vontade de lutar pelos que vivem do mesmo lado pobre da muralha social. 

Paz aos manos que vivem do lado injustiçado da muralha invisível e que não vão ter ninguém cantando isso no  Rock in Rio. 
André Caramante é maloqueiro, com orgulho.