Walking With Thee – Clinic (Slag)
por Leandro Miguel de Souza
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Taí uma banda bacana. E geralmente bandas bacanas lançam discos bacanas. 

Os ingleses do Clinic, depois da elogiada estréia "Internal Wrangler", apostaram em cores mais sombrias para o novo disco. O quarteto de máscaras cirúrgicas estruturou suas canções em bases simples, abrindo espaço para os teclados e envolvendo as canções em véus hipnóticos e fantasmagóricos.

Essa atmosfera climática domina o disco. Embora seja possível fazer associações ao Radiohead fase atual, o Clinic se distingue pelo fantástico uso de seus teclados e pela sujeira da produção. Se "Kid A" fosse gravado numa garagem, com instrumentos convencionais, soaria como "Walking With Thee". Simples assim. A banda ainda tem a manha de permear suas canções com um estranho toque pop. Faixas como "Welcome" (com corinho no melhor estilo "ooooohuuu") e a ótima "The Equalizer" (onde uma base eletrônica estilo gótico, uma linha de baixo poderosa e teclados emulando um sax se fundem sob uma produção lo-fi) comprovam o fato.

Mas quando manda qualquer senso pop às favas, O Clinic se sai muito melhor. "Harmony" e "For The Wars", respectivamente, as faixas de abertura e encerramento do disco, são amostras que o quarteto tem muito combustível para queimar. "Harmony" traz uma base simples de baixo e bateria dividindo espaço com teclados etéreos, os versos sussurrados de Ade Blackburn ("Eu acredito em harmonia. Eu acredito em véspera de Natal") e uma escaleta arrepiante. Já a última faixa do disco é melhor ainda, com um preguiçoso arranjo jazzy contribuindo para o clima de despedida e entregando o ouvinte de vez à terra dos sonhos.

A fórmula é empregada eficientemente em outras faixas como "Come Into Our Room" e "Mr. Moonlight", no entanto sem o brilhantismo das canções citadas anteriormente.

O Clinic não esqueceu de exercitar sua veia rocker, que havia ditado o ritmo do disco de estréia. A pegajosa faixa-título e "Pet Eunuch" são deliciosas descargas elétricas, com os teclados dando aquele tempero esperto de churrasco às músicas.

A sedutora "The Vulture", mais as pulsantes "The Bridge" e "Sunlight Bathes Our Home" completam um disco que, se não sensacional, possui pelo menos o mérito de não ter nenhuma faixa fraca. Agora é esperar pra ver se esses doutores conseguem potencializar os lampejos de criatividade presentes nesse disco em suas próximas canções e, aí sim, fazerem um disco do C@*#$#&!

11 faixas depois. Passados 38:41 minutos, é hora de se perguntar: Um dos melhores discos do ano? Não mesmo. Mas é uma bem-vinda surpresa, um disco que prova a consolidação de uma banda talentosa, que trilha um caminho próprio e, graças a isso, proporciona uma refrescante brisa na cena rock da terra da rainha. "Walking With Thee" é digno da alcunha dada à banda. Um disco... er...   ...bacana. E quer saber o melhor? Acaba sair no Brasil pelo selo paulistano Slag Records, o que torna o prazer pela música mais... ãhn... barato. E, convenhamos, em tempos de crise isso é muito importante. 

Leandro Miguel de Souza, 18 anos, estudante de jornalismo, gostaria de dizer que nunca quebrou um osso e que a única vez que foi hospitalizado foi quando teve convulsões ao ouvir Katinguelê numa festa de aniversário.