Blue
Afternoon
por
Carmela Toninelo

Umas das coisas verdadeiramente básicas
sobre a vida, Lobão já disse - ela é doce.
Mas pensando um pouco mais, foi ele mesmo quem acertou em cheio ao afirmar
que não podia-se ser normal e estar vivo ao mesmo tempo.
E é mais ou menos nessa linha
que poderíamos encaixar Blue Afternoon com a estupenda voz
de Guilherme Barrela. Chega a ser um pensamento surreal, mas difícil
é acreditar que se pode fazer um trabalho como esse e estar vivo
ou ser normal ao mesmo tempo.
A musicalidade do trabalho remete
a um movimento de liberação total, não apenas a uma
linha poética. Via de reconquista da linguagem inocente e renovação
do pacto primordial da humanidade, a poesia está nas letras de fundação
do homem, dos sentimentos do homem, do que o homem vive. E este homem é
Guilherme Barrella que escreve e compõe as músicas de uma
banda que conta ainda com Eduardo Ramos (Headache) e Pedro Palhares (Charllote´s
Suit).
A história de Blue Afternoon
é simples, e como diria Guilherme, complicada ao mesmo tempo. É
um som que ele gosta de ouvir, que combina com sua voz e com as canções
que escreve. Mas como qualquer artista, o produto que gera para a sociedade,
é resultado da soma de todas as referências musicais que já
teve na vida. Vinte e quatro anos e Tom Waits, Leonard Cohen, Tindersticks,
Lambchop. A maioridade e 1, 2, 3 indiezinhos records (www.indiezinhos.cjb.net),
4 hearts in a can (www.4hearts.cjb.net).
Spain, Smog, Low, e The Bad Seeds. Bizarre Music e Next ++ (www.bizarremusic.com.br),
Slag Records (www.slagrecords.com)
e Som Livre (www.somlivre.com.br).
Arab Strap, American Music Club, Mike Johnson e Red House Painters.
Guilherme não sabe tocar piano
nem violão, baixo ou bateria. Canta as melodias e demorou uns três
ou quatro anos até encontrar Eduardo e Pedro que souberam transcrever
as composições do homem em notas e acordes. Compilou umas
músicas que tinha, gravou mais duas, pediu um remix para o Belleatec
e no início do mês de maio deste ano lançou um CD promocional
de Blue Afternoon pela Slag Records com o próprio companheiro de
banda, Eduardo Ramos, na produção. A idéia era levar
o CD na bagagem para distribuir na Bélgica, onde na época
acontecia os shows de comemoração de dez anos de Tindersticks.
Guilherme voltou e alguns disquinhos
vieram junto. Disponíveis para compra na página da Slag Records
e alguns sorteados pela Bizarre Music, o CD conta com seis faixas:
I can´t Cry
Christmas time in the Mountains
Ready for the Worse
The Day I Tried To
I Want you
Ready for the Worse (remix)

São composições
místicas e sem arranjos necessários para satisfazer quem
apreciaria o som como aprecia Nick Cave ou um Lou Reed das antigas. O acústico
prova a capacidade de um músico em expor o crú de uma banda
que consegue atingir o ponto fraco dos seres humanos sem muitas regalias
- a dor sobressalente e a amargura de quem vive sobre a luz do dia ou a
escuridão da noite.
Blue Afternoon não foi
inspirada num disco de Tim Buckley, num quadro de Lourenco Didier ou num
livro de William Boyd. Lembra um trecho de letra de Mazzy Star, mas o sentido
era buscar na cor azul o duplo sentido de tristeza juntamente com o período
da tarde. Guilherme se inspira na dor, usa a música para aliviar
a dor e para entender o que o coração diz. Loucura? Nunca
se sabe, Lobão mesmo já disse, ela é um conhecimento
sem começo e sem fim.
Carmela
Toninelo é editora da revista Viés - www.vies.unisinos.br |