A morte
do rock' n' roll
por
Alexandre Petillo
A festa do rock,
regada à drogas, sexo fácil, guitarras pesadas e nenhuma
culpa está chegando ao fim. E a culpa é dos malditos corações
partidos
Seria muito legal se o rock fosse
de verdade. Quando eu era criança, rock era coisa de bandido. Roqueiro
tinha cara de bandido. Eram sujeitos perigosos, drogados, e, às
vezes, tinham até pacto com o diabo. Até Arnaldo Antunes
e sua dança pseudo-esquizofrênica suscitava comentários
sobre sua aliança com o demo. Era engraçado, éramos
crianças e ingênuos. E para nós, rock era sinônimo
de transgressão. Ouvir rock em casa, no quarto, no último
volume, de alguma forma, trazia um sentimento de desordem e desobediência.
Contra quem ou o quê, não importava.
Bem, hoje, uma criança, fã
de rock vai dar de cara com quem? Coldplay, Belle & Sebastian, Travis?
Droga. Os nerds dos anos 80 compraram guitarras e resolveram chorar as
vezes que foram chutados pelas gostosas do ginásio. Why does
it always rain on me? Porque você é um idiota, compra
um guarda-chuva, se protege. Pô, Fran Heally, não te escolhia
para jogar no time da escola porque tu era um grosso, agora tenho que agüentar
você choramingar?
Na minha infância, rock era
assustador. Não assustador no sentido Alice Cooper ou Marilyn Manson
da palavra. Mas assustador no sentido Ramones e Motörhead. Era aquela
coisa: fujam da escola, tomem drogas, cacem as mulheres, roubem no jogo,
batam punheta e leiam quadrinhos. Era uma época em que até
o Barão Vermelho foi preso com drogas.
Agora, uma legião de bandas-nada
tomam conta do cenário. E a culpa é da internet. Os nerds,
os intelectuais e toda uma gama de pessoas reprimidas que se escondiam
nas festas estão dominando o mundo. Ocupam altos cargos nas empresas
de tecnologia, ganham rios de dinheiro e começam relacionamentos
através de chats. Resolveram colocar para fora toda as frustrações
de uma vida. Bons moços, espertos, aproveitaram um período
de baixa do rock para invadir o pedaço com suas músicas inofensivas.
Travis e Colplay, os líderes do rock flácido, conquistaram
o mundo com discos impossíveis de se ouvir mais de uma vez.
Melodias frágeis, vocais doces,
letras tristes, tédio. Para tornar o seu material um pouco mais
atraente, acabam cometendo covers inusitadas, tornando essa prática,
cada vez mais nefasta para a música mundial. Travis tocando Be
My Baby e Britney Spears estragando Satisfaction são
farinhas do mesmo saco.
Mas fazer músicas doces
e letras tristes não tem nada de errado. Desde que você tenha
passado por alguma experiência verdadeira que justifique isso. Ninguém
pode cantar o blues com 20 anos. É preciso toda uma vida de penitência
e privação. É preciso perder, perder de novo, cair,
levantar e cair mais alguns anos. É preciso desejar uma coisa com
toda a intensidade do seu ser e não conseguir. Por isso vemos beleza
autêntica em Alex Chilton, Van Morrison, Ian Curtis, Bob Dylan e
Bruce Springsteen (poucas coisas são tão tristes no rock
quanto Nebraska).
Por isso fico com os pés atrás
quando bem-nascidos vêm cantar suas agruras. São pessoas que
ouviram Smiths quando deviam ouvir Kiss. E hoje se acham sensíveis.
Mas é preciso sofrer de verdade para poder amar, não apenas
desilusõezinhas amorosas. Essas pessoas vão acabar com o
rock, porque elas não acreditam no rock. Porque elas não
ouviram o rock. Só querem ser amadas, da maneira que for. A prova
disso, são as pessoas que endeusam o Coldplay e sua famigerada Yellow.
Românticos. É a geração que escreve nos grandes
jornais dizendo que Dylan era apenas um cara prático ganhando
dinheiro.
Enquanto isso, eu, o roqueiro sem
coração, ainda tenho uma última esperança.
Porque ainda existem dois homens que ainda seguem os dogmas do velho rock.
Que agitam as coisa quando estão por perto: Liam e Noel Gallagher.
Daqui há 10 anos, Travis e Coldplay estarão jogando buraco
em suas confortáveis casas, enquanto Liam e Noel vão estar
enchendo a cara e arrumando confusão em algum bar de Manchester.
Por quê? Simplesmente porque, as mentes de Liam e Noel, são
lugares onde o rock existe de verdade.

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