509-E
O rap produzido
na cadeia
por
André Caramante
O
rap produzido pela dupla Dexter e Afro-X é daquele
tipo que afeta o sistema nervoso de quem se dispõe, mesmo que seja
uma única vez, a escutar as letras para lá de nervosas criadas
dentro do xadrez 509-E (E de externo, pois a janela da cela dos
dois é virada para o lado de fora do pavilhão 7), na Casa
de Detenção de São Paulo, o maior presídio
da América Latina.
Dexter e Afro-X, dois jovens negros,
pobres, nascidos na Vila Calux, periferia violenta de São Bernardo
do Campo, no ABC paulista, onde o cheiro de maconha, as carreiras de cocaína,
as pipadas no cachimbo de crack e a falta de condições mínimas
de sobrevivência provocam mortes banais (quase sempre à bala
e contra jovens com menos de 25 anos de vida), num passado não tão
distante assim, tentaram conquistar à força uma fatia do
bolo confeitado pela nossa sociedade consumista e acabaram chegando no
fundo do poço.
Presos e condenados a mais de 10 anos
de cana por terem cometido o crime previsto no artigo 157 (assalto à
mão armada) do Código Penal, os “parceiros” perceberam que
somente o estilo musical que eles já haviam conhecido desse lado
das muralhas, Dexter como integrante do Tribunal Popular e Afro-X
como vocal do Suburbanos, seria capaz de resgatá-los e devolver-lhes
a dignidade, ao mesmo tempo em que conquistavam o respeito dos outros 7.500
detentos que vivem amontoados nos pavilhões da Detenção.
Eles se tornaram os porta-vozes de todos aqueles que sofrem encarcerados
no Brasil.
Justamente por fazer parte do mesmo
cotidiano violento cantado nas letras do 509-E, primeiro como mais um sobrevivente
da periferia de São Paulo e depois como repórter da editoria
de geral de um grande jornal dirigido às classes C, D e E, e por
ter conhecido os dois rappers antes do sucesso dos últimos meses,
é que eu, na condição de colunista estreante na Rock
Press, decidi começar neste espaço reservado ao movimento
Hip Hop (a cultura de rua formada por três elementos: o grafite,
o break e o rap) falando do trampo de Dexter e Afro-X.
Foi através do selo Só
Rap, da gravadora Atração, que o CD de estréia
do 509-E, batizado de Provérbios 13, chegou às lojas
com 12 faixas, no segundo trimestre de 2000.
Antes disso, eles gravaram a faixa
“Barril de Pólvora”, no disco Brasil 1 – Fazendo Justiça
com as próprias mãos, lançado pelo também ex-bandido
carioca e também detento José Carlos dos Reis Encina, mais
conhecido na crônica policial brasileira como “Escadinha”. Naquela
época, dezembro de 1999, a dupla de rappers era chamada pelo nome
de “Linha de Frente”.
Além do talento dos manos nos
vocais raivosos, o time de produtores do Provérbios 13, formado
por Mano Brown e Edy Rock (ambos do Racionais MC´s), DJ Hum (parceiro
do mestre pioneiro do rap nacional Thaíde) e por MV Bill, serviu
para colocar o som em qual uma dessas listas de melhor isso ou aquilo que
a gente costuma fazer. Os manos também contaram com o apoio da “Madrinha
dos Presos”, a atriz Sofia Bisilliat, idealizadora do projeto “Talentos
Aprisionados”, uma das iniciativas mais louváveis quando o assunto
é o sistema prisional do Estado de São Pau.
Em
agosto, o 509-E foi apresentado ao Brasil inteiro, quando disputou com
o clipe de “Só os fortes” duas categorias (de melhor vídeo
de rap e escolha da audiência) no Vídeo Music Brasil, da MTV.
A vitória não veio, mas o espaço dado aos porta-vozes
dos bandidos da Detenção, abriu várias portas para
Dexter e Afro-X.
De lá para cá, não
é raro procurar os manos na cadeia e descobrir que eles estão
participando de palestras em universidades, centros culturais, debates
com doutores e até lançamentos de livros.
A consagração aconteceu
no dia 14 de novembro, quando o 509-E levou (com muita justiça)
o prêmio Hutus de grupo revelação do ano. A ida dos
rappers paulistas até um teatro no Rio de Janeiro para receber a
premiação, com direito a ponte área e tudo, fez até
com que a mais alienadora das televisões brasileiras (aquela do
plim-plim, tá ligado?) produzisse duas matérias em que falava
do trabalho musical de Dexter e Afro-X.
Não deu para ignorar e o rap,
através dos manos da Detenção, deu mais uma prova
de que é a trilha sonora daqueles que vivem no gueto e que são
maioria. A grande mídia não pode mais ignorar o “muro de
Berlin” que existe entre o mundo real das periferias e o “faz de conta”
de todos os dias na novela das oito. O rap é som que veio para derrubar
mais essa muralha, constantemente encoberta com uma grossa camada de hipocrisia.
Exemplos a serem seguidos de como fazer isso não faltam, basta nós
não dobrarmos nossos joelhos para quem insiste em menosprezar o
tudo o que é feito no gueto.
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