A farsa
do Radiohead
Perdido no
labirinto da música pop, a banda de Thom Yorke passou de genial
para idiota em apenas dois discos
por
Alexandre Petillo

Eu fico me perguntando se vocês
trouxeram esse disco apenas para darmos boas risadas juntos ou se vocês
realmente possuem essa droga, disse Ian McCulloch, líder do
Echo & The Bunnymen, ao ouvir os primeiros acordes de Idioteque,
uma das faixas de Kid A, último disco do Radiohead. E o primeiro
passo rumo a um labirinto sem saída pelo qual Thom Yorke confinou
a sua banda.
O novo disco Amnesiac,
que chegou às lojas de todo o mundo no início de junho, atesta
o que todos os amantes da cultura pop desconfiavam: o Radiohead perdeu
a mão e ficou muito, muito, muito chato.
Graças ao Napster, as faixas
de Amnesiac já estão
sendo ouvidas e discutidas há meses. E, acreditem, não existe
uma música audível. Basicamente, é jazz da pior qualidade
aliado a pitadas de rock progressivo. Terrivelmente chato. Não traz
o emocional de uma boa “joint” jazzeira, se a intenção fosse
ser jazz, e não traz nada de bom do rock progressivo, porque, afinal,
o rock progressivo não tem nada de bom.
As melodias se tornaram um embaraço
para mim. Em várias ocasiões eu peguei a minha guitarra,
olhei e coloquei ela de volta. Ela não significa mais nada para
mim. Eu toco muito mais piano e teclados do que qualquer outra coisa no
momento, disse Thom Yorke à revista inglesa Select.
Ok. Como ele mesmo já cantou,
anyone can play guitar, mas nem todos podem tocar piano com
paixão. E sentimento é o elemento que mais faz falta nessa
fase do Radiohead. É difícil acreditar que trata-se da mesma
banda que compôs The Bends, um excelente tributo à
melancolia e ao lado negro da alma. Mas compor boas rock songs não
era suficiente para Yorke. Então, Ok Computer. Uma viagem
à tecnologia do novo século se fez necessária, para
explicitar toda a dor e angústia que assombrava o coração
dos homens. O resultado foi um bom disco. A mídia, em busca desesperada
por heróis, exageradamente os elevou a condição de
gênios e colocou o disco entre os melhores de todos os tempos. Entre
os 100, talvez. Em centésimo.
As loucuras do mundo pop tornaram-se
extremamente sufocante para o pobre Yorke. Viagens, fãs alucinados,
entrevistas, shows, era exposição demais para um sujeito
que não tinha vergonha de berrar i’m creep. O mundo inteiro
esperava atentamente pelo próximo passo do novo salvador do rock.
Mas faltou culhão, talento e inteligência para Yorke atravessar
o século no topo do mundo. Ele abandonou a melodia de vez e entregou-se
a esquisitice de seu mundo recheado de teclados mal-tocados e letras de
uma linha. O mundo se dividiu.
Tive um bloqueio criativo depois
de ‘Ok Computer’. Não consegui fazer nada e vários fantasmas
começaram a me assombrar. Desde então, toda vez que eu penso
em um novo disco esse fantasmas voltam. Já os tranquei no armário,
mas não tenho como fugir, lamenta Yorke.
Amnesiac
é a prova cabal de que Yorke não sabe mais o que fazer dentro
de um estúdio. Tudo o que se ouve são fragmentos de canções,
propositadamente sem alma e destino. Pyramid Song,
por exemplo, é apenas um piano minimalista, sombriamente meditativo,
que se apoia apenas em três acordes, enquanto o vocalista exaustivamente
repete apenas uma única frase: There was nothing to doubt and
nothing to fear. A música é considerada por toda a banda
como a melhor canção já feita pelo Radiohead em toda
a sua existência.
Em entrevista à revista Mojo,
de junho, Yorke define Amnesiac como a sensação
de estar dentro de uma floresta, no meio de um incêndio.
Não ouço mais rock.
Nunca mais quero estar em uma banda de rock, sentencia o líder
do Radiohead. Então, por que não acaba com a banda. Se o
Radiohead tivesse pendurado a chuteira depois de Ok Computer, fatalmente
estaria no panteão das bandas cool da história do rock. No
entanto virou piada. Prato cheio para roqueiros como Ian McCulloch e Noel
Gallagher. Cada década tem o Kurt Cobain que merece.
Matéria
publicada originalmente no Musiczine.
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