Asian
Dub Foundation (Interview)
(Gentilmente
cedido pelo site London Burning)
Por
Luciano Viana
S&Y -
Muitas bandas foram chamadas de políticas, basicamente bandas punk,
tentavam comunicar uma mensagem para audiências que já eram
"convertidas", sem expor suas diretrizes para outros. O ADF, contudo, parece
cobre um espectro mais amplo de fãs, platéias que em outras
situações não conheceriam sua mensagem. Isso é
intencional?
Asian Dub Foundation - Nossa
intenção é sempre expor o que está acontecendo
em nossas cabeças tanto musicalmente quanto liricamente. O que acontece
é que não estamos mais no estúdio - há muito
mais pessoas ouvindo. Temos literalmente uma plataforma que usamos para
nos expressar. Algumas pessoas sentirão afinidade com o que estamos
dizendo e outras não. Sempre foi importante pra nós tocar
para todos, caso contrário não haveria esperança na
mudança, no fato das pessoas poderem mudar de atitude ou serem expostas
a diferentes pontos de vista. Mas, enquanto não estamos "pregando
aos convertidos", ainda é bom que as pessoas ouçam uma banda
que ecoe o que elas sentem e que seus espíritos sejam elevados desta
forma - nós sabemos como é, ainda somos fãs de música.
O sentimento de solidariedade num show realmente pode ajuda as pessoas
em suas próprias batalhas.
S&Y -
Vocês dizem frases como "as pessoas dizem que tudo já foi
feito na música... não foi". O que vocês querem dizer
com isso ou que mutações genéticas da música
o ADF vê no futuro?
ADF - Queremos dizer que há
combinações inéditas de sons, pessoas e instrumentos
que ainda não foram experimentados. Não estamos advogando
a fusão de estilos apenas pela fusão, mas queremos encorajar
as pessoas à experimentar, por exemplo, com instrumentos acústicos,
elétricos e eletrônicos e não "censurar" a si mesmo:
"Não devemos fazer isso porque ninguém nunca fez". Até
o ano que vem iremos desenvolver nosso sistema sonoro de novo, especialmente
experimentando com nossas ragas e tablas eletrônicas distorcidas
e acrescidas de sons ácidos, ruído, percussão, orquestra
etc., e mais coisas faladas, talvez de fitas editadas. Algumas faixas no
novo disco estão apontando nesta direção.
S&Y -
Vocês já fizeram tudo que queriam fazer ou há mais?
ADF - Conseguimos muito do
que queríamos. Falamos sobre nossa experiência por sermos
asiáticos, ajudamos a mudar a atitude para com os asiáticos,
etc. Queremos desenvolver um projeto educacional. Agora estamos querendo
mais fazer e consolidar vínculos com outras resistências e
organizações - criando ou sendo parte de uma rede consciente
de informação e ativistas. Musicalmente há mais, como
eu disse antes, além de colaborações com diferentes
artistas e revelar novos nomes.
S&Y -
Que conselho vocês dariam para quem está começando?
ADF - Sugerimos se preocupar
em fazer música acima de tudo. Você tem que certificar que
as pessoas irão ouvir o que está fazendo. Encontre pessoas
que tenham a mesma mentalidade para trabalhar. Seja paciente consigo mesmo,
pratique o máximo que puder, tanto individualmente quanto coletivamente.
Toque o quanto puder, mesmo que na casa de conhecidos (fizemos muitas apresentações
nas casas dos outros). Pegue toda oportunidade de tocar ao vivo porque
é assim que a música irá desenvolver e você
notará o retorno do público. Grave e documente seu trabalho
o máximo que puder para monitorar seu desenvolvimento. O ADF está
só mostrando que PODE ser feito e O QUE pode ser feito, somos apenas
uma amostra, um exemplo.
S&Y -
Que tipo de mato vocês fumam pra fazer o som que fazem?
ADF - O fumo que fumamos não
é diferente do de ninguém. Nosso "influxo herbático",
contudo, diminui bastante do que costumava ser e como resultado disse,
estamos mais aptos e podemos fazer shows mais energéticos. Dr. Das
não fuma nada - é por isso que ele poga tanto, apesar de
ter sentido que está ficando velho pra isso.
S&Y -
O que vocês acham das limitações que a sociedade tradicional
hindu impõe para com a sua juventude? Coisas como casamentos arranjados,
sexismo, tensão entre diferentes religiões?
ADF - Algumas das coisas que
você chama de "limitações" são resultados de
comunidades terem sido dispostas e arrumadas num novo país e estão
tentando segurar-se à cultura de sua "pátria-mãe".
Os jovens são quem mais sofrem essas "limitações"
porque eles são a próxima geração e, por definição,
são uma continuação daquela cultura. Casamentos arranjados
e atitudes em relação a eles, variam de acordo com a religião,
a casta, a classe, o país, a geografia etc., ou simplesmente de
acordo com as pessoas. É uma área muito grande de discussão.
Não somos nem contra nem a favor. Deve-se também fazer uma
distinção entre casamentos arranjados e forçados.
Sexismo é um termo tão amplo quanto racismo e reúne
abuso físico e verbal, negação de oportunidades, estereótipos
etc. Não é apenas o domínio da "sociedade hindu" e
deveria ser desafiado em todos os lugares de todas as formas. Dentro de
comunidades asiáticas como em qualquer outro lugar, as mulheres
são forçadas a mudar, seja esforços individuais ou
trabalhando coletivamente em organizações como a Southall
Black Sisters aqui em Londres. Homofobia é tão abominável
quanto. Neste assunto, recentemente nos tornamos patronos do projeto Naz,
uma organização promovendo discussões em torno do
vírus HIV, Aids e sexualidade gay em comunidades asiáticas.
"Tensões entre diferentes religiões" têm sido importado
da Índia e passado para nossa geração. Por que deveremos
continuar estas rixas de outra época e lugar? Um novo país
deveria ser uma oportunidade para um começo saudável. Preconceitos
religiosos e de outra natureza dentro de nossa comunidade fazem chacota
nas resistências anti-racistas que estamos envolvidos.
S&Y -
Como estão desenvolvendo sua música? Estão tentando
novas possibilidades?
ADF - Novamente, acho que já
respondemos essa. Haverão mais instrumentais e trilhas sonoras desenvolvidos
por nós, mas entre os colaboradores que queremos trabalhar juntos
estão pessoas com coisas fortes a dizer. Com nossos instrumentais,
continuaremos a convergir o máximo de raiva ou alegria ou qualquer
outra emoção como em qualquer coisa que já fizemos.
S&Y -
O que vocês querem fazer com os workshops que vocês atuam junto
à juventude asiática?
ADF - Num sentido prático,
estamos dando a estes jovens acesso à tecnologia da música
e treinando-os sobre isto, algo que em outra situação eles
não poderiam ter contato. Tentamos fazê-los auto-suficientes
em termos de idéias criativas e soluções práticas
de problemas com o equipamento. Estamos os encorajando a falar sobre suas
experiências através de suas letras e a tocar música
ao vivo.
S&Y -
Como funciona a composição das letras? Apenas um compõe
tudo ou vocês discutem entre si?
ADF - Todos entram com comentários
nas letras, geralmente escrevendo num papel numa sala depois de discutir
um tema. Há casos de um ou outro trazer coisas que eles escreveram
e todos ajudam a rearranjar e a acrescentar algo. Existe a discordância,
mas é assim que idéias progridem. A música também
é composta coletivamente.
S&Y -
O que deve acontecer pra vocês perceberem que o grupo mudou algo?
ADF - Só o retorno que
temos via internet, através de comentários boca a boca e
de artigos, sentimos que já "mudamos algo". Esta é uma frase
daquelas como "mudar o mundo" que reduz as mudanças reais que acontecem
nas vidas das pessoas e como elas são afetadas por isso. Claro que
seria ótimo se pudéssemos tirar alguém da cadeia num
estalo ou desafiar governos, mas isso não é verdadeiro. Mas
você pode lutar contra isso. As verdadeiras mudanças são
aquelas pelas quais lutam diariamente as pessoas de verdade e organizações
rurais; é lenta, gradual e sem glamour. |