Abril Pró Rock 10 anos - Recife
Cobertura Especial
por Tathianna Nunes e Viviane Menezes
Fotos de Abelardo Mendes Jr
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PRIMEIRA NOITE

A sexta-feira (19/04) foi o dia dedicado aos apreciadores do pop e do punk rock. A noite começou com um grupo de garotos mal entrados na adolescência, Os Psicopatas. Os meninos com suas pegadas firmes e uma incrível presença de palco fizeram um show competente. As quatro mil pessoas que já ocupavam o Pavilhão do Centro de Convenções, pareciam não acreditar no que viam. Uns ficavam constrangidos por ver garotos tocando tão bem para um público essencialmente adulto, incluindo os seus pais que babavam nos bastidores, e outros curtiam como se fosse uma banda profissional que debutava em um grande festival. Não deu outra. Teve pedidos de bis. E foi atendido, os meninos tocaram a música "Ela é Mala", a mesma que abriu o show, mostrando, literalmente, que tamanho não é documento, e de participação especial passaram a um dos destaques da noite.

Depois vieram os Subversivos, banda punk socialista que prega a igualdade entre os povos. Eles não ligaram em participar de um festival patrocinado pela multinacional Kaiser e pelo Governo do Estado de Pernambuco, e fizeram um show extremamente visceral. Com discursos politizados e músicas que tratam de Lenin, de soviets, a banda falou de tudo e de todos, do governo de FHC, do PFL e das grandes revoluções de Cuba. O vocalista Camilo parecia mais político que cantor, cuspiu e rasgou uma bandeira do Partido da Frente Liberal, o  PFL. Com certeza um dos pontos altos do show. O público gostou, levantou o punho esquerdo e cantou junto com os Subversivos o hino comunista, a internacional. Os punks saíram do festival como uma das promessas musicais do Recife, mesmo que os discursos tenham sido maiores que as músicas apresentadas.

Após os punks, subiu ao palco os ingleses do The Mission apresentando o mais novo álbum, "Aura", lançado em 2001. A banda da década de 80, formada pelos ex-integrantes da Sisters of Mercy, Wayne Hussey e Craig Adams, fez um show fraco. Quem esperava ver ao vivo um pouco do gótico dos anos 80, acabou se decepcionando. As músicas pareciam mais cópias do U2, e o vocalista, Wayne Hussey, era o próprio Bono. Foram poucos os que se empolgaram com a performance da banda. Nem os grandes sucessos como "Severina" e "Butterfly on a wheel" agitaram o público que preferiu ficar nos bares tomando umas e outras, passeando pela feirinha comprando cds de bandas independentes, camisetas, livros e o que mais você pudesse imaginar.
 

Saem os ingleses do The Mission, é hora da banda indie de Brasília, Prot(o). A apresentação foi prejudicada pelo som do palco 2, local das atrações menos "famosas". Mesmo assim, o som pesado com um gostinho de pop empolgou o público que curtiu o punk rock fazendo rodinhas e pulando muito. O vocalista Carlos Pinduca, ex-Maskavo Roots, estava nervoso, mas soube dar conta do recado, e com o tempo, ficava mais íntimo da platéia. O repertório foi centrado em músicas do CD demo da banda, vendido nas barraquinhas do festival por um preço bem convidativo de 7 reais, abrindo espaço para uma cover do The Who, "The Kids Are Allright", momento revival do dia. A Prot(o) pretende entrar em estúdio para gravar seu primeiro disco ainda este ano.

A Rodox, banda do ex-vocalista do Raimundos, Rodolfo, era uma das atrações mais aguardadas da noite. O então regenerado Rodolfo entrou misturando o hip hop com hardcore, trazendo um "porradão" atrás do outro, algo que é bem a cara da banda. A apresentação do Rodox foi, sem dúvida, um dos momentos mais agitados do primeiro dia do APR. A classe auto denominada metaleira pulou o tempo todo. Se entenderam ou não a mensagem que Rodolfo tentou passar, é outra história. Parece que quem saiu perdendo com o racha do grupo não foi o vocalista. 

Chega a hora Glam Rock do festival. Com influências de bandas como Velvet Underground, David Bowie e New York Dolls, os Textículos de Mary fazem um punk misturado com música brega. A banda pernambucana dominou a cena, e mostrou que não são apenas atores performáticos, e sim, bons músicos. Suas letras escrachadas e muito explícitas tratam de temas polêmicos com irreverência. Liderados por Chupeta, os Textículos de Mary tocaram seus grandes sucessos, como "Todinha Sua (She-ra)", "Charlie Bownson's Song", "Jenifer", e outras. Essas músicas podem ser conferidas no primeiro álbum desses escrachados pernambucanos, o "Cheque Girls", que acaba de ser lançado pelo selo independente Deckdisck.

O som inconfundível do Pato Fu encerrou o primeiro dia do APR. Os mineiros fizeram um show coerente. Misturaram músicas do último trabalho, "Ruído Rosa", com outras dos discos anteriores. Os hits "Sobre O Tempo", "Made In Japan", "Eu", "Canção Pra Você Viver Mais", e o clássico dos Mutantes, "Ando Meio Desligado", levantaram o público cansado, que há cinco horas enfrentavam o calor e o desconforto do pavilhão. Os efeitos sonoros e visuais foram um capítulo à parte. Dividiam a atenção com o carisma e o bom humor dos mineiros. O Pato Fu, que completa 10 anos assim como o festival, é aquela banda curinga que consegue salvar qualquer evento.