Uma
passada em São Tomé das Letras
por
Carlos Eduardo Fernandes
Olá galera leitora do S&Y.
Vocês ainda se lembram de mim? Carlos “Dadá” Fernandes, o
homem do corpo fechado. Pois é... andei meio sumido do zine, mas
estou de volta.
Algumas coisas andaram acontecendo
nos últimos tempos. Entre elas o fato de eu ter ficado “preso” em
Sampa devido ao trampo. Com isso deixei de fazer minha manjada visita a
São Tomé das Letras. E por falar nisso, nem o Marcelo, nem
o Petillo deram também a tradicional passada na cidade das pedras.
Daí a saudade bateu na solidão dos meus dias (o lôco),
comecei a me lembrar dos nossos porres de vinho Marcon, da paz, da natureza,
do rock’n’roll e das pessoas que não ficam buzinando a todo momento
por nada como aqui em Sampa.
Enfim... a saudade bateu, a distância
de lá agora é maior, em todos os sentidos, por isso resolvi
rever uma matéria que eu havia escrito na época em que eu
editava o site Antenet, lá em Taubaté.
Espero que vocês curtam o texto
e São Tomé.
São Tomé das Letras:
misticismo e natureza na cidade das pedras

Escrever ou falar de São Tomé
das Letras/MG é como beber um copo d’água no momento de sede
extrema. Visitar São Tomé das Letras é como andar
nas nuvens, é poder recarregar as baterias para encarar o mundo
lá fora. Sim, mundo lá fora. Pois São Tomé
é uma cidade única, longe de tudo que encaramos para sobreviver
nos dias de hoje.
A pequena e acolhedora cidade mineira
sempre foi o habitat dos alternativos. Daquela tribo desligada dos valores
materiais que cultua a paz e o amor, sempre com um violão na roda,
um incenso queimando e aquele tradicional amor pela natureza. Hoje, muitos
turistas visitam o município, mas quem conhece São Tomé
sabe que esses turistas não são aqueles comuns que encontramos
no litoral ou em qualquer outra cidade brasileira. Apesar das coisas terem
mudadas um pouco com relação aos anos 80 e 90.
Para quem não conhece ou gostaria
muito de passar uns dias por lá vamos começar a localizá-la
e a descrevê-la: a cidade se encontra na serra que leva o mesmo nome,
encravada no alto de uma montanha, a 1300 m, entre as cidades de Baependi
e Três Corações. De Baependi a São Tomé
são 43 km de estrada de chão, em que o visual da serra, as
cachoeiras e a paz do local valem muito a pena, ao invés de encarar
a estrada de Três Corações, que se encontra já
asfaltada. A distância é praticamente a mesma. Se o asfalto
ofusca a natureza e diminui a aventura, a visão de quem opta por
esta estrada é agraciada com a montanha branca, onde funcionam as
pedreiras que retiram rochas de quartzito ou itacolomi, a famosa pedra
São Tomé das piscinas.
Arquitetura a base de quartzito

É um susto para quem chega
pela primeira vez em São Tomé. Ao mesmo tempo é um
encanto poder ver construções de quebrar a cabeça
de qualquer arquiteto. No decorrer dos 368 km quadrados do município
podemos nos deslumbrar com construções erguidas apenas com
pedras, apoiadas uma a uma. Segundo informações, essas edificações
foram realizadas há mais de 200 anos. São casas, algumas
transformadas em restaurantes ou lojas e uma igreja, a Igreja de Pedras,
construída no século XVIII pelos escravos. A Igreja de Pedras
é um dos mais belos cartões postais da cidade.
Além das edificações
encontramos, ainda, ruas de pedras. Asfalto ou até mesmo o velho
paralelepípedo nunca foram usados por lá. São apenas
enormes pedras por toda a cidade.
A Igreja Matriz também
é uma bela construção. Não é de pedra,
é verdade, mas tem seu charme, principalmente na decoração
interior típicas das igrejas mineiras.
Onde ficar e como encontrar

Chegando a São Tomé,
os turistas encontram garotos e garotas oferecendo casas para alugar. São
casas simples como tudo na cidade. E o preço é acessível.
Mas se você quer algo mais sofisticado
o máximo que encontrará é uma pensão. Nada
de frescuras. É por isso que o povo que visita a cidade é
considerado da paz. O importante para todos é a aventura. O abrigo
mais utilizado é a barraca. Existem alguns campings bem localizados.
Um deles é no início da cidade, ao lado do estádio
municipal. Fica a frente de uma pedreira. Além dos campings já
existentes, a galera procura também locais alternativos para armar
a barraca, como os picos próximos a cachoeiras. Encontrar pessoas
dormindo na rua é comum. Mais comum ainda é dormir no caminho
que nos leva à Pirâmide e ao Cruzeiro, picos que veremos mais
adiante.
Por que das Letras?

É uma pergunta comum a todos
que visitam o local. Assim como a lenda e o misticismo fazem parte da cultura
local, a própria origem de São Tomé das Letras é
uma lenda. Segundo tal, no século XVIII, um escravo fugitivo de
nome João Antão refugiou-se em uma gruta para não
ser encontrado pelo seu senhor. Esse escravo recebera em uma determinada
ocasião uma visita de um velho vestido de branco, e foi para esse
velho que ele pedira sua carta de aforria. Aforriado, o escravo voltara
à fazenda da qual havia fugido para levar a carta ao seu senhor.
O senhor, então, resolveu ir procurar o velho na gruta . Chegando
lá encontrou apenas uma imagem de São Tomé. A imagem
foi levada para sua fazenda. Mas ela, por milagre, aparecera novamente
na gruta. Na entrada dessa gruta haviam pequenas pinturas ou inscrições
rupestres semelhantes a letras descoberta em 1782. Foi daí que surgiu
o nome de São Tomé das Letras.
O senhor, depois do acontecido,
resolveu erguer uma capela em respeito a tal milagre, em 1785. Essa capela
se tornou uma igreja, a Igreja Matriz citada anteriormente. A pequena gruta
ao seu lado é mais uma das atrações turísticas
da cidade. Detalhe: a Gruta de São Tomé fica no centro do
município. No topo da mesma pode-se avistar a Igreja Matriz em sua
totalidade e mais alguns picos.
Trilhas, grutas e cachoeiras

Aventura é a palavra de ordem
nas manhãs e tardes de São Tomé. Pela estrada que
liga São Tomé a Três Corações podemos,
4 km a frente, avistar o Vale da Borboletas. Uma pequena caminhada por
entre as borboletas azuis chegaremos até a cachoeira. São
duas pequenas quedas d’água que formam uma piscina natural entre
as inúmeras árvores.
Para os aventureiros sedentos
de emoções mais fortes, o caminho mais utilizado é
o que liga São Tomé a Sobradinho. São 15 km de chão.
Antes de chegarmos a Sobradinho passamos pela Cachoeira da Lua. Seguindo
até o destino final chegaremos na famosa Gruta de Sobradinho. Trata-se
de uma gruta de formação arenítica, em que encontramos
pequenos lagos em seu interior. É recomendável que os aventureiros
calcem tênis e disponham de uma lanterna, pois a formação
irregular do local e, obviamente, a escuridão total, podem esconder
alguns perigos ao longo de seus 100 m. Na saída da gruta encontramos
uma bela piscina natural.
Duas outras grutas são bem
visitadas em São Tomé das Letras.
A Gruta da Bruxa é uma delas.
É necessário uma longa caminhada de 40 minutos em um terreno
irregular e, às vezes, íngreme, passando por sobre uma tábua
e equilibrando-se, já que baixo passa um rio que corta o caminho.
A gruta é recomendada a aventureiros não normais. E magros,
diga-se de passagem. Esses tem de caminhar lateralmente em certos pontos.
Encontramos, também, uma cratera no local, onde atravessamos sobre
uma tábua. Ao final da primeira parte da visita encontra-se uma
longa corda. Para os outros aventureiros, a segunda parte. A volta é
difícil também. Para sair temos de nos agachar e rastejar
pelo espaço mínimo existente. O ar é coisa rara lá
dentro. Um detalhe importante é que a gruta solta uma espécie
de areia de suas paredes, pois o contato com elas é constante. Além
da sujeira causada, rola o perigo de doenças. Basta lavar as mãos
e não levá-las a boca e aos olhos. A caminhada de volta pode
ser feita por uma trilha, que tem como companhia um belo rio.
A outra gruta é a do Carimbado.
Reza a lenda que ninguém conseguiu chegar ao seu fim e, se isso
ocorresse, chegaria na cidade de Machu Picchu, no Peru. Para desbravar
as grutas de São Tomé é recomendável a companhia
de um guia. Existem garotos nos locais se oferecendo para tal.
A cachoeira Véu da Noiva é
uma beleza rara, situada na estrada que ruma à Baependi. Uma enorme
queda d’água para o mergulho dos corajosos e uma piscina natural
para relaxar são os atrativos do local.
Além das cachoeiras
encontramos a Corredeira das Ninfas e Shangrillá. A Corredeira das
Ninfas é mágica. Quando não estamos na época
das chuvas podemos encontrar a corredeira dividida em duas partes: a primeira
possui uma água límpida e amarelada que acaba do nada para
dar lugar a segunda parte, de quartzitos. Já Shangrillá vemos
uma corredeira de água entre rochas, como se fosse um tobogã
natural.
São inúmeras cachoeiras
e grutas encontradas em todo o território de São Tomé
das Letras. Podemos citar ainda as cachoeiras do Cantagalo, do Flávio,
Paraíso e Eubiose, com uma longa trilha. A Gruta do Índio
também nos faz caminhar por uma longa trilha íngreme.
Ainda não acabou. Muito perto
da cidade e escondida fica uma piscina natural cercada pela montanha branca.
A impressão que dá é de que estamos em um deserto
de pedras e nele existe um oásis.
Estrelas, pôr-do-sol, nascer-do-sol
e a lua:
da Pirâmide ou do Cruzeiro
o espetáculo é garantido
A tarde vem caindo em São Tomé
e o sol vai dando espaço a lua e as estrelas. O espetáculo
pode ser avistado do alto da Pirâmide, do Cruzeiro ou da Pedra da
Bruxa.
Mas antes de subirmos aos picos da
noitada temos de nos concentrar. A concentrar acontece nos bares da ruela
central da cidade. As bebidas tradicionais são o bom e velho vinho
Marcon e a pinga com mel. Ao som de Raul Seixas, Zé Ramalho, rock’n’roll
e blues, a noite começa a esquentar no Espaço II, bar que
fica ao pé do morro que nos leva ao Cruzeiro.
Àqueles já cansados
de comer miojo, uma parada recomendada é na pizzaria ao lado da
Igreja Matriz. Pizza na pedra para matar a larica e dar um gás especial
para a noite.
Agora sim... já devidamente
calibrado vamos aos picos. A Pirâmide é uma construção
cuja lenda classifica como um suposto ponto de observação
de discos voadores. Na verdade, a Pirâmide é um ponto de encontro
da galera. O teto tem o formato de pirâmide e nele podemos sentar,
beber e tocar violão para esquentar a noite fria que costumamos
encontrar por lá. O vento é tenebroso, pois estamos no topo
da montanha. Podemos até pegar as estrelas com as mãos. Mais
adiante e num ponto estratégico está o Cruzeiro, local mais
alto de São Tomé com 1444 m de altitude. Tanto da Pirâmide
quanto do Cruzeiro o visual é fascinante. São 360º de
serra, além da pequena cidade lá em baixo. Quando rola uma
geada, ao amanhecer, percebe-se a névoa branca cobrindo toda cidade
e toda a serra.
O pôr-do-sol pode ser visto
também de cima da Pedra da Bruxa. Uma pedra muito alta e grande,
escondido ao lado do Cruzeiro. E quem perdê-lo tem como obrigação
assistir ao nascer-do-sol. Devidamente agasalhado e enrolado em um cobertor.
O visual é fascinante, digno dos aplausos tradicionais dos eternos
turistas locais.
O frio ao qual me refiro é
encontrado em boa parte do ano. No verão a temperatura deve ser
agradável.
Dizem que, por conta das lendas,
São Tomé das Letras é ver para crer. Eu digo mais.
Todos que levam esse ditado a sério não agüenta a espera
para rever e para viver, mesmo que em apenas alguns dias, uma realidade
distante do nosso mundo, a paz e o amor.
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Carlos
“Dadá” Fernandes, 23, trocou a publicidade pelo jornalismo e agora
fica choromingando por ter que trabalhar aos finais de semana e ficar longe
do rock bar Mutley, em Taubaté. E sempre que fica em Sampa não
tem festa da London Burning e nem show do Blemish.
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