Paixões, Ficção e Contratempos 
por Diogo Farias
diogobox@yahoo.com.br 
 
 

As paixões avassaladoras são quase sempre imaturas e chegam como os ventos que anunciam as grandes tempestades torrenciais, ou seja, sem bater à porta, empurrando tudo e a todos, ruidosas e devastadoras. 

É fácil compreender: algumas pessoas se encontram, se conhecem, trocam olhares e "zás" - num piscar de olhos - trocam beijos, abraços, afagos. Estamos falando de paixão, compulsividade hormonal bilateral. Sendo assim é natural que não haja tempo para descobrir alguns detalhes importantes como gostos pessoais, nem para definir o gênio e a melhor maneira de se adequar a ele, toda essa "balela burocrática do mundo adulto". 

Outras pessoas se conhecem, conversam, trocam telefones, saem juntas, conversam novamente, mas nem com reza braba se acertam. Nos basta lembrar da água e do óleo que podem ficar juntos, mas não se misturam. 

De nada adianta gostarem do mesmo disco do Bob Dylan, do mesmo chá de camomila, preferirem Linus a Charlie Brown, adorarem dançar, terem acne, signos compatíveis, vinte e poucos, pais separados, anseios e sonhos semelhantes, ilusões e depressões subseqüentes. 

Veríssimos e Saramagos na estante, cãezinhos no quintal, aversão a cigarro, chocolatria, usarem "FPS" só acima de 30, trabalharem no mesmo local, adorarem sorrir se há toda uma conspiração astral que os mantém afastados.Pode até parecer mais simples que unir duas pecinhas de lego, mas a verdade é que nesses casos a complexidade vai além da imaginação e do poder de discernimento vulgar. É pior que Física Quântica e mais caótico que a própria Teoria do Caos. Está além das três dimensões e do tempo, muito além do tempo... 

Há todo um descompasso temporal, e quando as lacunas de um  podem ser preenchidas nunca coincidem com as do outro. Então pensemos em duas engrenagens, para que atuem perfeitamente em harmonia, devem estar sempre sincronizadas. 
Essas situações têm pilha para durar muito tempo, talvez eternamente, e a única maneira de contorna-las é criando outro descompasso capaz de unir ambas as partes. Para isso, se tornam necessários coragem e fôlego para lutar contra esse pseudoplatonismo. 

Todavia, enquanto não ocorre o pontapé inicial, o novelo de desejos aumenta cada vez mais de tamanho e os sentimentos se acumulam descaradamente, loucos para o debute. 

Ficar no balcão e se embriagar até a última gota é iminente, mas a glicose se fará necessária e você poderá optar por recebe-la sobre uma maca, direto na veia, ou sob uma tórrida chuva, envolvida por doces beijos. 
Evocando Blaise Pascal: 

"O coração tem razões que a razão desconhece". 

Diogo Farias, 23, fotógrafo e quase engenheiro, ainda não sincronizou seus sentimentos, mas acredita no "Day After". 

Ps. Esse texto foi publicado em parceria com o jornal independente ALTERNATIVE VOICES. Faz parte da edição número 8 e pode ser pedido pelos emails:

diogobox@yahoo.com.br e hc_grivera@bol.com.br