O provão,
a viagem de Maklésia e o filho do senador
por
Vladimir Cunha
vlad@disinfo.net

Hoje tem provão. Acordo ao
meio-dia e entro na internet para saber onde vou fazer o teste. Sabe-se
lá porque, o correio não entregou o meu cartão de
identificação. O jeito é ir ao site do MEC e descobrir
se estou inscrito mesmo ou se a dona Antônia, secretária do
curso de jornalismo da UFPA, se esqueceu de mim.
Duas coincidências: o lugar
onde vai rolar a prova fica próximo ao jornal do qual eu me demiti
há um ano e meio e se chama Escola Estadual de Ensino Básico
Senador Jarbas Passarinho. É engraçado ver o cara que cortou
as verbas do MEC na década de 60, que colaborou para instaurar o
autoritarismo nas universidades brasileiras e que participou da criação
do AI-5 (inclusive, declarando que era preciso "mandar às favas
a democracia") dando o seu nome ao local escolhido para
abrigar uma coisa que, supostamente,
vai servir para melhorar a educação em nosso país.
Na minha cabeça, existe uma
matemática bastante peculiar que me faz crer que nunca vou me atrasar
em meus compromissos. É por isso que saio de casa às
12:45, 15 minutos antes da hora marcada para começar o provão.
Mais uma vez, a minha percepção de tempo falha. Depois de
pegar chuva no trajeto entre a parada de ônibus e a Escola Jarbas
Passarinho, chego cinco minutos antes dos portões serem fechados.
Logo na entrada, sou recebido por uma senhora com cara de professora primária.
Ela pergunta meu nome, o meu curso e me indica o local onde vou fazer a
prova: sala 18, bloco 1, térreo.
Como em qualquer escola pública
do país, a tal sala 18 é feia, suja e mal iluminada. A pintura
das paredes está descascando e o teto apresenta um princípio
de infiltração. Ao lado da lousa, um mapa mundi chama a minha
atenção:
nele, a Tchecoslováquia ainda
não foi dividida, existem duas Alemanhas e a União Soviética
continua lá, intacta, se espalhando da Europa até os confins
da Ásia. Perto de mim, um quadro de avisos com os nomes dos alunos
da turma da manhã: Maklésia, William, Hérica, Jéssica,
Charles...Nomes de Primeiro Mundo em um colégio de Terceiro. Será
que eles sabem que a União Soviética não existe mais?
Às 13:05 em ponto começa
a prova. "Beleza", penso, "vou assinar meu nome e cair fora". Que nada,
o fiscal do MEC me informa que, por lei, sou obrigado a esperar 90 minutos
até poder ir embora. Olho as questões, tiro um cochilo, acordo
e fico lendo uma redação da Maklésia que está
pregada na parede. Maklésia nunca havia saído daqui de Belém
e escreve empolgada sobre uma viagem que fez a Firmino da Rocha, interior
do Maranhão. O ponto alto, relata ela, foi quando andou na garupa
da moto de seu tio e sentiu frio enquanto viajava de noite pelas estradas
do Pará. Não sei quanto custa o provão ao MEC, mas
acredito que esse dinheiro poderia ser melhor empregado em benfeitorias
nas escolas públicas, como comprar um mapa mundi atual para a sala
18, por exemplo. Ou então, para pagar uma viagem decente para a
pobre da Maklésia. Nem que fosse para mandá-la ao Beto Carrero
World.
Resolvo ir ao banheiro. No caminho
entre a sala 18 e o mictório percebo que estou sendo seguido por
um cara fortão de cabelo raspado e camiseta cavada. Entro para mijar
e ele fica na porta, observando. Opa, peraí! Que papo é esse?
Um cara fortão atrás de mim no banheiro? E ainda por cima
com uma camisetinha colada?! Que merda. Não sei porque, mas logo
me vem a cabeça o Maluf e aquela história do "estupra mas
não mata". Mas aí saco que o cara está só me
vigiando.
Me sinto como um daqueles presidiários
perigosíssimos, que só andam com escolta policial e não
podem nem urinar em paz. Já meio indignado, resolvo puxar conversa.
O cara é gente boa e me diz que está lá por ordens
da direção, "prá
ninguém colá". No final,
enquanto me acompanha até a sala, ainda encontra tempo para protestar
contra o governo FHC. "Esse pessoal não dá dinheiro
prá educação e depois quer ficar cobrando. Vocês
é que estão certos em não fazer essa prova", diz ele.
Curioso, um vigia de escola pública com mais consciência social
do que o governo que a mantém.
14:35, hora de ir para casa. O fiscal
do MEC não deixa.
"Como não? São duas
e trinta e cinco, já se passaram os 90 minutos..."
"Sabe o que é? É que
a gente aqui está trabalhando pelo horário de Brasília.
Láainda são 14:30, espera mais cinco minutos, aí tu
pode ir"
"Porra, o nosso estado não
tem mais autonomia nem no horário. Será que Brasília
tem que mandar até nisso??", protesta uma menina do meu lado lembrando
que o governador Almir Gabriel foi forçado por Fernando Henrique
a adotar o
racionamento no Pará, um estado
que produz mais energia do que precisa mesmo com cinco hidrelétricas
funcionando abaixo de sua capacidade máxima.
Mais cinco minutos na sala 18 e adeus
provão. Na saída da escola encontro o Max, o folclórico
presidente do nosso centro acadêmico, e mais três meninas.
Jogamos conversa fora e começamos a rir de umas garotas que estavam
empenhadíssimas em fazer a prova. O boato é que o MEC vai
distribuir bolsas de mestrado e pós-graduação para
os alunos que tirarem as melhores notas.
De repente, passa por nós ninguém
menos que Helder Barbalho, filho do nosso excelentíssimo presidente
do Senado.
"Ei!", grita Max, "é o Helder,
filho do Jáder"
"Cadê?", pergunto.
"Ali!", diz ele.
Não dá tempo de ver
direito. Helder sai correndo da Escola Jarbas Passarinho e se joga dentro
de um carro azul escuro com película nos vidros e motorista particular.
O cara arranca com o veículo e leva o filho do senador para longe
das salas feias, dos mapas ultrapassados, dos tetos infiltrados e dos meninos
pobres que têm nome de gringo mas não conhecem sequer os estados
vizinhos ao seu.
Passada a euforia de ter visto uma
"celebridade", fiquei imaginando o que teria feito Helder Barbalho abandonar
o provão após os 90 minutos regulamentares. Só consegui
pensar em três possibilidades:
a) O senador deu uma educação
primorosa ao rapaz e ele é um verdadeiro gênio da raça,
capaz de responder uma prova trabalhosa em tempo recorde.
b) Ele é um idiota completo
e não sabe nada, por isso largou a prova em branco e foi pra casa
dormir.
c) Ele tem consciência de que
o provão é mais um instrumento do governo neoliberal de FHC
para forçar uma onda de privatizações nas universidades
públicas, daí ter boicotado o teste.
Sinceramente, não consigo escolher
entre nenhuma dessas alternativas. Mas se alguém aqui tiver algum
parente influente no MEC que possa quebrar um galho para mim, eu agradeço.
É que estou doido para saber que nota o rapaz tirou no teste. |