Descoberta nova doença na cultura pop: o sedentarismo mental crônico
por Eduardo Fernandes
eduf@uol.com.br

[01/07/2001] Não é de hoje que a chamada cultura pop e, particularmente, o rock vem sofrendo de sedentarismo mental crônico (SMC). E que diabos é isso? Basicamente, é uma tendência à glorificação da burrice, da preguiça mental, da simplicidade por desleixo (e não por opção ou desejo de criticar algo).

Essa doença foi estimulada por setores da crítica cultural nos anos 1990, com o argumento de que o rock, a literatura e o cinema estavam ficando muito "cabeças", elitistas, chatos. Era preciso recuperar o lado "divertido" da cultura pop.

Há dois pressupostos aqui:

1. A única diversão possível está nas coisas que são facilmente assimiláveis, que atingem direta e rapidamente nossos sentidos, produzindo "satisfação" imediata. Sem necessidade de reflexão, disciplina, ou esforço mental.

2. Só é bom o que é popular, o que pode ser entendido por muitas pessoas.

Os defensores desses argumentos não se deram conta de que, se estivessem certos, o próprio rock não teria se popularizado. Em seus primórdios, o estilo causou surpresa, estranhamento. Era coisa de guetos. Mas, com o tempo, acostumamos nossa sensibilidade ao ritmo. O que era ruído e desprazer, tornou-se diversão.

As elites, vanguardas e os guetos são circunstanciais. O marginal de hoje pode ser o popular de amanhã. E vice versa. Trata-se mais de uma questão mercadológica do que ideológica. Às vezes, o mercado consegue assimilar coisas altamente elitistas.

Glorificando a passividade

Desde o século 19, valores como disciplina, auto-superação e audácia foram perdendo importância. A não ser quando o assunto é trabalho. Para conseguir sucesso profissional, você deve ser ativo. Mas, em sua vida pessoal, quando estiver à paisana, é bom que seja preguiçoso, que só receba satisfação, passivamente.

Isto é: me divirto se estiver passando algo interessante na televisão, se o cd for bom, se o livro for estimulante etc. Assim, deixamos de ser parte ativa no processo de "se divertir". É o que, Kurt Cobain percebia e ironicamente perguntava no refrão de Smells Like Teen Spirity: "E quem vai nos divertir?"

A mesma lógica é repetida nos nossos relacionamentos amorosos. Seremos felizes se encontrarmos a tal pessoa ideal. Se o destino, a sorte (ou qualquer outra coisa externa a nós mesmos) tiverem piedade, encontraremos alguém que "nos faça" felizes.

A vida como eterna reprise

Com esse tipo de raquitismo, tudo parece tedioso. Pois o excesso de informação e a variedade, não estimulam por si só. Pelo contrário: dão um sentimento de que já vimos tudo, de que só há repetição, chatice.

E pior: restringem nossas possibilidades de diversão, pois tudo o que exigir um mínimo de esforço e de concentração será repudiado como cansativo, instransponível, chato. Porém, quase tudo no ser humano funciona com a lógica dos exercícios físicos: quanto menos você faz, menos consegue fazer, menos tem vontade de fazer e menos prazer retira deles.

O prazer e a dor estão ligados. O esforço mental e/ou físico, depois de algum tempo, são das maiores fontes de prazer conhecidas. Isso porque lidam com nosso sentimento de potência (eu posso fazer isso, superei um limite), criam e renovam objetivos. Nos envolvem ativamente no nosso próprio processo de "nos divertirmos". Ou seja: eu me divirto, não espero que os outros me satisfaçam.

 O tédio é uma ilusão
Por isso, hoje percebemos que o rock e muitos outros setores da cultura pop (salvo as exceções) demonstram tédio, bom mocismo, auto-referência, autofagia. Isso é uma ilusão causada pelo SMC.

Porque a própria cultura da "facilidade" é que cria e rotula coisas consideradas como "difíceis", nos impedindo de extrair prazer delas. Geralmente, basta examina-las com mais calma para perceber que não são tão difíceis assim. Eram idealizações dos defensores da "facilidade".

Enfim, é próprio da mediocridade idealizar a elite. E vice-versa. O sociólogo francês Pierre Bourdieu dizia que "não devemos ter uma visão populista do povo e nem elitista da elite".

Isso também vale quando o assunto é diversão. Porque ainda é preciso provar que ela está radicalmente dissociada da crítica, da reflexão, da atividade, do esforço, da concentração. Diversão é como sexo: cansa, suja, sua. Mas quem é que prefere uma relação morna?

Está na hora de sermos politicamente e culturalmente eretos.

Eduardo Fernandes
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