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"Lembranças
e Mitos?
por
Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br
Quando eu tinha 16 anos, conheci uma
garota numa dessas danceterias aí. Era uma festa das mais sem graças,
mas dançamos com entusiasmo aqueles passinhos famigeradamente coreografados
que normalmente acompanham as músicas "anos 50" dos bailes, trocamos
alguns olhares e palavras e o resto você pode adivinhar, até
que o pai dela chegasse e literalmente a arrancasse dos meus braços
e me mandasse para fora. Não, você não leu errado.
Em plenos anos 90, um pai adentrou um mero embalinho noturno para impedir
a filha adolescente de trocar inocentes (pelo menos, até aquele
momento) beijinhos com um pirralho supostamente mal-intencionado.
Não é minha intenção
escrever sobre conservadorismo ou seu avesso, longe disso. O fato é
que, apesar da proibição do "sogrão", procurei a moça
em sua escola e ainda estive com ela algumas vezes até minha prepotência
de então estragar tudo. Por fim, ela cristalizou-se em minha mente
como uma das mais agradáveis lembranças da minha adolescência
(a mais agradável, pensando melhor). A garota continha todos os
adjetivos que são, foram e serão considerados bregas porém
indispensáveis: inocente sem ser ingênua, meiga sem ser melosa,
fogosa sem ser vulgar. Pelo menos foi assim que seu mito eternizou-se em
minha memória, e é sobre isso que pretendo escrever.
Todos nós temos uma certa quantia
de mitos pessoais. Eles estão em todas as esferas da nossa vida:
familiar, afetiva, profissional, religiosa, escolar, etc. Ou é o
"super-pai", todo infalível e poderoso; ou a namorada(o) "perfeita(o)"
que não foi, mas era para ter sido; ou o único emprego que
realmente nos proporcionará satisfação profissional;
entre outros. Todos permanecem dentro de nós, sejam como benesses
inatingíveis ou paraísos insubstituíveis. E nós
os alimentamos por longos anos, não raro pela vida toda.
Contudo, grande parte desses mitos
foram criados por nós mesmos para encobrir alguma percepção
falha ou inaptidão de nossa parte. Como aquele relacionamento em
que depositamos toda nossa confiança, que acabou sendo de alguma
forma traída, e mesmo assim acabamos culpando a nós mesmos
por ele não ter ido para a frente. Ou como o ente querido que falece
e passa a ser, em anos vindouros, o melhor exemplo de pessoa que já
caminhou por esse plano de existência, mártir de uma realidade
pessoal, independente das pequenas (ou grandes) impertinências que
lhe eram peculiares. Para não encarar nossas falhas, nossas tristezas,
nossas saudades ou simplesmente nossa burrice, canonizamos personagens
e lugares passados e enaltecemos futuros de concretização
pouco provável. Assim nossa felicidade fica condicionada a uma metafísica
do sofrimento, que nos impede de chegar ao objetivo cobiçado e conduz
nossa existência a uma vã busca por algo que sabemos que não
alcançaremos.
Todavia, a vida real existe, mesmo
quando não queremos percebê-la. Passado algum tempo do evento
descrito no começo deste texto, tive todas as chances de encontrar
novamente a garota que me fez gastar horas mirando o teto no escuro do
meu quarto, a personagem dos meus contos mais belos e puros. Nunca o fiz.
Quando me perguntavam porquê, dizia que não queria estragar
aquela lembrança que congelei em um recôndito especial de
meu ser.
Pois hoje, passados quase sete anos,
tive todos os meios de encontrá-la novamente. Um amigo começou
a me falar de uma garota que ele conhecera profissionalmente, de nome muito
peculiar - o mesmo da minha... musa. Dada a singularidade do nome, é
difícil crer que houvesse outra pessoa homônima a ela, ainda
mais se levar em conta que outros dados sobre ela coincidiam. Porém...
Porém a descrição
que esse amigo me deu falava de uma vítima da moda, tatuada e cheia
de piercings, com aquele visual de roupas rasgadas e sujas (porém
compradas em boutiques badaladas e careiras), trejeitos vulgares, vocabulário
limitado a meia dúzia de palavrões e conversa de bicho-grilo
de "Estrela-Guia" (aquela asquerosa noveleta da Globo). Não correspondendo
em nada àquela musa meiga e infante que povoava meus delírios
igualmente infantis.
O fato é que ela certamente
cresceu, e, convenhamos, seis anos e pouco são mais que suficientes
para provocar mudanças em uma pessoa - principalmente em uma adolescente.
Ainda não amealhei coragem (e provavelmente não o farei)
para conferir se é ela mesma quem ele descreveu. Possivelmente é.
O que não me ajudaria em nada. Seria uma frustração
definitiva e desnecessária.
Os mitos, em sua maioria, são
exatamente isso: mitos - fábulas, lendas, hipérboles, mistificações,
exageros, arroubos de ingenuidade. Mas também são a ponte
para muitas coisas palpáveis e benéficas, como a perseverança
para realizações pessoais e a preservação de
alguns bons sentimentos, ainda que datados. Ou a crença de que felicidade
a dois é possível, só porque duas semanas da adolescência
foram inesquecíveis.
Assim se formam e se propagam os mitos,
sem maiores neuroses. Afinal, um pouco de nostalgia e ingenuidade não
fazem mal a ninguém. Contanto que se saiba que se tratam de mitos.
Leonardo
Vinhas tem 22 anos e se emociona ao ouvir "I Know It's Over", dos Smiths,
desde que a escutou pela primeira vez, aos 9 anos de idade. |