Kiling The Arab
por Boris Arenas
 borisarenas@hotmail.com
 
Evoquem, meus caros companheiros, uma imagem tocante: crianças e/ou adultos (pois lá eles são parecidos) debruçados na areia tórrida da África lutando sofregamente, com a pouca energia que lhes resta, por alguns parcos grãos de arroz; levando-os contaminados pela terra à boca num ato de desespero. Tamanha é a fome que mal distinguem comida de solo. Folgo em crer que, assim como eu, todos vocês se compadecem com tal injustiça e sentem pruridos no juízo que lhe impelem a querer contribuir de alguma forma para retificar essa medonha afronta à bondade. 

Imagino ainda que não seria pedir demais se eu lhes convidasse a mentalizar uma outra situação, à qual me referirei posteriormente por "segundo caso", em contrapartida à cena já descrita anteriormente (o "primeiro caso", portanto): um singelo panda agoniza, aparentemente há poucos espasmos do sopro derradeiro. Todavia, o animal miserável reluta em partir, incitado por um coro de indivíduos alucinados proporcionando apoio moral: "Vamos lá, não desista! Nós amamos você, mesmo roto e agonizante!". Hão de convir que o mais pertinente e delicado aqui seria poupar o pobre panda com um tiro certeiro no meio de sua testa, se ele tiver mesmo um meio de testa, como nós. Afinal, qual alma sensível/racional permitiria o prolongamento dos suplícios dele tendo a oportunidade de saná-los? Absurdo. Absurdo! 

Visto que partilhamos a mesma opinião quanto isso, expressarei com mais clareza o meu ponto: toda multidão de jovens desiludidos e frustrados que empunham guitarras num gesto de caridosa masturbação pode ser enquadrada com perfeição no "primeiro caso" exposto lá em cima. Qual a fonte de nutrição desta? Roquenrou, roque, pop, ou qualquer um desses epítetos carinhosos. Tentam extrair deste um pouco de sustança a todo custo (e em vão). E como vocês já devem ter presumido, o "segundo caso" remete-nos ao estado atual do moribundo Rock. A conclusão é simples: matem-no. Façam-lhe esse favor. Compreendo o quão difícil é conceber-se sem ele, por isso registro neste humilde quinhão de bits o paliativo para os desolados (nos quais me incluo): vivamos - como a velha Remedios - num casebre decrépito, escuro e poeirento, sozinhos com o mofo, alimentando-nos de nossas memórias. Segundo o filósofo, um dia é suficiente para um homem preencher toda uma eternidade ruminando os matizes de cada imagem ou som que tenha vivenciado no tal. Não vejo motivos para reclamar, pois. Sacrifiquemo-lo (o doente terminal), voltemo-nos e contemplemos o imenso, sortido e rico patrimônio musical que herdamos. Voltar, porquanto, é mais sábio que prosseguir. Oh, pensamento traiçoeiro e desalentador, este. Valerei-me de um bom copo d'água para amenizar meu desassossego. 

Feito isso, continuemos. Pois bem, como dizia, me dói o coração ver um ente amado nesse estado infeliz e repulsivo, com uma horda de desalmados insistindo para que ele estenda seu sofrimento até quando puder. Aterrador. Talvez mais execrável ainda seja a expressão sequiosa desses indivíduos que fazem de tudo para mantê-lo consciente. Ora, não o fazem por má índole, e sim por ingenuidade. Suas cabecinhas sedentas de ideais deturpam sua visão e eles acabam por cometer essa atrocidade para com o pobre ornitorrinco. Digo, panda. Oh, eis um ato falho que me veio à tona em boa hora. 

Não é o ornitorrinco um ser escatológico? Não é um ser que a natureza, um demiurgo, ou um grupo clandestino de geneticistas forjou a partir de segmentos de outros animais? Afigura-se, aos meus olhos, como um ponto extremo, o liame entre o sublime e o escatológico. Uma estancada em tempo do criador, dado que, ao que tudo indica, este parece ter sofrido um bloqueio criativo e, num esforço desmedido, associou aleatoriamente tomos de animais distintos para urdir o insólito ornitorrinco. Não existem outros bichos tão esdrúxulos, o que é bastante significativo. Sinal de que o criador percebeu que não é esse o rumo correto. Digo, unir pé desse, bico daquele, rabo de um outro. Não tardaria a flagrar-se criando um monstrinho com um pêlo, um testículo, um cotovelo de cada espécie. E é precisamente isto que fazemos com o nosso futuro cadáver. Adicionamo-lo um tom diferente aqui, um pelinho ali... Enquanto ele ofega e se contorce acossado pela dor lancinante. 

É perturbadora essa realidade, com efeito. Não obstante, ainda há uma saída. Mas isso eu conto depois. Sugiro, por ora, um exercício, que os sãos acolherão de bom grado: caso vejam por aí um desses rockers persistentes, exortem-nos devidamente, pois é o que tenho feito. Admoestem-nos para que sejam condolentes com o nosso querido enfermo; para que finalmente lhe ofertem o bálsamo da morte, visto que só assim ele terá paz. De modo que assim que eu tiver oportunidade, compartilharei com vocês, caros, a única saída viável. Em tempo: sacrifiquem o rock. 

Por Boris Arenas, um gajo que gostaria de difundir algumas idéias pretensiosas com os leitores do Scream & Yell.