Invasão de Privacidade? 
por Leonardo Vinhas
leonardo.vinhas@bol.com.br 

Numa dessas navegadas ociosas (pré-apagão) pela Internet, segui a sugestão de um amigo e passei por um site de bondage, aquela modalidade sexual que consiste em amarrar o(a) parceiro(a) para "brincar" com ele(a), eventualmente chegando a uma relação sexual. Pois bem, eis que o referido site, mantido por uma "atriz e modelo" desse universo (não, não é só na Malhação que você encontra isso), oferecia, por um preço módico, cenas da lua-de-mel de sua proprietária. Porém, não aquelas fotos dela e do marido sorridentes em algum ponto turístico óbvio, e sim fotos daquele primeiro momento da lua-de-mel. O que inclui a cópula. Para estimular compradores desse voyeurismo insólito, a moça oferecia algumas fotos prévias. Em que ela estava, obviamente, amarrada.

Desliguei o computador e saí para ir à padaria, pensando o que leva uma pessoa a  expor sua intimidade tão desinibidamente. Algumas das razões possíveis:

1) Ela é uma viciada em serviço, e nem na própria lua-de-mel conseguiu se desvencilhar de 
seu trabalho, que é, literalmente, de foder.

2) Ela é uma entusiasta do capitalismo e da livre iniciativa, que viu em sua lua-de-mel uma excelente oportunidade comercial que não podia passar em branco (entenda: sem gerar lucros).

3) A moça, e provavelmente seu marido, só atingem o orgasmo se sabem que 
alguém está ou estará olhando a relação.

4) Ela quis dar um novo sentido à expressão "unir o útil ao agradável".

Quaisquer que fossem as razões (provavelmente todas essas quatro e mais alguma que meu cérebro não pode ou não quer imaginar), é certo que ela e o mancebo não se incomodaram nem um pouco em vender sua intimidade, mesmo que forjada - quem garante que as fotos são da noite de núpcias mesmo?. Cogitei, então, que essa mórbida exposição era um sinal claro do fim dos tempos, juntamente com o Programa do Ratinho, a novela Estrela-Guia e as salas de bate-papo na Internet.

Porém, pouco antes de chegar à padaria, vi em uma banca de jornais uma revista qualquer com a Adriane Galisteu na capa. E imediatamente minha mente começou a desovar toda a informação inútil que havia acumulado sobre a moça: seus namorados, seus casos, sua casa, suas ambições, sua carreira... Muitas coisas sobre alguém que não conheço pessoalmente - que sequer vi face a face.

Estranho? Pois pense bem: quanto você sabe da vida da Galisteu, da Eliana, das dançarinas do É o Tchan, ou de qualquer outra pessoa que mantenha-se constantemente na mídia sem fazer algo de artisticamente ou socialmente notável? Fuce nos seus arquivos mnemônicos e descubra até neles pequenas doses de informação sobre essas criaturas. E comece a entender que talvez o que a moça do bondage fez talvez não seja tão incomum.

Todas as personalidades citadas têm uma coisa em comum: não se negam a expor os detalhes mais íntimos de sua vida publicamente. Não trocam de namorado sem que isso seja noticiado. Não vão a uma festa se não houver um fotógrafo por perto. À mínima possibilidade de um novo contrato profissional, alardeiam ao mundo todo a nova oportunidade que ainda nem se concretizou.

Agora conte quantas revistas, jornais e programas de televisão noticiam amplamente cada uma dessas manobras, sempre esmiuçando os mínimos detalhes e vendendo muitos exemplares ou aumentando a audiência cada vez que anunciam "Fulana de Tal conta tudo". Desistiu de contar? Então vai aqui a sugestão de outra cifra ainda mais impressionante: quantas pessoas compram tais revistas ou assistem tais programas?

Mesmo que você jamais tenha (e duvido que não o tenha feito uma vez ao menos) aberto uma revista Caras ou uma Contigo, ou assistido à Hebe ou similares, você não tem como escapar. Seus colegas no escritório, as pessoas em uma fila de banco ou supermercado, alguns parentes, certamente estarão comentando detalhes exibidos em rede nacional na noite anterior ou veiculados em algum meio impresso sobre alguém que sempre "é notícia".

E por que é notícia? Porque sempre é interessante e aliviante falar da vida alheia. Porém, sempre vem um certo peso na consciência se falamos sobre alguém de nosso círculo de conhecidos. Por isso, é mais fácil nos tornarmos íntimos da Srta. Galisteu e congêneres, pois podemos comentar, divagar, espinafrar, elogiar, lamentar e aconselhar cada passo que a moça dá sem culpa. Sabemos da intimidade de cada uma dessas pessoas sem nos sentirmos culpados ou pervertidos. E nos aliviamos da angústia e dificuldade dos relacionamentos reais com pessoas próximas.

Por que falar com seu vizinho ou com o colega da mesa ao lado, tentando entender e ajudar em seus problemas, quando você pode ser juiz, júri e eventualmente "carrasco virtual" de celebridades? Por que perder tempo em conversas para conhecer alguém se pelos meios de comunicação você pode saber desde como fulana dorme até quantos namorados ela já teve e quantos mais pretende ter?

Vivemos uma invasão de privacidade às avessas, onde não é a privacidade dessas pessoas famosas que é violada (elas dependem dessa exposição para manter-se em evidência), mas a sua, que quer queira ou não, se vê invadido por detalhes da vida de alguém que você jamais encontrou. Diante disso, expor fotos de uma noite de núpcias parece algo bastante lógico e até aceitável. Afinal, escancarar intimidades é prática constante e antiga em nossa sociedade.

Tentar entender o que exatamente leva pessoas a se interessar tanto para a vida alheia é assunto para outro texto escrito por alguém bem mais capacitado que eu. Mas que o simples fato de estar cada vez mais difícil fugir de detalhes da vida de "chiques & famosos" assusta, não tenha dúvidas. Por via das dúvidas, ando me prevenindo. Toda vez que vou ao médico ou ao dentista levo comigo um livro para me desvencilhar da tentação da Caras.

Para quem interessar, o referido site de bondage é http://www.shadepaine.com. As revistas e programas de TV você sabe onde encontrar.

Leonardo Vinhas, 22, escreve para o fanzine Alternative Voices mas guarda com carinho seus discos do RPM e Gang 90.