Eu e
o punk: um caso de amor
por
Rodrigo James

Carnaval que se preze tem que ser
passado em casa, ouvindo um bom disco, vendo um bom filme. Pelo menos é
assim que pensam aqueles que odeiam a folia, como eu. Tudo é pretexto
para bebedeiras, descambando sempre para a baixaria.
Pois este ano, decidi desde o início
do mês que ficaria em casa me dedicando aos livros, filmes e cds.
E confesso, não estou arrependido. Mesmo porque fiz uma viagem no
tempo até 1977, 1978....anos em que o punk explodiu na Inglaterra,
refletindo no mundo inteiro.
Pra começar, fui à locadora
e aluguei “Sid & Nancy”, em DVD. Sim, eu sei que o filme não
é lá grandes coisas, mas a versão em DVD é
imperdível pelos documentos históricos que traz como material
extra. Só pra começar, tem trechos de um documentário
feito na época sobre o movimento, com cenas inéditas do casal
completamente chapado numa cama, balbuciando coisas que ninguém
entendeu até hoje. Logo na sequência, um outro documentário
que mostra os bastidores das filmagens. É impressionante ver Gary
Oldman ( o Sid do filme ) se preparando para o papel. Quem tinha alguma
dúvida sobre a genialidade deste ator, deixou de ter. Mas o melhor
ainda estava por vir. Existe no DVD uma gravação de um telefonema
dado por uma fotógrafa para Sid no hospital, logo que ele se recuperou
de uma overdose. Segundo a ficha técnica, a overdose aconteceu durante
um vôo de San Francisco para Londres, logo após o último
show dos Pistols. Sid teve que descer em New York e por lá ficou.
Quase não dá pra entender nada do que ele fala ( mais uma
vez ), mas dá pra sentir em sua voz o quaão barra pesada
era sua vida naqueles dias.
Bom, entusiasmado com o clima punk
rock que tomou conta de mim, resolvi tirar os clássicos do movimento
do fundo da gaveta e escutar tudo. Passei o resto do carnaval ouvindo “Never
Mind The Bollocks, Here’s the Sex Pistols”, “The Great Rock N’ Roll Swindle”,
“London Calling”e “Sandinista”. E, ao ouvir estas pérolas, me lembrei
do que o José Flávio escreveu na última Showbizz sobre
os Ramones ( para quem não leu, ele praticamente rebaixou os Ramones
a zero, dizendo entre outras coisas, que três acordes não
são suficientes para se fazer uma música ).
Tudo o que posso dizer depois de passar
o Carnaval inteiro ouvindo estas maravilhas é que, se três
acordes não são suficientes para se fazer uma música,
e o punk rock não significou nada, então pode esquecer metade
do que é feito hoje na música pop. Sim, porque quase tudo
o que é feito hoje bebe direto na fonte dos três acordes,
ainda que não diretamente.
Mas acho que o grande legado do punk
não foi nem isso. Foi a filosofia do D-I-Y ( Do It Yourself, ou
Faça Você Mesmo ). Eles provaram que todos nós podemos
fazer música, quase a partir do nada. Todas as canções
registradas nesses álbuns são extremamente simples, feitas
com a alma, os versos quase vomitados, a fúria que estava dentro
deles expelida por suas bocas, cordas, baquetas. Além disso, tornaram
qualquer processo de composição, gravação,
distribuição e divulgação bem mais simples.
Como se isso não bastasse,
seu legado foi estendido a outras áreas. A filosofia do “faça
você mesmo” é a grande responsável por você estar
aqui hoje lendo este texto num fanzine virtual. É graças
ao punk que muita gente saiu do quarto e colocou as idéias para
fora, mostrando que nem só de grandes corporações
vive a economia mundial. Os pequenos existem e vão sempre co-existir
com ao grandes. Portanto, se em algum lugar do universo, ouvirem outra
vez que três acordes não são suficientes, façam
como eu : ignore.
"Rodrigo James,
29, é publicitário e gosta de rock n' roll desde que ouviu
"Anarchy In The Uk" há quase 20 anos atrás."
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