How To Disappear Completely
por João Perassolo
cavalera@speedymail.org

O mundo anda chato, né? As pessoas são excessivamente idiotas e tudo é um saco. Você cansou de distribuir sorrisinhos pra todo mundo e de rir da última piada sobre Sandy e Jr. que sua amiga faz. Amiga? Como você se aproximou dela? Muito critério é pretensão, pouco critério é carência. Você estava desesperado.

Ok, esqueça. Seu lema, a parir de agora, é: I don’t have low self-esteem. I have low esteem for everyone else. You are a loser. Losers, ao contrário do que possa parecer, têm auto-estima elevada. 

Então, loser, esse é um guia para você desaparecer completamente e não ter que aturar gente mala quando não tá a fim. Afinal você tem amor próprio. O guia deve ser usado com moderação e cautela: quando você some completamente, a busca por materiais de leitura e por ouvir música aumenta, o que constitui seu prinicipal EFEITO COLATERAL. 

Logo, em doses excessivas, desaparecer completamente pode te mostrar que definitivamente as pessoas em geral são otárias e ler livros ou descobrir bandas novas é, numa grande parte dos casos, bem melhor do que conviver com um ser humano. 

CONTRA-INDICAÇÃO: as regras aqui contidas devem ser usadas com moderação: por pessoas que tem muito amor próprio; por quem tem muitos amigos legais; por quem gosta de ouvir barulhos e vozes a todo segundo; por fracos de espírito. 

O guia foi inspirado por mim, única e exclusivamente por experiência própria. E, pelo menos por um período, funciona. Já passei vários dias sem sair de casa, e não é tão ruim assim. Quando encher o saco, é só ligar para um amigo de verdade. (Tomara que você tenha amigos de verdade. Eu tenho os meus, e os amo).

O objetivo? Fazer você se aturar por o máximo de tempo necessário. E mostrar que você pode, sim, se bastar.

Pronto? Para se isolar do mundo... 

POSOLOGIA:

1. Ame a si mesmo. (Ihhh, tá parecendo livro de auto-ajuda...). Quem quer se isolar é porque se adora. Ponto. Você se gosta tanto que tem a plena certeza de que a sua companhia, e apenas ela, é suficiente para mantê-lo por longas horas. Você se preenche, se basta. Você é tão, mas tão gostoso, a ponto de achar que ninguém mais merece a sua atenção além de você mesmo. 

2. Odeie os outros. Não, melhor: ache-os inferiores. Eles, os outros, chatos, otários, que gostam de reggae e praticam surf, que comem cereais no café-da-manhã e vão na boate mais caras "catá umas mina" ou "procurar um bom partido", não merecem a sua requintada presença. Eles, os winners que estão sempre com as roupinhas da moda e assistem o Jornal Nacional, não têm cérebros preparados para a grandeza dos seus comentários: não merecem ouvir o que você tem a falar. 

3. É necessário alimento. Para a alma, para os ouvidos e para o corpo. 

3.a) Para a alma: pegue uns livros bons, ou que você tenha certeza que vai gostar. Eu sempre consumi escritores nacionais dos anos 90, ou literatura beat. Os clássicos, por serem blocos de racionalidade em forma de textos, não são indicados, sob pena de você se descabelar de tédio ao ler um José de Alencar. Zines e e-zines em geral também são aconselháveis. 

3.b) Para os ouvidos: cate um cd da pilha dos "por ouvir" e mande ver. Não pode ser muito animado, porque aí dá vontade de ver gente e se divertir com gente, o que não é o propósito do experimento. Já descarta-se, então, o rock’n’roll old school e o pop chiclé. Tem que ser algo triste ou reflexivo. Os estilos mais indicados são o trip-hop - Massive Attack, Portishead, The Starseeds, Sneaker Pimp, Tricky – e o post-rock – Mogwai, Tortoise, Sigur Rós. 

O trip-hop é depressivo. Se você não se suicidar depois de ouvir a voz rasgante da Beth Gibbons, do Portishead, cantando "nobody loves me / it’s true", nada mais é capaz de desesperá-lo. O post-rock é reflexivo; para ser ouvido com calma, em silêncio, mostra até onde experiências sonoras podem chegar. Tente o "Rock Action", último álbum do Mogwai. 

3.c) Para o corpo: cafeína, carboidratos e achocolatados. Compre umas pizzas pré-prontas (tele-pizza não vale, já que você vai desligar todos os telefones, na regra 4, logo abaixo), uma embalagem de café extra-forte e duas barras grandes de chocolate, uma de chocolate preto e uma de branco, pra contrabalancear, senão enjoa. A comida é uma forma de auto-compensação, já que você podia ter saído com seus amigos legais. Como você não saiu, se compense ingerindo coisas boas.

4. Desvencilhe-se dos telefones. Desligue o celular, tire o plug do aparelho fixo. Nada é tão urgente assim. Sem triiiim-triiiim. Imagina se você resolve deixar ligado e tem que atender uma vendedora de telemarketing. É pedir pra morrer. Portanto, evite imprevistos. O funeral da sua tia chata pode esperar. 

Outra: com esse item você acaba economizando. Se ligar pro parceiro que mora em outra cidade, vai ficar horas falando e o interurbano vai estourar o seu cartão. Lembre-se que telefone e conversas longas são duas coisas intrínsecas, é um pacote: telefone + horas de papo. 

5. Cale a boca. Tente não falar. Se proponha um exercício de silêncio por um longo período: é o máximo do auto-conhecimento. É importante se acostumar apenas com os ruídos dos seus pensamentos. Se você seguiu a regra 1, as músicas não vão permitir que você acompanhe as letras com a voz. Because those who sing are happy. Or wanna be. Cantar dá vontade de ver gente, por isso sons que estimulem o pensamento. Já os livros são, por natureza, para serem consumidos solitariamente. 

Se você seguiu as regras e levou o experimento a sério, teve uma prévia de como é ficar sozinho por opção. E viu que o ditado "antes só do que mal acompanhado" pode ser verdadeiro. Além do que o experimento acima é uma prévia de como é morar sozinho. Doeu? Não, lógico. Então tá pronto: you can be your best and only company whenever you want.