Coração Partido
por Marcos Sérgio Silva

Faz tempo, talvez um ano ou mais, uma revista inglesa, a Select, fez uma promoção: o leitor que melhor definisse 
o país como ‘a terra do coração partido’ levava para casa um pacote de doze CDs. Exemplos não desmentem essa fama dos britânicos, como a fúria assexuada de Morrissey e os acordes rasga-peito de Jason Pierce, do Spiritualized, que dedicou um disco todo à ex-namorada. Curiosamente, ela era integrante da banda. 

Essa moça deixou Pierce por Richard Ashcroft (ex-Verve, banda que falava sobre homens de sorte e sinfonias azedinhas-doce), e ele cometeu a obra-prima “Ladies and Gentlemen, We Are the Floats and Space”. Uma das faixas, por sinal, se chama Brokenheart. Pierce dá uma receita que Proust (o escritor, não o médico) assinaria embaixo: sofrer com classe é mais  eficiente para o artista. 

Algo oco no coração pode significar sua cabeça funcionar, algo que faz mais efeito que qualquer tipo de droga. ‘Sofremos, logo produzimos’ nada mais é que uma forma de escapismo. Assim, certos problemas parecem menores se, de alguma outra forma, somos elogiados por uma ou outra razão. Proust dá um nome para isso: ‘Sofrer com sucesso’. Hmmm! 

Bem, daí eu penso: como eu, brasileiro-maloqueiro-corintiano de Itaquera, posso ser, assim, tão sofredor? Talvez a origem do sofrimento esteja na cultura pop, não na geografia. Algo como uma das primeiras frases de Alta Fidelidade, filme e livro, citando que as canções de amor são mais perigosas para as crianças que as armas de brinquedo. O fato é que corações partidos rendem tratados, e esse foi mais um. Não será a primeira nem a quinta vez que sofreremos por isso. Falta ainda um gráfico da nossa vida, algo mostrando curvas e perspectivas (será que elas existem?). Sinceramente? Talvez falte um psicólogo para cada amante de música pop. 

Marcos "Isso Não é Vida" Sergio Silva, 25, era editor de Polícia no jornal Agora SP, neste momento deve estar perdido pelas ruas de Londres, mas ainda vai ser motorista de ônibu.s