Uma
Aula Sobre Cultura Pop
por
Marcelo Silva Costa
Um
amigo, numa resenha, escreveu que Nelson Motta era oportunista, um paspalho.
Outro amigo, numa mesa de bar, me explicou que o problema de Nelson Motta
era passar uma imagem de agitador e ser exatamente o contrário,
um acomodado. Eu, pessoalmente, não tenho opinião formada
sobre a pessoa Nelson Motta. Apenas o conhecia de algumas letras legais
em parceria com Lulu Santos e do chatíssimo programa Manhattan Connection.
Mesmo assim fui, cético, ler seu livro "Noites Tropicais"... e chapei.
"Noites Tropicais" funciona como uma
quase biografia do autor, que conta suas memórias musicais, vividas
como jornalista, produtor, compositor, diretor artístico, crítico
musical, entre outras funções. Funciona melhor ainda como
um diário de turma. Imagine-se contando a história da sua
turma, os acontecimentos engraçados, fatos inusitados. O diferencial
é que a turma de Nelson Motta tinha personagens com Vinícius
de Moraes, João Gilberto, Roberto Carlos, Elis Regina, Rita Lee,
e o grande Tim Maia (responsável pelos melhores trechos), além
de muitos, mas muitos outros.
É lógico que apenas
bons personagens não rendem um bom livro. Se não houver,
entre eles, uma ligação, uma história, poderia ser
uma bobagem. Mas "Noites Tropicais" não é. A força
do livro se concentra, claro, na histórias da bossa nova, em seu
confrontamento com a jovem guarda, e nos festivais, febre da nascente indústria
da televisão no Brasil.
Na verdade, funciona melhor ainda
como um diário dos anos de ditadura. E ganha pontos com isso, ao
relacionar música com política. Porque é impossível
distanciar algo cultural (seja livro, seja cinema, seja música)
do ambiente em que ele foi gerado. Com isso, percebemos que a MPB foi,
sim, um retrato inteligente dos anos difíceis pós AI5 e que
o breganejo, o axé e o pagode, são o retrato perfeito do
Brasil 2000, um país chafurdando em sua própria miséria
cultural, e se divertindo com isso. Já foi diferente, e é
esse o grande mérito de "Noites Tropicais". Trazer em seu conteúdo,
para quem tem menos de 30 anos, histórias já contadas por
muita gente, em vários lugares, mas nunca registradas em papel.
Sendo assim, podemos perceber o valor de um Chico Buarque, hoje afastado
da mídia. Apenas o episódio "Julinho da Adelaide" é
tão importante para a música brasileira quanto o Sex Pistols
tocando às margens do Tamisa, no Jubileu da Rainha, em 1977, para
a música inglesa.
Fora isso, o livro ainda é
divertidíssimo. E Tim Maia é personagem central de várias
das passagens antológicas do livro. Numa dessas, depois do grande
sucesso de "Primavera", que vendeu milhares de discos, Tim foi para Londres
e se
esbaldou com tudo (drogas, bebidas,
brigas) e voltou com 200 doses de LSD para distribuir aos amigos. Nelson
conta que assim que chegou a Philips (sua gravadora), Tim visitou diversos
departamentos, começando pelos mais caretas, como a contabilidade
e o jurídico, e repetia, sempre o mesmo discurso ao funcionário
da repartição: "Isto aqui é um LSD, que vai abrir
sua cabeça, melhorar a sua vida, fazer de você uma pessoa
feliz. É muito simples: não tem contra-indicações,
não provoca dependência e só faz bem. Toma-se assim".
Nelson diz que após isso, Tim jogava um ácido na boca e deixava
outro na mesa do funcionário (imagina a cara de babaca do cara).
Como era o sucesso da gravadora, todo mundo achava graça. E até
o presidente da companhia ganhou a sua dose. É mole?
É claro que o livro comete
alguns erros, afinal é a versão de uma pessoa sobre a vida
de muitas outras. Principalmente quando o assunto é o rock nacional
anos 80. Mas é necessário observar que Nelson tinha mesmo
que contar a história da
sua turma, da turma dele. O rock
nacional é outra turma, é a minha turma, e esse capítulo
terá que ser contado por outro. Isso explica erros infantis como
trocar uma palavra -importante - na letra de "Inútil" do Ultraje
ou achar que o Ira! nunca esteve entre as grandes bandas dos anos 80. Mas
é perdoável, afinal não podemos cobrar de um cara
que quis aprender violão, para tocar bossa nova (com a sua turma),
que ele venha tocar guitarra e sair com a galera dos anos 80 (a nossa).
Esses erros e acertos chamam-se História
(com H maiúsculo e dourado, como diria Humberto Gessinger dos Engenheiros
do Hawaii). E para aqueles, que como eu, acham que cultura pop devia (quem
sabe um dia) ser estudada em escolas, "Noites Tropicais" é obrigatório.
É muito mais interessante que física, química ou gramática
(como aprovaria Renato Russo). É um retrato antigo de um país
inteligente. Um tempo que dificilmente voltará. Um livro para roqueiros
(como eu), sambistas, tropicalistas, rappers e sobretudo, um livro para
a juventude. Era assim.
Marcelo,
29, é editor do fanzine de cultura pop Scream & Yell. |