A verdadeira literatura pop (não aceite imitadores)
por Alexandre Petillo

 A Conrad está caminhando a passos largos rumo ao posto de principal editora jovem do país. Esperta com o que há de melhor na literatura independente brasileira e mundial, a editora despeja todos os meses diversos títulos relevantes e interessantes, que refrescam e renovam o recalcado mercado literário brasileiro. 

Feita para e por profissionais que se formaram culturalmente graças aos três acordes do rock, a Conrad e seus lançamentos aparecem como o liame que faltava para unir os amantes tupiniquins da boa música à boa leitura. Com um pé na marginalidade, os lançamentos da editora entrega que a relação da literatura com o rock e a cultura de vanguarda é mais intrínseca e contínua do que pode pensar os imitadores de Nick Hornby. 

Um tiro certeiro e poderoso da editora é o seu belo catálogo de livros de história em quadrinhos. Muito além dos super-heróis, as HQs concentram-se bem mais nos dramas urbanos do que em crises cósmicas. E, diga-se de passagem, é um trabalho que exige uma perspicácia sobre-humana. 

Prato cheio para as raposas velhas e excelente porta de entrada para novatos em quadrinhos independentes, a coletânea Comic Book – O Novo Quadrinho Norte-Americano reúne os principais nomes do movimento alternativo americano, em uma edição luxuosa e rica em informações. Comic Book -  que já está em sua segunda edição -  recupera (para o mercado num todo) e lança (no Brasil) a revista-antologia. Muito popular nos EUA na década de 80, esse formato naufragou junto com todo o mercado de quadrinhos americano. Ainda assim, as revistas-antologia foram as responsáveis por sempre apresentarem novos autores, definir tendências e causar polêmicas, além de freqüentar as livrarias, um fator indispensável para conquistar o público adulto. 

Sátiras bizarras e crônicas autobiográficas dão o tom do livro, saltando aos olhos os trabalhos de nomes que vem se consagrando no meio quadrinístico há algum tempo, como Joe Sacco, os irmãos Jaime e Gilbert Hernandez, Adrian Tomine e Dame Darcy. Merece destaque o traço sombrio e a narrativa melancólica de Daniel Clowes, cujas características o levam a ser comparado com o cineasta David Lynch (Veludo Azul). Richard Sala, cujo estilo será reconhecido por aqueles que assistiram as animações do Liquid Television na MTV, aparece muito bem numa bizarra e mórbida trama circular sobre desencontros amorosos e falta de identidade. Peter Bagge aparece numa divertida história onde a decadência pop de Seattle é o cenário. 

Hilário, polêmico, instigante e, claro, identificável com o público masculino onanista, A Playboy, de Chester Brown, é um dos mais louváveis lançamentos. Autobiográfico e narrado na primeira pessoa, Brown conta o difícil e edificante relacionamento que manteve com a revista Playboy durante toda a sua vida. Nesse percurso, embaraçoso e com todos os elementos básicos de um romance (amor e ódio), o autor canadense aproveita para alfinetar e colocar o dedo em alguns preconceitos raciais comuns na sociedade Ocidental, de onde fundam-se religiões e tabus. O humor cru e a pitada de melancolia de seu relato conquistou público e crítica nos EUA e Europa, mesmo aqueles que não são muito chegados ao mundo dos quadrinhos.

O novo quadrinho japonês também é tratado com respeito na Conrad. Enquanto os pré-adolescentes esbaldam-se com os mangás do Dragonball, o público adulto enfrenta quadro a quadro algumas das feridas causadas pelo embate entre a cultura Ocidental com o Oriente. A premiada saga em quatro capítulos, Gen Pés Descalços, de Keiji Nakazawa, conta a história de uma família durante e após a explosão da bomba em Hiroshima. Emocionante é pouco. 

Ainda mais impressionante é Preto e Branco, de Taiyo Matsumoto. Matsumoto, um dos principais nomes da nova geração de quadrinistas japoneses, teve sua obra altamente criticada no Japão, quanto ao excesso de violência e sexo contido em suas páginas. 

O traço de Matsumoto (com forte influência de Moebius e Frank Miller, dois dos maiores ícones das HQs inteligentes) é chocante e expressivo, tornando Preto e Branco uma obra moderna e inacreditável. Preto e Branco são irmãos e vivem na rua, diferentes entre si, mas de uma maneira bizarra, se completam. Completam o cenário as ruas sujas, pobreza, máfia japonesa por todos os lados e a violência. A ambigüidade dos personagens coloca o leitor em uma posição desconfortável, não podendo escolher posições éticas diante dos eventos. Ao mesmo tempo em que os irmãos batem em japas mafiosos, eles também roubam e espancam crianças na escola, simplesmente para extravasar a raiva contida de não poder freqüentar uma. 

Preto e Branco é apenas o primeiro volume desta obra, a editora promete publicar, em breve, toda a seqüência. 
Um dos personagens mais geniais, marcantes e revolucionários da história moderna dos quadrinhos, o Sandman, aparece em dois bons lançamentos. Sandman: O Livro dos Sonhos e Os Caçadores de Sonhos

A série de quadrinhos Sandman significou uma mudança radical na história do gênero. Até então a história dos quadrinhos era um terreno totalmente dominado pelo desenhista. Existiam os desenhistas-escritores como Hergé (Timtim, o detetive) ou desenhistas-desenhistas como Jack Kirby (co-criador do Homem-Aranha). Este cenário é modificado em meados dos anos 80, quando acontece a chamada "invasão britânica" nos quadrinhos mundiais. Subitamente os melhores gibis de super-heróis foram tomados por uma leva de roteiristas brilhantes como nunca se tinha visto na história do gênero. O britânico Alan Moore (de Watchmen e Piada Mortal, uma das cinco melhores histórias do Batman em todos os tempos) foi o líder, mas quem consolidou essa revolução foi Neil Gaiman, com a série Sandman. Ao cabo dessa primeira fase da revolução, nada era mais como antes. Pela primeira vez na história dos quadrinhos, a estrela de um gibi era seu roteirista. Diversos desenhistas passaram pela série, alguns chamados porque eram ótimos, outros porque eram rápidos, mas Sandman de Neil Gaiman fez seu roteiro predeterminado construindo suas imagens diretamente na imaginação de seus leitores. Diversas pessoas que nunca tinham dado atenção aos quadrinhos passaram a acompanhar, apaixonadas, as histórias em quadrinhos de Gaiman. Com o tempo, Sandman passou do mundo dos quadrinhos para viver no mundo da literatura.

Essa mudança fica clara em Os Caçadores de Sonhos, um livro ilustrado, com roteiro de Neil Gaiman e desenhos ocasionais do artista japonês Yoshitaka Amano. A interação do desenho de Amano com o roteiro de Gaiman é simétrico. Quase um livro de arte, bonito, mas não ouse ler antes de dormir, caso queira ter sonhos tranqüilos. 

Sandman: o Livro dos Sonhos, é  uma coletânea reunindo alguns dos melhores escritores de terror e fantasia para escrever novas aventuras do Sandman, como, por exemplo, Clive Barker (Hellraiser, o filme). 

Uma das maiores provas de que a criatividade pura junto a um trabalho honesto pode criar grandes obras é Palestina, do jornalista Joe Sacco. Assim como Art Spielgman, que retratou as experiências de seus pais nos campos de concentração nazista na Segunda Guerra em Maus, Sacco narra suas experiências no olho dos traumáticos conflitos da Palestina. No entanto, não se trata de uma simples coletânea de memórias, mas sim de um relato puramente jornalístico. Uma reportagem quadrinizada. Cansado dos textos jornalísticos ocidentais, onde os autores recheiam suas linhas apenas com os mocinhos, ou seja, as tropas norte-americanas, Sacco mergulhou nas ruelas da Palestina e ouviu histórias reais de pessoas que tiveram suas casas, famílias e trabalho aniquilados. Sacco suspeitou que havia algo de errado com as descrições da mídia, que faziam de Israel um estado vítima dos vizinhos sanguinários árabes. Ele viajou para a Palestina em 96 e viveu durante dois meses nos principais centros do conflito. O resultado é essa obra-prima jornalística muito mais eficaz e contundente do que qualquer show da CNN. 

Confesso que nunca fui fã de quadrinhos nacionais sérios. Eles sempre me pareceram um decalque mal feito dos autores gringos, com bons desenhos, mas apresentando péssimos roteiros, que chegavam a beirar a imbecilidade. Mas, Fealdade de Fabiano Gorila, de Marcello Gaú me fez rever essa minha posição. Trata-se de um clássico instantâneo do novo quadrinho mundial. Surpreendente novo, mesclando um traço incrivelmente realista com imagens e fotografias, Gaú revolucionou. Utilizando uma linguagem ao mesmo tempo bem humorada e melancólica, o livro relata as dificuldades de se tornar alguém em uma grande cidade do Brasil, no caso da história, no Rio de Janeiro. Tudo que faz parte do cotidiano de pessoas simples está lá: a falta de luz, de água, de vergonha, de ônibus, de paz. E, claro, o futebol. Como diz o jornalista Rogério de Campos na orelha do livro, Marcello Gaú inventou os quadrinhos. Depois disso, não há muito mais o que dizer, apenas que é obrigatório. A verdadeira literatura popular. 
 

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