Para que servem os heróis?
por Leonardo Vinhas
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Para que servem os heróis? Impossível de responder em pouco espaço, podemos delimitar essa pergunta para facilitar sua resposta: para que servem os super-heróis, mais exatamente os das grandes editoras norte-americanas Marvel e DC?
À cada mudança profunda que o mundo ocidental (principalmente a sociedade americana) sofre, o propósito dos heróis passa por uma alteração. Se a Era de Ouro dos Quadrinhos (iniciada nos anos 30) apresentava heróis perfeitos dentro de um caráter maniqueísta (para ajudar a superar a baixa estima decorrente da Grande Depressão pós quebra da Bolsa de Nova Iorque), a Era de Prata trazia figuras que ajudavam a recuperar um mundo destruído e desiludido após a Segunda Guerra Mundial. Entre esses dois períodos, os super-heróis personificavam ideais nacionais e nobres, para se adequarem ao urgente espírito combativo do confronto.

Ao longo dos anos, diversas outras mudanças surgiram e os heróis, em sua maioria, as acompanharam. Porém, desde a publicação da obrigatória série Watchmen, de Alan Moore e Dave Gibbons, os super seres tentavam justificar sua existência perante sua própria impossibilidade de existência. Moore e Gibbons demonstraram que, num mundo real, super-heróis não teriam muita utilidade a não ser que tivessem poderes reais. E - caso tivessem - representariam uma profunda mudança social, religiosa e política no mundo. Embora isso não constituísse mudança social alguma, os heróis sofreram um duro baque com a introdução desse novo conceito.

Justamente esse conceito volta a se apresentar nos dias de hoje, após os ataques terroristas em 11 de setembro, que destruíram as Torres Gemêas do World Trade Center em Nova Iorque. Num mundo onde terroristas levam aeronaves comerciais a se colidirem com prédios cheios de civis, para que servem os heróis?

Lançada pouco mais de um mês após os atentados, o livro Heroes ("Heróis", ainda sem edição brasileira) tenta responder a essa pergunta. Reunindo autores e desenhistas consagrados do mundo das HQs, o livro exibe a reação dos maiores heróis da Marvel Comics à catástrofe, destacando sua perplexidade e impotência diante da situação; e enaltecendo, em contrapartida, o trabalho dos bombeiros, voluntários e paramédicos que atuaram no socorro às vítimas. Joe Quesada, editor-chefe da Marvel, declarou que "é necessário afirmar agora que o heroísmo reside na virtude, não nos poderes".

Em entrevista recente ao jornal Folha de São Paulo, o artista Alex Ross, co-autor das premiadas séries Marvels e Kingdom Come (Reino do Amanhã) anunciava que pretendia ressaltar em seus próximos trabalhos a presença dos super-heróis na prevenção das tragédias, antecipando-se aos eventos que podem tornar o planeta ainda mais inseguro. Reflexo imediato desse pensamento, o especial Wonder Woman - Moment of Truth, de Ross e Paul Dini, coloca a Mulher Maravilha combatendo terroristas pelo mundo todo.

Esses dois exemplos nos permitem deduzir que pelos próximos tempos os heróis representarão a superioridade da virtude e da solidariedade, como já ocorreu em outros tempos. Todavia, mais do que isso, eles tentarão representar uma espécie de segurança onírica e utópica, já que nem na fantasia será possível fingir a existência de estabilidade social e política. Longe de analisarem complexos conflitos culturais e políticos, incentivarão o reducionismo simplista que permitirá aos leitores crer que, de alguma forma, alguém está zelando pela paz no mundo e pela preservação dos estados onde se encontram. Não é isso que acontece há séculos através das religiões e seus mitos? 

Leonardo Vinhas deve ao editor do S&Y um texto sobre a coleção de gibis do Pelézinho