No shopping - Simone Campos
(Editora 7letras)
por Leonardo Barbosa Rossato
porresia@bol.com.br


Uma cínica estória da alienação teen

Você gosta de ir ao shopping? Mas gosta de ir lá comprar ou só dar uma voltinha pra ver as vitrines?  Segunda casa? Templo do consumismo? Diversão adolescente?

Simone Campos, carioca, nasceu em 83 e escreveu um dos melhores livros da literatura brasileira no ano passado. Curto. Rápido. Certeiro. Dolorido: "no shopping".  Uma espetada na consciência. E mais: na consciência da nossa geração. A geração que nasceu nos shoppings centers, que aprendeu a cultuar o consumo como uma religião, que aprendeu a conviver passivamente, abraçando essa nova religião e todos os seus dogmas.

"Não há conteúdo sem forma", disse uma vez Flaubert. No romance de Simone também encontra-se o casamento perfeito entre forma e conteúdo. Literatura pós-moderna. Acredito que chamar um romance de literatura pós-moderna seria dizer que é uma literatura sem amarras, sem amarras vanguardistas, sem amarras institucionalizadas da literatura nacional. Literatura pop(ular).

"no shopping" inova nos capítulos curtíssimos. Provavelmente influenciada por Machado de Assis (influência em todo o romance), com seus capítulos curtos. Só que agora os capítulos são divididos como os softwares dos computadores: 0.1;
2.6; 6.8.1. Frases entrecortadas, palavras que se perdem no meio da frase, reprodução fiel do nosso pensamento: fragmentário e disperso. Influenciada por Clarice Lispector, é perceptível a sensibilidade da autora para com seus personagens: Delia, Juliana e Yuri.

Drogas. Sorvetes de baunilha. Nasdaq. Livraria e best-sellers. Anglicanismos e neologismos. Todo o universo burguês atual é retratado no romance. Simone Campos escreve sem piedade e de dentro de sua (nossa) geração com uma ironia fina que
muitas vezes beira ao sarcasmo:  

"Delia entrou no templo, contrita. Examinou os grandes vitrais coloridos, límpidos e suspirou à vista das imagens gloriosas.

Havia uma música suave no ar.

Pessoas saíam, já tendo contribuído onde financeiramente para a obra. Caminhou até descobrir onde é que confessaria seu pecado capital: a Gula.
- Um de baunilha com chocolate.
- Oitenta centavos.
(herege)"

E toda a estória acontece nesse ambiente asfixiante, asséptico e tão cheio de símbolos e significados que é o shopping center. A patricinha Delia (Estados Unidos), a obediente e influenciável Juliana (América Latina) e o revoltado Yuri
(Rússia): os três personagens principais. A leitura política dos personagens não é assim tão explícita, mas é válida e inteligente. Aliás, desde o título do livro, vê-se o dedo esperto e sarcástico da autora de "no shopping" (ou "não compre" se lido em inglês).

Este livro é um marco na novíssima literatura brasileira. Esperamos os próximos livros da autora, para percebermos qual a magnitude e até onde vai a prosa de Simone.  Eu levei um piparote na consciência. Nossa geração não vai se levantar tão cedo assim dessa porrada. Ainda bem.


Trecho:

 Delia atravessou o portal de seu sonho. Passo a passo sobre o chão branco reluzente, dali ergueu seus olhos e viu lojas.
 Suspirou.
 gente que passa na porta e não resiste ao (seu) Shopping ah! quando eu andar quando eu subir quando eu comprar ele vai sorrir pra mim.
- Delia? - chamou Victor.
- Eu amo esse Shopping.
- Ama...
- Amo. Amo mais que tudo.

Observação Pertinente: A chamada nova literatura pop deveria ser melhor analisada pela grande mídia. Aliás, acho que esse deveria ser o rumo para fazer com que os jovens leiam mais. Não adianta dar Memórias Póstumas pra um moleque se ele não tiver o mínimo de experiência literária. Como ele vai saborear as palavras do nosso humorista cáustico, do escritor mais importante do nosso país? Talvez seja a hora dos professores, acadêmicos, etc. instigarem os alunos com outros tipos de obras, não necessariamente brasileira. Acho a literatura brasileira uma das melhores do mundo, mas acho insuficiente ensinar apenas literatura brasileira. Não seria a hora de deixarmos os clássicos pra depois (não esquecê-los, por favor) e iniciarmos os jovens com literatura jovem e, principalmente, de qualidade? Que tal Simones, Salingers, Hornbys, Rubens Paivas nas listas de livros das escolas?