Furacão Hilda
por Nadia Timm
ntimm@zaz.com.br

Inovadora, extravagante, controvertida. Tais adjetivos traduzem a força da linguagem da obra de Hilda Hilst. Finalmente, aos 72 anos, a escritora tem seu trabalho reeditado. São 40 livros ao todo. A missão, assumida pela Editora Globo, foi iniciada em janeiro, com o relançamento de A Obscena Senhora D, seguida pelos poemas de Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão. Em fevereiro, chegou às livrarias Bufólicas e, este mês, será a vez de Cartas de um Sedutor

A Obscena Senhora D foi lançado em 1982. A trama mistura real e imaginário ao narrar o drama existencial de Hillé, uma mulher que se refugia no seu mundo interior após a morte do marido. Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão reúne poemas em que a escritora mergulha no universo erótico feminino e recebeu elogios de Carlos Drummond de Andrade à época de seu lançamento, em 1974. "Você não dormiu com esse cara, não é? Os poemas são tão bons que eu sei que você não dormiu com ele." "É verdade", respondeu Hilda. 

Bufólicas é uma antologia poética, de 1992, na qual a tônica são humor, a ironia e mais uma vez o erotismo. A obra, ilustrada por Jaguar, inclui poemas com títulos inusitados, como "O Reizinho Gay", "A Rainha Careca", "O Anão Triste" e "Filó, a Fadinha Lésbica". O livro marca o anúncio de Hilda Hist de "abandonar a literatura séria". Na época de seu lançamento, ela declarou que mais do que mal interpretado, seu trabalho foi mal julgado.

Embora tenha afirmado recentemente à imprensa paulista que está envolvida em um novo trabalho, na entrevista que segue, Hilda foi enfática ao dizer que não escreve mais. Segundo Alexandre Oliveira, da Editora Globo, por insistência dos amigos, Hilda compôs O Koisa, um texto despretencioso com apenas duas ou três páginas. "Pediam para que escrevesse qualquer coisa. Então, ela respondeu que faria O Koisa", contou. Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista:


Scream & Yell - O que significa para a senhora ver sua obra reeditada?

Hilda Hilst - Todo mundo tem me perguntado isso e eu só posso responder que parece evidente que todo escritor se alegre de ter seu trabalho publicado. Só acho uma pena que comigo tenha demorado tanto, teria sido ótimo se tivesse acontecido quando era mais moça. Aos 72, a gente fica contente, mas, ao mesmo tempo, isso já não importa tanto. 

A senhora já declarou que escreve de modo simples e que é um absurdo não a entenderem. A qualidade de seu trabalho, em forma e conteúdo, está além de nossa época?

Minha linguagem é inovadora sim, e essencialmente poética. Não obedece a convenções gramaticais, tem outro ritmo porque não pensamos nem sentimos de forma simplizinha, organizada ou linear. Sei que não escrevo do jeito que a grande maioria dos leitores está acostumado a ler. A forma é inovadora, mas não incompreensível, dizer que sou incompreensível é bobagem. Eu escrevo em português. Tem um amigo meu, o Edson, que recomenda que eu seja lida em voz alta. A linguagem, para mim, é o que justifica você contar alguma coisa, porque as histórias, há milênios, são sempre as mesmas. O homem não mudou, nossos questionamentos e pavores são os mesmos, não modificamos nenhuma das nossas realidades essenciais, nossas emoções, ainda nascemos e morremos como desde sempre, apesar da luta dos cientistas e dos místicos para alterar isso. 

O fato de desenvolver seu texto de forma não linear (me dão a impressão de espirais, ciclos de mergulho profundo, como polifonias da música barroca) pode ser uma das causas dessa "incompreensão"?

É, se você não escreve "Bom dia, dona Maria, como vai?", com vírgulas e maiúsculas, isso já atrapalha. E também se você coloca personagens que se questionam com mais profundidade. 

A senhora admite que a loucura une toda sua obra. "Loucura" sintetiza sensibilidade, percepção, forma de expressão diferente do convencional?

É tudo isso sim, mas também é um desequilíbrio total, um desarranjo. É horrível ser louco. Meu pai foi esquizofrênico paranóico e ele sofreu muito. As pessoas fantasiam muito com a loucura, ficam imaginando só um lado poético, genial de ser louco. Mas não é só isso. Padecer de loucura é terrivelmente doloroso. E não sei até onde a loucura garante a boa qualidade de sensibilidade ou percepção de alguém. O mundo teve loucos geniais, Nietszche, Nijinsky, tantos outros. Mas teve os horríveis. Hitler também tinha uma sensibilidade diferente do convencional, mas era um carniceiro monstruoso. E também deve ter muito louco chato, maluco mesmo, como acontece com todo o mundo. 

Na contracapa da nova edição de Obscena Senhora D, aparece uma foto de família. Quanto de autobiográfico é seu trabalho?

Meu trabalho não é autobiográfico. Eu já disse numa entrevista que falo por parábolas. E parábola é muito complicado, parece que ninguém entende. 

Seu processo criativo, método de trabalho, como é?

Eu não escrevo mais. 

Prosa e poesia parecem se misturar no seu texto. Como a senhora analisa essa interação?

Existe sim essa interação no meu texto. O homem é múltiplo, não tem uma só linguagem nem um único rosto, não é um ser uníssono até a morte. Nem a morte sabemos como é nem o que é. Escrevi tudo o que escrevi e da forma que escrevi porque sabia que tinha de fazer isso. Era uma febre, uma compulsão. E fiz do melhor jeito que pude.


Obras 
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Já relançadas
- Júbilo, Memória, Noviciado da Paixão (poesia), 1974
- A Obscena Senhora D (prosa), 1982
- Bufólicas (poesia), 1992 

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A sair
- Cartas de um sedutor (prosa), 1991
- Cantares (poesia), dois livros
- Qadós (prosa), 1973
- Exercícios (poesia), reunindo sete livros
- Contos do Escárnio/Textos Grotescos (prosa),1990
- Da Morte: Odes Mínimas (poesia), 1980
- Com meus olhos de cão (prosa), 1986 

Hilda Hilst nasceu em Jaú, São Paulo, dia 21 de abril de 1930. Formada em Direito, em 1954, pela USP, desde essa época se dedica à literatura. Laureada pelos mais importantes prêmios literários do país, a partir de 1982, integra o Programa do Artista Residente, da Unicamp. Em 1995, seu arquivo pessoal foi adquirido pelo Centro de Documentação Alexandre Eulálio, do Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp.


Alcoólicas
de Hilda Hilst

 
É crua a vida. Alça de tripa e metal.
Nela despenco: pedra mórula ferida.
É crua e dura a vida. Como um naco de víbora.
Como-a no livor da língua
Tinta, lavo-te os antebraços, Vida, lavo-me
No estreito-pouco
Do meu corpo, lavo as vigas dos ossos, minha vida
Tua unha plúmbea, meu casaco rosso.
E perambulamos de coturno pela rua
Rubras, góticas, altas de corpo e copos.
A vida é crua. Faminta como o bico dos corvos.
E pode ser tão generosa e mítica: arroio, lágrima
Olho d'água, bebida. A Vida é líquida.
 
(Alcoólicas - I)
* * *

Também são cruas e duras as palavras e as caras
Antes de nos sentarmos à mesa, tu e eu, Vida
Diante do coruscante ouro da bebida. Aos poucos
Vão se fazendo remansos, lentilhas d'água, diamantes
Sobre os insultos do passado e do agora. Aos poucos
Somos duas senhoras, encharcadas de riso, rosadas
De um amora, um que entrevi no teu hálito, amigo
Quando me permitiste o paraíso. O sinistro das horas
Vai se fazendo tempo de conquista. Langor e sofrimento
Vão se fazendo olvido. Depois deitadas, a morte
É um rei que nos visita e nos cobre de mirra.
Sussurras: ah, a vida é líquida.

(Alcoólicas - II)
* * *

E bebendo, Vida, recusamos o sólido
O nodoso, a friez-armadilha
De algum rosto sóbrio, certa voz
Que se amplia, certo olhar que condena
O nosso olhar gasoso: então, bebendo?
E respondemos lassas lérias letícias
O lusco das lagartixas, o lustrino
Das quilhas, barcas, gaivotas, drenos
E afasta-se de nós o sólido de fechado cenho.
Rejubilam-se nossas coronárias. Rejubilo-me
Na noite navegada, e rio, rio, e remendo
Meu casaco rosso tecido de açucena.
Se dedutiva e líquida, a Vida é plena.

(Alcoólicas - IV)
  


* * *
 

Te amo, Vida, líquida esteira onde me deito
Romã baba alcaçuz, teu trançado rosado
Salpicado de negro, de doçuras e iras.
Te amo, Líquida, descendo escorrida
Pela víscera, e assim esquecendo
Fomes
País
O riso solto
A dentadura etérea
Bola
Miséria.
Bebendo, Vida, invento casa, comida
E um Mais que se agiganta, um Mais
Conquistando um fulcro potente na garganta
Um látego, uma chama, um canto. Amo-me.
Embriagada. Interdita. Ama-me. Sou menos
Quando não sou líquida.

(Alcoólicas - V)

(in Do Desejo - Campinas, SP: Pontes, 1992.)



Site oficial de Hilda Hilst


Entrevista e seleção de poemas por Nadia Timm, especial para o site Cyber Goías.
Cedido em parceria para o S&Y.
http://www.cybergoias.com/