SUBMUNDO - de Don DeLillo
(Companhia das Letras)
por Nailana Thiely

O "Submundo" de Don DeLillo ficou ainda mais interessante depois dos ataques terroristas em Nova York. Mistura de ficção e fatos jornalísticos reais, Submundo relata meio século de todo o vazio da sociedade norte-americana, atônita em meio à Guerra Fria e cercada de sentimentos do tipo nós contra eles ou a luta do bem contra o mal.

Ler este romance exige fôlego. Na edição em português, lançada pela Companhia das Letras, DeLillo preenche 732 páginas com o que há de melhor da literatura de paranóia, o melhor produto-exportação dos Estados Unidos.

A história começa em 3 de outubro de 1951, data em que ocorre um acaso histórico: Na mesma época em que a URSS explode sua segunda bomba atômica, ocorre em Nova York um famoso jogo de beisebol, entre Giants e Dodgers. A bola de beisebol que marca a vitória  dos Giants desaparece em meio ao público de torcedores do New York Polo Grounds, onde Frank Sinatra e Edgar Hoover trocam piadinhas e tentam driblar mulheres histéricas.

Símbolo de uma glória perdida e idealizada, a bola  desaparecida passa de mão em mão na torcida novaiorquina, ligando as histórias pessoais mais díspares da terra, numa metáfora ao mosaico de estilhaços que a Guerra Fria proporcionou à sociedade moderna.

Nessa mistura de histórias aparece de tudo: Popstars bêbados, italianos indigentes do Bronx, torcedores com fetiche por papel picado, soropositivos, amantes de rock esteróide, garis, mulheres fumantes compulsivas, psicóticos e, apesar das circunstâncias, muitos esperançosos.

Os principais protagonistas deste romance não-linear são Klara Sax e Nick Shay. Ela, uma artista que desenvolve com um grupo de jovens um projeto de ressignificação de aviões de guerra no deserto. Ele, um especialista em armazenamento de lixo atômico e resíduos tóxicos. Os dois se reencontram no deserto quarenta anos depois, ligados por um grande segredo congelado no passado.

As descrições de DeLillo sobre os resultados da guerra-fria na cultura americana não poderiam ser mais atuais: O showbusiness vira palavra de ordem de um território em que fama e fortuna valem mais que qualquer outra coisa; os acontecimentos que desencadeiam emoções na consciência coletiva dos Estados Unidos se tornam cada vez mais violentos e funestos.

Não que se deva cultuar a decadência ou a morte em grande escala mas se Don DeLillo resolvesse escrever especificamente sobre os ataques terroristas em NY e a atual obsessão por Osama bin Laden, com certeza iria fazer amortecer, ao menos por alguns dias, o sentimento de ódio e guerra norte-americano, conferindo riqueza literária a um fato historicamente tão pungente.