'Sinistros com Fogo', de David Means
por Jonas Lopes
Gymnopedies
02/10/2006


"Talvez o ruim da dor seja nos deixar sensíveis às menores nuances de movimento", pensa o personagem de um dos contos de Sinistros com Fogo (Companhia das Letras, 158 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), do americano David Means. Trata-se de um médico que "achou que estava tendo uma reação alérgica, anafilaxia, uma súbita e violenta reação das defesas do corpo". O médico pensa que houve algo normal, uma úlcera provocada por um remédio que havia tomado. Inconscientemente, porém, sabe que a tal reação é culpa da mudança do vizinho, um senhor de 90 anos cujo terreno dará lugar a um loteamento.

Em grande parte dos contos de Sinistros com Fogo a trama parte de algo assim, fora da rotina básica dos protagonistas. Um desequilíbrio. Às vezes o incidente surge através do meio em que vivem, mas quase sempre começa com uma atitude do próprio personagem: "A pessoa é mais bem orientada pelos primeiros impulsos, pelos movimentos intempestivos, e não por alguma obrigação ou por algum senso comum", resigna-se a mulher de "A Interrupção" recém-casada que pensa em trair o marido.

A Interrupção é uma mostra representativa das habilidades de Means. Como Faulkner em Palmeiras Selvagens, ele alterna duas narrativas distintas - uma festa de casamento e as primeiras semanas do matrimônio e a luta de alguns vagabundos de rua pela sobrevivência. As histórias só se cruzam quando um dos mendigos entra no casamento e é surrado, depois se separam e se mantêm distantes. O que as une e convulsiona é o sentimento do casal e dos vagabundos, de incompletude, que paira pelo conto.

Em Incidente na ferrovia, agosto de 1995, um homem do tipo que manda "lavar a seco o jeans" acaba de perder a esposa e vai até as montanhas à beira do rio Hudson. Deixa o carro ligado estacionado e caminha descalço pela ferrovia, em busca "talvez de passos que não havia dado". Aqui Means contraria a afirmação de que a pessoa é mais bem orientada pelos impulsos: o personagem encontra um grupo de adolescentes desocupados, é surrado até a morte e amarrado nos trilhos. Não chega a sofrer, interessado em relembrar uma melodia de Brahms.

David Means é um autor que até agora se dedicou exclusivamente ao conto. Já abandonou dois romances, um deles com 700 páginas. Sinistros com Fogo, lançado no exterior em 2000, é a segunda de suas três coletâneas (as outras são A Quick Kiss Of Redemption, de 1991, e The Secret Goldfish, de 2005), a primeira lançada no Brasil. É um típico autor norte-americano, daqueles que preenchem as páginas da revista New Yorker: protestante, com interesse nos subúrbios próximos de Nova York e da Nova Inglaterra, nos pequenos gestos do cotidiano da classe média, o surreal do banal.

É possível notar semelhanças com o grande John Cheever, o mestre do conto americano pós-Hemingway. Cheever também parte de situações pouco usuais, como em seu conto mais famoso, O Nadador, em que um homem atravessa uma cidade inteira através das piscinas dos vizinhos enquanto reflete sobre a decadência de sua estrutura familiar.

Provavelmente não estão errados aqueles que dizem que é mais difícil escrever um bom conto do que um bom romance. Neste último, por certo, o autor pode estender o desenvolvimento da narrativa até onde deseja. O esforço de dramatização é bem menor. Já no conto a tensão nunca pode afrouxar. O escritor deve compor em poucos parágrafos os conflitos e motivos que circundam uma figura, traçar sua biografia sentimental mesmo que não em palavras, apenas em gestos, sugerida em um olhar ou um diálogo. O êxito de David Means advém da seqüência de sentenças longas, que retardam a progressão das histórias sem comprometer o ritmo. Ele é, como um de seus narradores, um caçador de gestos.

De acordo com o próprio Means, o segredo de uma boa história é que as partes soltas, no final, fundam-se umas nas outras e resultem em algo finalizado. Como em Coito, a melhor das narrativas de Sinistros com Fogo. Durante uma relação sexual com a esposa, os pensamentos de um homem passeiam pelas lembranças da morte de seu irmão. Até o mais cúmplice dos atos pode ser dolorosamente solitário.

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