Entrevista com Georges Bourdoukan
Segunda Parte

por Leonardo Vinhas
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06/08/2005


Continuando: o senhor falava da delação que sofreu...
Antigamente, o Globo Repórter não tinha nada a ver com jornalismo diário. Eu por exemplo, não conhecia o Armando Nogueira, que era um dos diretores do jornalismo diário, não tinha nenhuma relação com ele.

É, o Globo Repórter começou como um programa à parte na Globo e admito que foi uma surpresa para mim quando vi seu nome como um dos criadores...
Não, eu quero fazer justiça. O criador mesmo do Globo Repórter foi Paulo Gil Soares. Antes era Globo Shell Especial e depois virou Globo Repórter. Se isso existiu, e foi um grande programa, isso se deve ao Paulo Gil Soares. Outro que também teve uma participação muito boa foi o Washington Novaes, teve o Walter Lima Jr., o Eduardo Coutinho, que eram mais ligados à área de cinema, e nós éramos mais ligados à área de jornalismo. Conseguimos casar os dois, entendeu, tanto a imagem quanto a informação, o que não existe mais. Hoje é tudo entretenimento.

É, o Globo Repórter virou um braço do Fantástico, vamos dizer assim.
Exatamente. Perdeu a característica principal dele, que era aprofundar as informações.

Se eu pesquisei corretamente, foi numa matéria denunciando o uso de agrotóxicos que o você foi retirado do programa.
O carro da Globo foi depredado pelo pessoal. O que me chamava a atenção era o seguinte: eu e minha equipe realizamos uma série de programas ligados à área ecológica. Naquela época ninguém falava em ecologia. Inclusive um dos programas, chamado Os Peçonhentos, foi feito com o Renato Tapajós, muito meu amigo, ele me lembrou outro dia. Fui fazer uma palestra numa faculdade e ele me lembrou tudo isso daí, que confesso que já nem me lembrava mais. Esse programa foi usado como carro-chefe da Globo para entrar no Japão. Junto com as novelas, eles usavam sempre o Globo Repórter. Nós mostrávamos cobra mordendo trabalhador rural, aquela coisa toda. E tudo na verdade era preparado, não é que ficávamos lá esperando, a gente sabia que a cobra ia morder porque a gente tinha colocado uma cobra pra morder ele, sem os dentes, evidentemente, mas ninguém sabia disso também! (risos) Era mais pra alertar: "não ande descalço, use uma bota". A idéia do programa era essa. "Se você for picado por algum peçonhento, tome cuidado, não adianta ir pros hospitais, vá para um lugar especializado". Era uma matéria até de utilidade pública, eu diria.

Didática, quase.
Exatamente. Lembra do Angra 1, Angra 2? Então, eles iam fazer lá entre Peruíbe e... como é que chama a cidade, lá no litoral sul [de São Paulo]... fica em direção ao Vale da Ribeira? Enfim, eles iam fazer lá uma usina, bom, nós é que denunciamos, então isso começou a incomodar. Agora o grande problema mesmo, que causou minha demissão - aliás, não só minha demissão como o fechamento do programa, que ficou um ano fora do ar - foi quando o [então presidente norte-americano] Jimmy Carter veio ao Brasil, e trouxe [dos EUA] água, comida e verdura. Falei: "Pô"! E o que a gente fez? Pegamos um professor do Instituto Biológico, que era o professor Valdemar, e fomos visitar o Cinturão Verde de São Paulo e colher as plantas para fazer as análises. Todas estavam com problemas de alta toxicidade, todas, todas!

Inclusive com componentes cancerígenos.
Todos! Havia o problema do organo-clorado, fosforado. E fomos nós que descobrimos também que Cubatão era a cidade mais poluída do mundo - outro programa que não foi para o ar. Um dos que trabalharam comigo hoje em dia é diretor do programa do Boris Casoy, e eu gosto muito dele, e ele levou um choque quando soube que aquele programa não ia pro ar. Porque a gente trabalhava mesmo no sentido de ajudar a população, esclarecer, informar, e diziam que a gente levava muito a sério a informação, e não era nada disso. Quando esse programa [sobre os agrotóxicos] foi pro ar, a venda de frutas e verduras caiu 90%. No CEASA depredaram um carro da Rede Globo. Veio um tal de Seratti, se não me engano ele era diretor do Museu de Arte, mas ele era relações-públicas, se não me engano, da Rhodia. E ele queira almoçar comigo, queria conversar, e dizer que não era o caminho correto e tal - mas já sabia que o programa ia pro ar. Me ligaram do Rio: "Não é por aí, o caminho não é esse, não é correto, vai dar problema". Pô, o problema é que podemos ser envenenados! Porque, na verdade, não é que o agricultor colocava o veneno agrotóxico porque ele gostava, mas sim porque ele não tinha formação nenhuma. Ele pensava: "Se eu coloco um pouco eu mato 10 formigas, se eu coloco um outro tanto eu mato 100". E aí era um negócio brutal. O mercúrio que tinha na bacia de Cubatão... Se você pescasse no Guarujá, você não podia comer o peixe, estava todo com mercúrio. Mas (o programa) era todo informativo, não havia nada apelativo.

Não era denuncismo, né?
Não, não, absolutamente! Ensinava como é que tem que fazer. Acontece que as multinacionais falavam assim: "Defensivo agrícola". Eu falava que era pesticida. Eles: "Não, é defensivo". Não é defensivo, é pesticida, é veneno! O problema começa aí. Para a pessoa perceber que defensivo agrícola é um negócio legal, está defendendo a agricultura, e não era verdade. Nós tentamos fazer uma pesquisa para saber quantos agricultores morreram aplicando (o agrotóxico)... e só que na região de Ibiúna, de Mogi das Cruzes, nesse Cinturão Verde, tinham morrido mais de 50 pessoas, todas envenenadas, mas elas não sabiam o porquê. Porque elas chegavam no hospital e morriam de qualquer outra coisa menos veneno, mas não sabia a causa, porque não havia pesquisa naquela época.

É mesmo um padrão de matéria muito diferente de hoje em dia. Toda essa apuração dos fatos, toda essa pesquisa... Em jornalismo televisivo não se vê mais isso.
Não, porque hoje o importante não é a informação, o importante é o entretenimento. Então você vê que hoje as revistas que mais vendem são as revistas que dão informação sobre personagem de novela. As outras são uma excrescência também. Aliás, (o tema) de uma das minhas palestras no Rio foi justamente esse. Na Bienal [do Livro], eu perguntava cadê o jornalismo investigativo? Então, um dos participantes disse que todas as informações serão fornecidas pelos serviços de informações, e é verdade. Eles vão lá, descobrem que nos correios está havendo mutreta, e dão para a revista, e a revista publica. Eles descobriam que o Waldomiro estava não sei o quê, e a pessoa [da Bienal] queria criticar estes serviços de informação. E eu não: "Olha, não tenho nada a favor nem contra, mas se eles descobriram a mutreta, parabéns para eles". Agora, a sacanagem não é essa. Cadê o jornalismo investigativo? Se a Veja publica, é porque ela tem algum interesse. Se a Istoé publica é porque ela tem outro interesse.

E mesmo o lado supostamente investigativo, que principalmente a Veja apregoa, na verdade não é uma investigação, é uma adequação à conveniência, é uma retórica que é usada para convencer o leitor de classe média que ele acha...
Olha, são cinco empresas no mundo que dominam toda a área de informação, de lazer, de hotelaria, tudo, são cinco. Então o que acontece é o seguinte, eu sempre digo, até na coluna [de maio] da Caros Amigos eu falo: a pior ditadura do mundo são os Estados Unidos, porque ela te vende a sensação que é um país livre. Sabe, todo mundo tem que ter o padrão de vida norte-americano. Mas como que é o padrão de vida de um norte-americano? Você sabe como é que se vive nos Estados Unidos? Nós sabemos porque os programas de televisão, os filmes de cinema, mostram toda aquela coisa do "legal, cara", a turma gosta: "pô, os Estados Unidos, eu quero viver nos Estados Unidos". Mas hoje é a pior ditadura do mundo, pois ela te vende essa sensação mentirosa, sabe? Então o que acontece hoje na mídia brasileira é isso: não tem mais informação, pois informação já não vende mais. Então você vai encontrar muito mais nas bancas, até nos supermercados, revistas que falam dos personagens de novela. E chegou uma época, por exemplo, em que o Brasil tomou conhecimento do Movimento dos Sem-Terra através de uma novela.

Como qualquer outro tema que seja mais controverso, e dentro daquela visão que a organização vai colocar.
É, e aí existe um estudo muito interessante, um estudo sociológico: Por que países como Brasil ou México, que poderiam ser superpotências, continuam rastejando? Por causa das novelas. Porque a novela, quando você a assiste, você sempre tem a sensação que no último capítulo a sua vida melhora. (risos) Entendeu? Porque o personagem está indo bem, tem um final feliz, então o que acontece? Com a novela, a vida da pessoa vira uma novela também, "hoje eu tô mal, mas amanhã vou melhorar", sabe aquele negócio do "amanhã vou melhorar?". E eu achei interessante esse estudo por causa disso, porque no fundo se você se entrosar tanto com a novela, sua vida acaba virando uma novela. Então você não reivindica, porque vai acontecer um milagre na sua vida e você vai resolver seu problema. O que acontece? Um dia tudo se junta, o mocinho fica com a mocinha e fica tudo ótimo.

Uma coisa fatalista, até. Uma hora o milagre acontece, alguém provê, vai estar tudo se encaminhando.
Exatamente.

E foi essa decadência - talvez não seja essa a palavra, talvez seja melhor falar deterioração - foi essa deterioração do jornalismo que fez com que você se desiludisse, se é que se desiludiu, e abandonasse o jornalismo para virar escritor em tempo integral? Ou pelo menos largar o jornalismo enquanto atividade mais constante.
Antes disso eu tinha feito outra coisa. Lembra que eu te falei que eu morei na Cidade Universitária? Eu tive que abandonar a universidade para continuar meus estudos, que ela não me ensinava completamente nada, pelo contrário, ela atrapalhava os estudos que me interessavam. Então não terminei nenhum curso, apesar de ter dado aula na faculdade e tal. É que ainda não tinha curso de jornalismo na minha época. E com o jornalismo me ocorreu a mesma coisa: para eu continuar sendo jornalista eu tive que deixar o jornalismo diário. Porque não existe mais. Você pega qualquer jornal, Folha [de São Paulo], Estadão, são sempre as mesmas notícias, entendeu? É claro que dependendo do editorial ela é dada com um enfoque diferenciado. Então pra eu continuar fazendo minhas coisas eu tive que largar o dia-a-dia, senão eu ia ficar louco. Hoje, qualquer... Eu sou do tempo em que uma notícia boa rendia duas páginas, três páginas, rendia uma puta duma página central, transformava essa notícia numa puta duma reportagem. Existia a grande reportagem. Hoje você não vê mais isso em lugar nenhum. As reportagens que você vê nas revistas, e que são mais ligadas à área de corrupção, são porque interessa à revista fazer isso.

Mesmo o jornalismo cultural, de onde eu venho, tá assim. Não conseguimos mais fazer uma grande reportagem, ainda mais se for sobre um artista - músico, escritor - sem o referendo da grande mídia. Não tem mais uma reportagem mesmo, apuração dos fatos...
Para você ter uma idéia como essa área cultural, por exemplo, está de tal maneira enraizada dentro de uma prisão, vou falar da França. Pô, a França sempre com grandes lançamentos, principalmente literários, e filmes que seriam hoje chamados "alternativos", uma bobagem muito grande (risos). A maior distribuidora, que distribui 90% dos livros, é a Dassault, que é uma indústria armamentista. Porque não existem mais as grandes empresas independentes, elas estão todas interligadas. Se você abrir uma geladeira da General Electric, você vai ver um filme da Fox, porque estão todas associadas, não existe mais a empresa livre. Uma coisa que me chamou a atenção lá na Bienal do Livro foi o seguinte: o livro barato vendeu. De autores de quem nunca ouvi falar, nem sei quem são. Mas a necessidade de encontrar uma alternativa é tanta que mesmo livros com autores desconhecidos, mas que o preço era bom, entre R$ 3,00 e R$ 9,00, foram os que mais venderam. Pô,o cara comprou o livro e nem sabe pra quê, mas ele queria ter o livro. Ou seja, se você der a possibilidade para as pessoas, elas vão querer ler. Só que não vai pagar R$ 30, 40, 50 reais. Não tem como. Na verdade existe uma mística, uma mentira, é basicamente uma mentira, que o brasileiro não gosta de ler. Na verdade, se você der a oportunidade, todo mundo gosta de ler. É claro que nós temos escolas horrorosas, o cara termina o primário sem saber ler nem escrever, tem que passar de ano de qualquer maneira. Conheci escolas onde eu moro (São Roque, SP), onde o diretor ganhava por aluno que ele passava de ano, então ele passava mesmo o aluno desistente para ele ganhar o dinheiro. É uma excrescência!

A educação tem esse caráter hoje, mas eu me lembro de uma palestra em meus tempos de faculdade que me marcou muito, onde um bacharel de Direito que trabalhava como roteirista de histórias em quadrinhos contava que largou a profissão [de advogado] porque achava, quando entrou na faculdade, que mudaria as coisas com leis, mas depois viu que se quisesse mudar, teria que ser na área de educação.
E é correto. Você muda as coisas a partir da educação mesmo. Agora é muito complicado você quebrar esse elo. A educação está necrosada, então arrebentar esse elo não é fácil.

Palmas para o Paulo Renato de Souza (ministro da Educação no governo FHC), que conseguiu assassiná-la em pouquíssimo tempo. Mudando um pouco pára seus livros, eu "testei" o Vozes do Deserto com diferentes leitores, diferentes bagagens culturais, e algumas pessoas apontaram nele um anti-sionismo que eu honestamente não consigo detectar, mas já há todo um histórico de acusações semelhantes. Você já foi acusado de radical por vários aspectos, não só por esse aí. Por que você acha que aparecem coisas tão díspares ao que você escreve?
Bom, é o seguinte: anti-sionista eu sou mesmo. Quer dizer, nunca escondi isso, sou anti-sionista abertamente, mas não anti-judeu, não tem nada a ver.

Sim, anti-sionista quanto à uma ideologia, uma....
Um movimento político, uma ideologia racista e anti-semita. "Pô, anti-semita, judeu"? Os árabes são semitas, você entendeu? Tudo isso aflorou há uns três anos, quando eu fiz um artigo, não sei se você leu, um artigo de uma página - que geralmente eu escrevo pouco para a Caros Amigos - eu fiz um artigo chamado "Serão os semitas humanos?".

Sim, ainda hoje aparecem críticas na Internet sobre isso.
Então, esse deu um problema, porque... veja, a partir do momento que você mostra para um judeu que ele não foi somente vítima mas também carrasco, ele não aceita. Porque ele começou a acreditar que os judeus foram a única vítima na Segunda Guerra Mundial. Pô, que foi vítima foi, como foram os homossexuais, como foram os ciganos, como foram os comunistas. Pô, só a União Soviética perdeu quase 30 milhões de pessoas com a Guerra. Os ciganos foram quase extintos na Segunda Guerra Mundial. Então não vamos monopolizar o sofrimento! A partir do momento em que você aceita que foi vítima, você tem que aceitar também que hoje você é carrasco. Isso para eles é doloroso, e eu entendo. Eu entendo porque toda a cultura da Segunda Guerra Mundial pra cá mostrou os judeus só como vítimas. Mas pô, eu pergunto, quem é que tá na Palestina? Tá o ucraniano, tá o polonês, tá o francês, tá o brasileiro, tá o americano, tá o russo... Quer dizer, todos os europeus foram parar lá no território asiático, sabe? Se você pegar a História... Não precisa nem pegar a História, pega a Enciclopédia Judaica-Espanhola, tá lá: "O momento de maior esplendor do judaísmo foi durante o governo dos mouros". Entendeu? Nunca houve guerra. Pelo contrário, no Alcorão, diz pra respeitar o povo. Eles são chamados "o Povo do Livro". Pô, você quer um negócio melhor, mais belo que esse, um povo inteiro ser chamado de "o Povo do Livro", que é o Antigo Testamento. O colonialismo, e é isso que as pessoas tem que entender, resolveu abrir uma "cabeça de ponte" no Oriente Médio por causa do petróleo, e Israel se deu a esse papel. Israel podia ter sido o libertador daquela região. Porque lá ainda está em Estado feudal. Não que eu defenda um governo árabe, quem me conhece sabe que eu nunca defendi um governo árabe, porque para mim eles são ainda senhores feudais. Eles não atingiram o capitalismo. Porque Israel se fosse uma democracia, teria irradiado. Por que Israel teme muito os palestinos? Porque era o único movimento no Oriente Médio que lutava pela liberdade e pela independência. Queria um estado único, no começo, democrático. Eles falam que o Irã é um país confessional, e não é verdade. Israel não tem nem constituição. A constituição deles é o Velho Testamento. As pessoas não conhecem a história, e os jovens judeus bem-intencionados também não conhecem. Então o que acontece quando você fala mal de Israel? Eles acham que você está falando mal dos judeus, e não é verdade. Você está falando mal do governo de Israel. Não tem nada a ver. Eu acho que o maior inimigo do judaísmo é o governo de Israel. Porque o Estado de Israel é um Estado Feudal? As pessoas não conhecem história! Então de repende eles vêem na televisão algo e falam: "Ah, porque aquele povo sofrido da guerra, cercado por 100 milhões de árabes, com a faca entre os dentes". É uma bobagem, nunca aconteceu isso! Então, quer conversar comigo sobre isso, vamos conversar. Pó, semita? Eu sou semita. Você quer conversar sobre viver numa sociedade de confraternização, numa sociedade solidária, vamos conversar, você tem todo o meu apoio. Agora, você criar um muro, para você evitar que um outro semita venha pro seu lado, dizendo que ele é terrorista... É que nem vários jornalistas judeus escreveram: "Pô, o palestino luta com uma espingarda. Israel não precisa nem de uma facada, eles tem os aviões, tem os tanques!". Porra, motoniveladora antes era um sinônimo de construção, hoje é de destruição, ela destrói todas as casas! Então, você quer conversar comigo? Porra, não tem nada a ver, não tenho nada contra, isso é bobagem. Quer falar em judeu, quer falar em muçulmano, quer falar em cristão, quer falar em nazismo, isso tudo é produto de uma sociedade podre! Não é minha sociedade, não é a sociedade ideal em que eu gostaria de viver. Acontece o seguinte: quem tá no poder precisa... É aquela velha história: os ingleses foram do Extremo Oriente ao Oriente Médio, dividiram a sociedade para governar, então quem está no poder hoje precisa criar isso. Veja o seguinte: quem está lucrando muito hoje? Hoje o mundo é governado por um complexo financeiro e militar. O mundo é isso. Não tem cultura, entendeu? Não tem religião, não tem educação, não tem nada! A minha grande frustração foi essa: eu nunca me esqueço que os primeiros livros falavam assim: "Israel era um país que veio para ser um país socialista". Então o primeiro país que apoiou a fundação de Israel foi a União Soviética. Os partidos de esquerda nos países árabes - que eram assassinados, mutilados, mortos, como eu disse pra você que era uma sociedade feudal - porra, a hora que falaram de Israel, eu falei: "porra, finalmente a luz no fim do túnel!" E Israel é essa excrescência que você está vendo. Na verdade, eu vou continuar escrevendo o que eu acho, sabe, e se estiver errado, eu vou ter a humildade de dizer que eu estou errado. Depois daquela matéria ["Serão os semitas humanos?"], eu recebi cinco convites para debater, e todos foram... como é que se diz... anulados pelas pessoas. Porque eu me propus: "Eu vou conversar com vocês, seja você pró-israelita, o que vocês quiserem. Se vocês me convencerem, eu vou sentar e escrever uma página dizendo que eu errei".

Mas não há esse debate, principalmente sobre essa questão.
Eu fiquei frustrado. Pensei: "Pô, finalmente vou debater". Nunca tive a oportunidade de debater, nunca. O outro lado, vamos dizer assim, os sionistas inteligentes, sabem que tenho razão. Eles preferem manipular os ingênuos, os incautos, com filmes e programas de televisão sobre a guerra, do que procurar a História propriamente dita. Você viu esse filme, Cruzada? Já saiu de cartaz! E ele não é simpático ao muçulmano, e se você fizer uma leitura mais profunda, você vai ver que o tolerante era o Saladino.

Sim, o filme até me surpreendeu por causa disso.
Sim, mas sabe o que me surpreende aqui? Porque nós estamos totalmente dominados por uma mídia vassala, que dá todas as informações erradas. Você acha que o Ridley Scott (diretor do filme), se ele não conhecesse, ele ia fazer uma bobagem? É que esse período da História, você vai ver que talvez esteja alguma coisa relatando isso no Vozes do Deserto, você vai ver que na época do Saladino, a grande desgraça do Saladino, além de ter nascido em Tikrit, que é a terra do Saddam Hussein, ele era curdo. Era perseguido por Saddam Hussein. E é o maior herói muçulmano.

E ao que tudo indica, pelos registros históricos, muito pouco religioso.
Não, esquece! Tanto que, (risos) do ponto de vista islâmico, ele era fatimita, que é uma espécie de... é uma dissidência do xiismo. Na verdade, é o seguinte: ele era um cara que, primeiro ele conhecia a História. Segundo, ele sabia onde ele estava pisando. Sabia que não tinha nada a ver com religião ali, porque se ele fosse um cara religioso, ele ia fazer igual esses malucos aí. Ia morrer a troco de nada. Ele percebeu que as Cruzadas não tinham nada de religioso e foi lá e falou: "Vamos tentar chegar num acordo". E ele foi muito tolerante mesmo. O que o Ridley Scott fez foi justamente isso. Tanto que o Ridley Scott fez o final do filme, e quem chega lá [em Jerusalém] é o Ricardo, né? O pagente, né. O nome dele depois virou Ricardo Coração-de-Leão, mas que era francês, não falava uma palavra de inglês...

E foi rei da Inglaterra.
Foi rei da Inglaterra. E ele foi salvo pelo Saladino. Se não fosse por Saladino, ele teria morrido.

Uma coisa que achei particularmente interessante sobre seus livros em geral é que eles têm referências místico-religiosas, e O Peregrino mais ainda, ele tem um caráter de parábola, eu o vejo como uma parábola...
E é mesmo.

... E nunca apareceu no meio disso nenhum maluco tomando Bourdoukan como um "evangelho", levando as idéias muito ao extremo.
(sorri) Houve três tentativas, mas eu escapei, falei que não era por aí. Você sabe como acabam essas coisas, né?

É, porque há [nas pessoas] uma carência de respostas imediatas, e o livro não oferece respostas, oferece perguntas, ele não é nada esquemático.
Ele deixa você pensar. A idéia d'O Peregrino é fazer a pessoa pensar. Pensar não só sobre a história, mas também sobre o invisível, sobre você mesmo. E o final que eu dei pra ele... É o livro de que eu mais gosto.

Realmente não é um final explicativo.
Não, está lá: "O que é que você faz?" "Eu sou um carpinteiro". José, carpinteiro, em Belém. Cada um tire a conclusão que quiser tirar, o livro termina assim. Tanto que perguntaram pra mim se não vai ter O Pergrino 2 (risos). Sabe aquela coisa da pessoa acostumada? Eu falei: "Não, acabou". "Mas como?" Lê de novo! E você tem um livro que falta uma página.

Como assim?
A da mão. Deixa eu explicar: estão fazendo uma outra edição, que eu fiquei indignado com a edição desse livro. Poderiam ter feito que nem no Vozes do Deserto, mesmo a peça O Apocalipse, mas saiu com página faltando, página em branco, e a mão que eles fizeram parecia mais quiromancia que outra coisa qualquer (risos). Que na verdade todos nós temos na mão 81 e 18 em árabe, em algarismos arábicos. E eu coloco [na página ausente] o número em árabe e tal. Porque aí a pessoa pode visualizar tudo que é falado no livro sobre a importância desses números.

O Apocalipse é uma peça de teatro. Já foi montada alguma vez?
Não, nunca foi montada nem vai ser. É um texto muito difícil, que fala muito da questão do Oriente Médio, sem glossário e sem pausa para explicação. Dificilmente vai ganhar alguma montagem, mas é outro texto do qual eu gosto muito.

Pelos compromissos de Georges Bourdoukan, a entrevista foi encerrada nesse momento, mas a conversa ainda prosseguiu extra-oficialmente, versando sobre A Incrível e Fascinante História do Capitão Mouro, Vozes do Deserto e a resenha desse último no S&Y, o que levou o escritor a dar essa entrevista exclusiva. Bourdoukan ainda falou sobre a dificuldade de concluir a seqüência de Capitão Mouro, chamada Os Filhos de Allah, e sobre sua recusa ao convite da Rede Globo para adaptar esse primeiro em forma de mini-série. Se transcrito, seria material para mais cinco páginas de entrevista, no mínimo. Mas como ele mesmo diz, "quem quiser me conhecer basta ler meus livros". Todos eles são editados pela Editora Casa Amarela e podem ser adquiridos no site www.casaamarela.com.br ou pelo site da revista Caros Amigos (www.carosamigos.com.br).

Leia também:
Vozes no Deserto, de Georges Bourdoukan, por Leonardo Vinhas
Cruzada, de Ridley Scott, por Drex Alvarez

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