Um dia de rainha
por Marcelo Silva Costa

Oito horas da manhã: uma fotógrafa descobre que está grávida após agarrar um homem em uma festa de casamento.... justamente o noivo. Pouco mais tarde, uma terapeuta irá levar o marido ao aeroporto já planejando encontro com o "pseudo" amante para a noite. Já na manhã conhecemos um motorista de ônibus que, no meio do caminho, pega sua mulher em um ponto. Ela está prestes a revelar que irá abandoná-lo. Ainda na manhã conhecemos um ex-ator de televisão atormentado pela visita da ex-mulher (e ex-atriz parceira em um programa de tv) que o abandonou 22 anos antes. 

Até as cinco horas da manhã do dia seguinte (e em 94 minutos de filme) conheceremos o desenrolar destas quatro histórias, de maneira trágica e divertida, melhor, tragicômica, com a narrativa surgindo independente para cada história, mas intercalando-se mais para frente. 

A fotógrafa se chama Marie Larve (Hélène Filières) e a descoberta da gravidez é apenas um dos vários "problemas" que ela irá enfrentar durante o dia, o que inclui corte de cabelo errado e acidentes automobilísticos, entre outras coisas. 

O motorista de ônibus é Luis (Sergi Lopez, de "Uma Relação Pornográfica"). Ele não entende porque a mulher está querendo abandoná-lo e no meio da discussão acaba deixando seu veículo no meio de uma rua e criando um imensa greve. 

O ator se chama Maurice (Victor Laneaux) e é apelidado pelos vizinhos de Barba Azul. Sua casa é uma bagunça, reflexo de sua vida pessoal após ser abandonado por Marlene (Jane Birkin), que decidiu partir com um cinegrafista. 

A terapeuta Hortense (Karin Viard) não consegue falar com seu "caso". Ele não atende o telefone e não liga. Isso a enlouquece até que ela decide ligar para um amigo dele, buscando informações, mas acaba desviando o foco do seu desejo.

Todos os personagens vivem em Paris e, durante o dia, irão se cruzar várias vezes, correlacionando-se, inclusive. Esbarrando-se aqui e ali, todos tentam trocar gentilezas e amabilidades, mas mostram-se solitários, cada um em seu mundinho normal e imperfeito. 

Filmando com um certo descuido, a diretora Marion Vernoux deixa a trama frouxa durante certo tempo, principalmente na parte inicial, em que os personagens são apresentados em cortes secos, causando uma confusão na cabeça do espectador. Porém, a graça da história (e das confusões) acaba conquistando, transformando tragédia em comédia. Alguns recursos não convencionais também contam a favor. Hortense, por exemplo, pensa mais do que fala. E seus pensamentos são hilários. E a relação teoria/prática é, ainda, mais engraçada: "Eu não vou ligar" – "Ele que ligue" – "E se ele perdeu meu telefone" – "Ok, vou ligar apenas para saber como ele está" – "Mas será que eu não estou sendo oferecida demais?"... Conforme o tempo passa Hortense vai ficando mais obcecada e, quando liga, liga mesmo, de cinco em cinco minutos. 

Outra cenas geniais surgem quando Vernoux ilustra os pensamentos dos personagens, quando não brinca com os mesmos. Uma dessas cenas se passa no metrô parisiense. Dois personagens, um de cada lado da linha, conversam, por pensamentos. A passagem é hilária. E genial. Outra mostra, literalmente, como um personagem está afogando-se em suas histórias. Impossível não rir e tentar lembrar se o mesmo já não aconteceu conosco. 

"Um dia de Rainha" (Raines d'un Jour - 2001) surge leve e descompromissado. Os personagens não têm profundidade, talvez sinalizando que os próprios relacionamentos atuais não tem. Mesmo assim, o filme não pretende soar decisivo, ao contrário, apenas sugere situações comuns para vidas de pessoas comuns. E, adaptando uma frase da modelo e eterna Sra. Jagger, Jerry Hall, "para que mentir se a verdade é bem mais interessante". Então, para que inventar histórias se a vida real é bem mais engraçada. É mais ou menos isso que fica de "Um dia de Rainha", além de boas risadas e a certeza de que, sim, o ser humano é deverás complicado. E trágico. E engraçado. 

Pode ter certeza, leitor, todo mundo já teve "um dia de rainha" na vida. Até você... (se não teve, espere, terá). Confira.