Uma
Onda no Ar
por Drex
drex2001@bol.com.br
Depois de um final de semana cinza
e frio, termino a tarde de domingo dentro de um shopping center nos subúrbios
da Grande São Paulo. Objetivo: pegar uma sessão de cinema,
para não perder o costume e o clichê. Quase me dei por vencido
ao ver a multidão de pós-adolescentes ensandecidos junto
à bilheteria. Mas não desisti, a batalha ainda não
estava perdida. Principalmente depois que percebi que a maior parte da
multidão se debatia por um ingresso para o tal de "Triple X". Eu,
inofensivamente, tinha apenas a modesta pretensão de assistir ao
brasileiro "Uma Onda no Ar" (2002). Foi até fácil, no final
havia menos de 20 pessoas na sala, o que, por outro lado, foi uma pena.
Uma pena, pois vale muito a pena ver
o filme de Helvécio Ratton ("Menino Maluquinho", "Amor&Cia"),
inspirado na estória real da mineira Rádio Favela, contando
toda a epopéia do nascimento e reconhecimento desta rádio-pirata,
da clandestinidade ao reconhecimento internacional. Além do enredo
interessante e da atuação carismática do Alexandre
Moreno (melhor ator no Festival de Gramado) vale a pena principalmente
para, nesta época de sucesso estrondoso do "Cidade
de Deus" (de Fernando Meirelles), colocar frente a frente estes dois
retratos do submundo urbano brasileiro.
Muitos já fizeram isso, mas
é mesmo inevitável a comparação. Em algumas
cenas de "Uma Onda no Ar", é impossível fugir da sensação
de déja vu com "Cidade de Deus". O retrato dO morro, o foco na juventude,
a escolha entre ser "bandido" ou ser "trabalhador", a intimidade com o
tráfico e com a violência. Tudo leva a uma íntima proximidade
de temas. Mas, ao mesmo tempo, os dois filmes são completamente
diferentes, permitindo uma analogia com a cena musical do fim dos anos
60, quando todos cantavam, à sua maneira, em oposição
ao regime militar.
É possível dizer que
"Uma onda no ar" está para Geraldo Vandré, assim como "Cidade
de Deus" está para Caetano e Gil. O primeiro, caminhando e cantando
e seguindo a canção, utiliza uma temática política
mais explícita, mais panfletária, colocando na boca da rádio
o discurso da mudança e da indignação. O segundo,
mergulhado na Tropicália e na Marginália brasileiras, desenha
um retrato das nossas contradições, joga na nossa cara uma
realidade degradante e nos abandona à mercê de nossas conclusões.
Enquanto o filme de Ratton é explanativo e idealista, podendo aí
descambar para a ingenuidade e para o maniqueísmo, o filme de Meirelles
é descritivo, cruel e realista, sendo, por isso mesmo, muito mais
contraditório e subjetivo nas suas mensagens.
Se tematicamente esta analogia até
que funciona, se pensarmos em termos de cinema, a coisa fica ainda mais
interessante. "Cidade de Deus", assim como a Tropicália, se propõe
um filme mundial. Antropofagicamente se serve das melhores influências
narrativas, tecnológicas, fotográficas do cinema mundial
contemporâneo. De onde quer que elas venham, de Hollywood à
Latinoamerica, de Coppola a Tarantino. "Uma onda no ar", assim como as
nacionalistas canções de protesto, é filho direto
da tradicional linhagem do cinema brasileiro. Uma boa estória, interessante
e cativante, mas que ainda esbarra nos mesmos problemas de sempre: falta
de ousadia narrativa, certa pobreza técnica, alguma artificialidade
nos diálogos, algumas atuações constrangedoras.
Mas, assim como musicalmente é
injusto comparar Geraldo Vandré a Gilberto Gil, não se pode
tirar os méritos de "Uma Onda no Ar". É um ótimo filme
e merece ser visto, principalmente por oferecer um novo enfoque e talvez
uma nova esperança aos corações dilacerados por "Cidade
de Deus". Este sim uma obra de arte.
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