"Tudo Para Ficar Com Ele"

por C. Lopes
clopes@areaweb.com.br
29/09/2002

Todos os anos, centenas de filmes são despejados nos cinemas. Não são sempre os mesmos, claro, mas são tão parecidos que deve ser difícil diferencia-los até mesmo para quem os produziu. Os filmes de terror são daquele tipo de sempre, os longas policiais são quase indistinguíveis entre si, e por aí vai. Criatividade não é uma coisa que anda muito em alta para os lados de Hollywood, e onde ela não dá as caras há muito tempo, o gênero cinematográfico mais engessado é a comédia romântica. São idênticas, é um verdadeiro exército de clones. Todas, com algumas poucas exceções, seguem uma espécie de fluxograma: garota romântica em busca do príncipe encantado – conhece um cara que ela acha que é o dito cujo – ele tem alguma característica que dificulta o relacionamento – eles superam isso e ficam juntos ou ela percebe que o grande amor de sua vida é o melhor amigo – nhenhenhém, nhenhenhém. O de sempre.

Tudo para Ficar com Ele é uma comédia romântica. Mas, para tentar se diferenciar das dezenas de clones, o roteiro opta por uma abordagem "diferenciada", o que é facilmente perceptível pela sinopse: Christina (Cameron Diaz) e suas amigas Courtney (Christina Applegate) e Jane (Selma Blair) não querem saber de relacionamento sério, estão interessadas apenas em diversão. Por isso não telefonam para os homens no dia seguinte, vão embora antes que eles acordem... Ou seja, as mulheres do filme tratam os homens como elas são tratadas, na vida real, por eles. Até que um dia Christina conhece Peter (Thomas Jane) e percebe, no dia seguinte, que se apaixonou por ele. Como nada é fácil em uma comédia romântica, Peter viajou para a sua cidade natal, e as amigas vão atrás dele.

Os produtores trataram isso como se fosse uma "revolução". Por isso é sintomático que o filme comece ao som de Sexual Revolution, da Macy Gray – a trilha sonora, aliás, é bem esperta. Mas desde quando a atitude das personagens é algo novo, surpreendente? Ora, qualquer representante do sexo masculino com mais de treze anos sabe como as mulheres podem ser insensíveis, cruéis, canalhas e manipuladoras, não há nenhuma surpresa nisso. O que espanta de verdade é o fato de as comédias românticas procurarem manter essa falácia até hoje. Já estamos no século XXI e esse pessoal continua querendo nos fazer acreditar em mulheres boazinhas, pequeninas, carentes e frágeis, continua querendo nos fazer acreditar em Meg Ryan. Ela não existe, é um ser irreal e anacrônico, uma múmia, um incômodo fantasma de um tempo que já passou. Nada mais justo que o cinema modernize o comportamento de suas personagens – afinal, se não podemos ser adultos, que pelo menos todos tenham direito à imaturidade.

Fica claro que o diretor Roger Kumble e a roteirista Nancy Pimental tinham boas intenções. Mas, de boas intenções... você sabe. Comédias românticas são clones, e eles tentaram fazer um clone diferente. Saiu uma aberração. O principal problema é que apostaram todas as fichas nessa abordagem "revolucionária", investindo em um humor mais sexual, sujo mesmo, escatológico. Faz sentido, algumas das piores piadas e comentários, daqueles que deixariam até um presidiário vermelho, saíram de bocas femininas. É um humor politicamente incorreto, dizem alguns. E desde quando existe humor politicamente correto? Em qualquer piada que se conte, sempre vai sobrar pra alguém, seja o português ou o papagaio fanho. Faz parte. O problema do filme não é seu humor bruto, é que esse humor não funciona, é extremamente sem graça. Todas os esquetes se baseiam no velho chavão das mulheres bem resolvidas falando sobre sexo, para fazer o público pensar "ooooh, elas falaram 'pênis'!!" – acaba sendo sempre a mesma piada, repetida indefinidamente, com pequenas variações. E quantas vezes se pode rir da mesma piada?

Outro problema do roteiro é a falta de timing - ou, para ficar dentro do clima do filme, o roteiro sofre de um caso grave de ejaculação precoce. As poucas piadas que poderiam render alguma coisa, como a do vestido na lavanderia, não têm um desfecho satisfatório, são abortadas antes do final. As demais situações de humor, além de extremamente forçadas, ganham um ar nonsense (com números musicais totalmente deslocados), muito provavelmente pelo fato da roteirista fazer parte da equipe de redatores do seriado South Park. O que funciona no desenho se torna constrangedor aqui. Mais constrangedor ainda é a vontade de deixar as atrizes, sempre que possível, em trajes sumários. O ruim é que são trajes sumários americanos, ou seja, possuem tecido suficiente para se fazer duas toalhas de mesa, e ainda sobram uns trapinhos. Não funciona, mesmo que Christina Applegate esteja batendo um bolão.

Isso também mata a parte do romance. O insólito das situações é tão grande que o inevitável final feliz se torna falso e sem sentido – afinal, se tudo tinha dado errado pras moças até ali, por que daria certo agora? E, o mais grave, não há espaço para os personagens mostrarem sua personalidade, seu jeito, impossibilitando qualquer forma de empatia com o público. Não torcemos pelo final feliz. Christina está triste pelo fora que levou. E daí? Peter está confuso com as atitudes da sua amada. E eu com isso? São só uns estranhos pagando mico, nada mais. Nenhum envolvimento, nenhuma emoção – a teoria das protagonistas acaba funcionando perfeitamente na sua relação com o público.

A precariedade do roteiro é acompanhada pela direção frouxa e sem imaginação, parece que estamos vendo um seriado de TV. Os atores fazem o que podem com o material que têm nas mãos. Além de alguns personagens secundários, como o padre e Roger, o irmão de Peter, que garantem bons momentos, o elenco masculino conta com Thomas Jane. Se você acha que ele tem sorte por fazer par romântico com Cameron Diaz, saiba que, em Pecado Original, ele também andou se engraçando com Angelina Jolie. Quem sou eu pra falar mal de um cara com um currículo desses? Selma Blair ainda não conseguiu se livrar do papel de retardada que a lançou em Segundas Intenções. Cameron Diaz está melhorando a sua performance a cada trabalho, tanto que sua atuação e seu carisma evitam um desastre ainda maior. A mais centrada, que durante toda a projeção demonstra a segurança de quem sabe que está passando vergonha, mas que está fazendo isso pelo bem de sua carreira, é Christina Applegate. Só que o filme custou US$ 43 milhões e obteve a metade disso nas bilheterias norte-americanas. Seu mico foi à toa, Christina.

O filme tenta ser mais do que um mero clone, como tantos que atacam os cinemas todas as semanas. Consegue apenas ser uma cópia malfeita. Porque, por trás de todo os seus palavrões e situações sexuais, Tudo para Ficar com Ele não consegue esconder a sua vontade de ser um filme da Julia Roberts – e isso diz tudo sobre a sua qualidade.